Alta altitude: A caverna pré-histórica está localizada a mais de 2.200 metros de altitude nos Pireneus orientais.
Mineral verde: Foram encontrados fragmentos de malaquita alterados pelo fogo em dezenas de fogueiras antigas.
Restos humanos: Pesquisadores desenterraram ossos de criança e joias simbólicas feitas de dente de urso e concha.
Uma equipe de pesquisadores surpreendeu o mundo científico ao revelar que comunidades humanas da pré-história mantinham uma ocupação muito mais intensa e planejada em ambientes de alta montanha do que se imaginava. As escavações realizadas na chamada Caverna 338, localizada no Vale do Freser, nos Pireneus orientais, trouxeram à tona evidências de que o local funcionou como um antigo acampamento voltado para o processamento inicial de cobre. A descoberta de dezenas de fogueiras repletas de pedras verdes esmagadas indica que grupos humanos subiam a altitudes extremas de forma repetida ao longo de dois milênios, desmistificando a ideia de que essas regiões montanhosas serviam apenas como pontos de passagem rápida ou marginal.
Onde fica localizada a caverna pré-histórica descoberta pelos arqueólogos?
A impressionante Caverna 338 está situada em uma posição geográfica desafiadora, a exatamente 2.235 metros de altitude, no coração do Vale do Freser, uma região sinuosa e elevada dos Pireneus orientais. Durante os trabalhos de campo, os cientistas delimitaram uma área inicial de escavação de seis metros quadrados bem próxima à entrada do abrigo rochoso, o que permitiu identificar quatro camadas distintas de ocupação sobrepostas. Essa estratigrafia revelou uma linha do tempo profunda, onde a camada mais recente continha vestígios de períodos históricos, enquanto a camada mais antiga, datada de aproximadamente 6.000 anos atrás, preservava apenas restos de carvão vegetal.
A grande surpresa para os especialistas concentrou-se nas camadas intermediárias, mais especificamente na segunda e na terceira fase de ocupação do local. Nessas seções subterrâneas, a equipe mapeou estruturas de combustão que indicam uma presença humana contínua e planejada, conectando os povos antigos de forma direta aos recursos minerais daquela cadeia de montanhas. A seguir, veja os principais detalhes estruturais identificados nas diferentes camadas da caverna:
- A primeira camada superficial apresenta artefatos de épocas históricas e uso limitado.
- A segunda camada contém estruturas de queima com cerca de 3.000 anos de idade.
- A terceira camada guarda fogueiras que datam entre 5.500 e 4.000 anos atrás.
- A quarta camada abriga os registros mais antigos com vestígios puros de carvão.

Qual é o misterioso mineral verde encontrado nas fogueiras antigas?
O grande mistério que move as investigações laboratoriais gira em torno de fragmentos abundantes de uma pedra esverdeada encontrados misturados às cinzas de 23 fogueiras antigas. Análises preliminares apontam fortemente que o material se trata de malaquita, um mineral de coloração verde-escura que é amplamente conhecido por ser uma fonte rica em cobre. Caso os exames detalhados conduzidos pela Universidade de Granada e pela Universidade Autônoma de Barcelona confirmem essa identidade, o sítio arqueológico será oficialmente reconhecido como um dos centros de mineração e processamento metalúrgico de alta altitude mais precoces da Europa.
O aspecto que mais chama a atenção dos cientistas é o estado em que essas pedras foram coletadas pelos pesquisadores. Os fragmentos verdes apresentam severas alterações causadas pelo calor do fogo, um padrão que não foi observado em nenhum outro tipo de material espalhado pelo chão do ambiente subterrâneo. Esse contraste evidencia uma manipulação deliberada e aponta para as seguintes constatações sobre a rotina dos trabalhadores pré-históricos:
- O mineral foi triturado intencionalmente antes de ser exposto às altas temperaturas.
- A queima das pedras verdes não ocorreu por acidente ou incêndios naturais na região.
- O fogo desempenhava um papel técnico e central nos processos de transformação da malaquita.
- A repetição das fogueiras prova que os grupos sabiam exatamente onde encontrar o mineral.
Quais vestígios humanos e joias raras foram desenterrados no local?
Além da atividade industrial rudimentar, a terceira camada da Caverna 338 guardava segredos de natureza profundamente íntima e ritualística que mudaram os rumos da pesquisa. Os arqueólogos desenterraram um osso de dedo e um dente de leite pertencentes a pelo menos uma criança, cuja idade estimada girava em torno dos 11 anos no momento da morte. Embora a equipe de antropólogos ainda não consiga determinar a causa do óbito ou confirmar se os dois achados pertencem ao mesmo indivíduo, a presença desses restos abre a forte possibilidade de que o fundo da cavidade esconda sepultamentos formais.
O mistério ganhou contornos ainda mais simbólicos com a descoberta de dois adornos corporais raros depositados junto aos contextos pré-históricos do segundo milênio antes de Cristo. Um dos ornamentos é um pingente delicado confeccionado a partir de uma concha marinha, objeto que possui paralelos claros em outros sítios arqueológicos da Catalunha e sugere que essas populações mantinham redes de troca ou tradições compartilhadas com comunidades litorâneas. O segundo item é um pingente exclusivo feito com um dente incisivo de urso-pardo, uma peça considerada muito incomum que pode representar uma forte conexão simbólica dos caçadores com a fauna mística do ambiente montanhoso local.
Como essa descoberta altera o entendimento sobre a vida na pré-história?
Por muitas décadas, os livros de história e os manuais científicos trataram as zonas de alta montanha como territórios marginais e inóspitos, locais que as comunidades do passado visitavam apenas de forma esporádica e apressada. A Caverna 338 quebra esse paradigma ao demonstrar uma densidade de vestígios e uma organização interna que sugerem ocupações de curta a média duração, mas que aconteciam de maneira cíclica e persistente ao longo de gerações. O fato de os grupos retornarem ao mesmo ponto exato por mais de 2.000 anos prova que os Pireneus faziam parte do mapa econômico regular desses povos.
Essa rotina sazonal estava diretamente ligada à exploração de matérias-primas valiosas e ao domínio de tecnologias complexas de transformação do território. Para compreender o impacto dessa nova visão histórica sobre o comportamento das sociedades antigas, os arqueólogos destacam os seguintes pontos de mudança conceitual:
- Os ambientes de alta altitude eram integrados ao planejamento econômico anual dos grupos.
- A busca por minérios como a malaquita motivava expedições organizadas rumo aos picos.
- As montanhas não eram barreiras geográficas intransponíveis, mas sim fontes de recursos.
- A infância e os rituais fúnebres faziam parte da vivência diária nesses acampamentos altos.

Quais serão os próximos passos das investigações arqueológicas na região?
Embora os resultados obtidos até o momento sejam revolucionários, os coordenadores das escavações deixam claro que os trabalhos na Caverna 338 estão longe de terminar. Como as sondagens terrestres ainda não atingiram a rocha matriz ou a profundidade total do solo arqueológico, a sequência cronológica completa do local permanece parcialmente desconhecida. Uma nova campanha de escavações, programada para o período de verão, pretende expandir a área aberta e buscar novas evidências que ajudem a traçar a origem exata dos minerais verdes.
Os cientistas também aguardam dados geoquímicos finais para mapear se o cobre extraído nessa caverna abastecia comunidades distantes no continente europeu. Financiado por órgãos de cultura da Catalunha e pelo Ministério da Ciência, Inovação e Universidades, o projeto promete reescrever os capítulos iniciais da metalurgia europeia. Enquanto as picaretas e pincéis revelam novas estruturas, a velha montanha deixa de ser vista como um deserto de gelo para se consolidar como um vibrante palco de inovação tecnológica e conexões espirituais dos nossos antepassados.
Referências: “A más de 2.000 metros: la Cueva 338 redefine la prehistoria de los Pirineos”, dos autores Universitat Autònoma de Barcelona, publicado na revista/portal EurekAlert!.

