A poucos mais de 30 km de Blumenau, no Vale do Itajaí catarinense, existe uma cidade onde placas de rua aparecem em português e alemão, missas são celebradas em pomerano e vizinhos se cumprimentam num dialeto que a própria Alemanha praticamente esqueceu. Bem-vindo a Pomerode, a Nossa Pequena Alemanha do Brasil.
O dialeto que sobreviveu no Brasil e sumiu da Europa
Quando os imigrantes vindos da Pomerânia, região entre os atuais territórios da Alemanha e da Polônia, chegaram ao Vale do Itajaí a partir de 1863, trouxeram consigo um idioma oral, sem alfabeto próprio e quase sem registros escritos. Após a derrota alemã em 1945, a maior parte da Pomerânia foi anexada pela Polônia e a população expulsa. O pomerano tornou-se língua moribunda no continente europeu.
No sul do Brasil, isolado entre morros e várzeas, o idioma não só sobreviveu como virou política pública. Em 2010, Pomerode oficializou o alemão como língua cooficial. Em 2017, o pomerano recebeu o mesmo status pela Lei nº 2.907, tornando a cidade o único município de Santa Catarina com essa dupla cooficialização. Hoje, o Brasil tem mais falantes de pomerano do que a própria Alemanha.

Casas sem prego tombadas pelo IPHAN ao longo de 16 km
A técnica enxaimel chegou na bagagem dos colonizadores como memória muscular: vigas de madeira encaixadas por pinos, também em madeira, sem um único prego ou parafuso. Os vãos entre as vigas são preenchidos com tijolos de argila assentados numa massa artesanal de barro, cal e fibras naturais. O resultado são casas que resistiram a mais de 160 anos sem ceder.
Pomerode reúne 233 edificações nesse estilo, o maior acervo fora da Europa. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tombou 50 dessas construções distribuídas ao longo de 16 km no bairro Testo Alto, criando a Rota do Enxaimel. Em 2021, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu a rota como uma das melhores vilas turísticas do mundo, a única brasileira entre 44 destinos selecionados na edição.
O que fazer na cidade mais alemã do Brasil?
As atrações de Pomerode concentram-se ao longo da Rua Hermann Weege e no bairro Testo Alto, mas se espalham pela cidade inteira. A lista abaixo reúne o essencial e o inesperado.
- Rota do Enxaimel: 16 km de paisagem tombada pelo IPHAN no bairro rural de Testo Alto. Percorra de carro, bicicleta ou a pé. O portal de informações fica em visitepomerode.com.br.
- Zoo Pomerode Bioparque: fundado em 1932, é o mais antigo de Santa Catarina e o terceiro mais antigo do Brasil. Abriga cerca de 900 animais de mais de 220 espécies e integra programas de conservação da fauna.
- Nugali Chocolates: fábrica premiada no International Chocolate Awards com tour interativo, estufa de cacaus e degustação. Um dos chocolates mais reconhecidos do país.
- Cervejaria Schornstein: rótulos produzidos conforme a Lei de Pureza Alemã de 1516, com ingredientes importados da Alemanha. Integra a Rota das Cervejas de Santa Catarina.
- Casa Siewert: construída em 1913, a família Siewert recebe visitantes para mostrar o cotidiano dos primeiros colonizadores, com venda de produtos coloniais. Fica dentro da Rota do Enxaimel.
Confira mais um pouco do que fazer nessa cidade maravilhosa com o Canal “O Viajante: Gramado e Mundo“:
Dois recordes mundiais graças à Páscoa mais alemã do Brasil
A Osterfest é a maior festa de Páscoa do Brasil e o evento que projetou Pomerode no mapa internacional. Realizada anualmente entre fevereiro e abril, reúne danças folclóricas, gastronomia típica e as atrações que renderam ao município dois títulos no Guinness World Records.
O primeiro veio em 2017, quando a comunidade pintou à mão 105 mil casquinhas de ovos naturais para montar a Osterbaum, a maior árvore de Páscoa do mundo. O segundo chegou em 2023, com o maior ovo decorado do mundo, com cerca de 16 metros de altura, reproduzindo motivos florais da Cassúbia, região da Pomerânia. A façanha entrou na edição impressa do Guinness World Records 2024.

Gastronomia que atravessou o Atlântico há 160 anos
A mesa pomerodense carrega quatro gerações de receitas que viajaram da Europa sem se perder no caminho. Cada prato é uma arqueologia comestível.
- Marreco recheado: prato-símbolo da cidade, servido com repolho roxo, batata e cuca tradicional nos restaurantes típicos do centro.
- Cuca: bolo de farofa e canela de origem germânica, vendido em padarias e confeitarias por toda a cidade. Versões com banana, pêssego e frutas da estação.
- Apfelstrudel: torta de maçã alemã amplamente encontrada nas confeitarias. A massa esticada à mão é o diferencial das casas mais antigas.
- Embutidos artesanais: linguiças, salames e presuntos produzidos com técnicas trazidas pelos imigrantes. Disponíveis em feiras e lojas de fábrica ao longo da rota turística.
Quando ir a Pomerode e como o clima influencia o roteiro?
O clima subtropical de Pomerode define não só o que vestir, mas quais festas e paisagens o visitante vai encontrar. O calendário de eventos se organiza em torno das estações.
| Estação | Meses | Temperatura | Chuva | O que fazer |
|---|---|---|---|---|
| Verão | Dez-Fev | 20-30°C | Alta | Festa Pomerana (janeiro) e Zoo pela manhã |
| Outono | Mar-Mai | 15-26°C | Média | Osterfest (Páscoa) e Rota do Enxaimel |
| Inverno | Jun-Ago | 10-22°C | Baixa | Festival Gastronômico e cervejarias |
| Primavera | Set-Nov | 14-27°C | Média | Passeios ao ar livre e jardins floridos |
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à cidade mais alemã do Brasil?
Pomerode fica a 33 km de Blumenau pela SC-421 e a 170 km de Florianópolis pela BR-101 e SC-418, cerca de 2h30 de carro. O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Internacional de Navegantes (NVT), a aproximadamente 60 km, com voos das principais capitais. Não há aeroporto local, e o deslocamento dentro do município é feito de carro ou bicicleta.
Uma cidade que guarda o que o mundo perdeu
Pomerode preserva um idioma que emudeceu na Europa, casas centenárias sem um prego e festas reconhecidas pelo Guinness. São poucas as cidades no Brasil onde tradição, patrimônio tombado e gastronomia de origem se encontram numa escala tão humana e tão bem cuidada.
Se você nunca esteve na Nossa Pequena Alemanha, reserve pelo menos dois dias, chegue na Rota do Enxaimel antes das 9h e deixe que o cheiro de cuca nas padarias do Testo Alto decida o resto do roteiro por você.


