No leste do Tocantins, uma região de aproximadamente 34 mil km² guarda dunas douradas, cachoeiras de águas esmeralda e nascentes onde a pressão da água empurra qualquer pessoa para cima. O Jalapão é o pedaço mais bruto e bonito do Cerrado brasileiro, um território que ficou décadas escondido até virar cenário de novela e ganhar holofote internacional. Seu nome vem da jalapa-do-brasil, planta medicinal que cobre o solo arenoso.
Como dunas e cachoeiras coexistem no mesmo lugar?
A explicação está na geologia única do território. As dunas do Parque Estadual do Jalapão chegam a 40 metros de altura e foram formadas pela erosão das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo, com o vento depositando sedimentos no mesmo ponto durante milênios. É o único campo de dunas localizado dentro do bioma Cerrado, conforme aponta o portal oficial Visit Brasil.
Ao redor das dunas, o cenário muda completamente. Rios de águas cristalinas, veredas de buritis e os famosos fervedouros surgem como oásis em meio à savana seca. Os fervedouros são fontes cársticas alimentadas por rios subterrâneos, com pressão tão forte que nenhum corpo afunda. A regra de visitação é rígida: oito pessoas por vez, 20 minutos de banho e nada de protetor solar antes de entrar.
A região foi criada como parque estadual em 12 de janeiro de 2001 e ocupa quase 159 mil hectares entre os municípios de Mateiros e São Félix do Tocantins. Antes disso, era praticamente intocada pela agricultura.

Reconhecimento que ultrapassou as fronteiras do Brasil
O território jalapoeiro saiu do anonimato em 2017, quando virou cenário da novela O Outro Lado do Paraíso, da Rede Globo. Matéria da National Geographic aponta que a exposição triplicou o turismo na região quase de um dia para o outro. Mas o reconhecimento não parou no Brasil.
O capim dourado, planta nativa que brilha como ouro, é o símbolo cultural mais forte da região. Conforme registro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o artesanato produzido por comunidades quilombolas chegou a ser exposto em museus de São Paulo e tem peças exportadas para colecionadores em diversos países. Em 2024, foi sancionada a Lei nº 15.005, que reconheceu o artesanato em capim dourado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
A colheita só pode acontecer entre 20 de setembro e 20 de novembro, regra criada para garantir a sustentabilidade da planta. Cada peça é fruto de uma matéria-prima rara, disponível em apenas dois meses do ano.

O que fazer no Jalapão?
A região não tem ponto único de entrada. As atrações estão espalhadas em centenas de quilômetros de estradas de terra batida, exigindo veículos 4×4 e, na maior parte do tempo, expedições guiadas. Entre os atrativos imperdíveis, destacam-se:
- Cachoeira do Formiga: queda com águas esverdeadas e piscina natural de fundo branco, em Mateiros. Considerada uma das mais fotogênicas do Brasil.
- Cachoeira da Velha: a maior do território, com 100 metros de largura e queda de 20 metros formando dois semicírculos no Rio Novo.
- Dunas do Jalapão: campo de areia dourada com até 40 metros de altura, ponto obrigatório para o pôr do sol.
- Fervedouro do Ceiça: o maior conhecido na região, com águas tão pressurizadas que impedem qualquer pessoa de afundar.
- Cânion Sussuapara: fenda de 25 metros de profundidade com cachoeira interna, paredões e vegetação rupestre.
- Serra do Espírito Santo: trilha de 8 km até o mirante com a vista que estampa os cartões-postais do destino.
- Comunidade Quilombola Mumbuca: berço do artesanato em capim dourado, onde os visitantes acompanham o trançado das peças com as artesãs locais.
A culinária reflete o cerrado e a tradição quilombola, com pratos preparados em fogão a lenha e ingredientes regionais. Entre os destaques gastronômicos da região, aparecem:
- Galinhada caipira: arroz cozido com galinha caipira e açafrão, prato clássico do interior tocantinense.
- Peixe assado na folha de bananeira: piranha, pintado ou tucunaré dos rios da região, preparados na brasa.
- Doce de buriti: feito com a polpa alaranjada do fruto típico das veredas do Cerrado.
- Pequi: presente em arroz, frango e conservas, com sabor marcante e perfume inconfundível.
- Tapioca recheada: servida no café da manhã das pousadas, recheada com queijo, coco ou doce de leite.
Quem deseja viver uma aventura inesquecível em meio a fervedouros e águas cristalinas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 803 mil visualizações, onde mostram um guia completo com roteiro de 5 dias pelo Jalapão, Tocantins:
Quando ir ao Jalapão para aproveitar melhor cada paisagem?
A melhor época para visitar a região é entre maio e setembro, durante a estação seca. O céu fica azul, as cachoeiras mantêm volume e as estradas de terra ficam transitáveis. Entre outubro e abril, o cenário fica mais verde, mas trechos podem ficar inacessíveis com a chuva. O cuidado é redobrado em janeiro e fevereiro, meses de maior precipitação.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo da cidade de Mateiros. Condições podem variar.
Como chegar nesse paraíso remoto do Cerrado
O ponto de partida para qualquer roteiro é Palmas, capital tocantinense, que tem aeroporto com voos diários de São Paulo, Brasília e Goiânia. De Palmas até o coração do parque estadual, o trajeto leva entre 5 e 7 horas, com a maior parte do caminho em estradas de terra. Segundo o portal oficial de turismo do Tocantins, a região é acessada principalmente por três municípios: Ponte Alta do Tocantins ao sul, Mateiros no centro e São Félix do Tocantins a leste.
A maioria dos visitantes opta por expedições organizadas com agências especializadas, que incluem veículo 4×4, motorista, guia, hospedagem e alimentação. Os roteiros variam de 3 a 7 dias, sendo que o pacote de 4 a 5 dias é o mais procurado por equilibrar tempo e custo. Quem prefere ir por conta própria precisa alugar carro com tração nas quatro rodas e contar com um guia local para os trechos mais difíceis.
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O Brasil bruto que vale cada quilômetro de estrada
A região é um daqueles destinos onde a natureza ainda manda nas regras e a infraestrutura cede espaço para a paisagem. Cada cachoeira, fervedouro e duna foi moldado por milhões de anos sem interferência humana, e o esforço para chegar até lá faz parte da experiência.
Você precisa pegar a estrada e conhecer o Jalapão para entender por que esse pedaço esquecido do Cerrado virou um dos destinos de ecoturismo mais cobiçados do país.




