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A formiga brasileira que cultiva o próprio alimento dentro do formigueiro há milhões de anos

23 de junho de 2026, 12:00 h
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A formiga brasileira que cultiva o próprio alimento dentro do formigueiro há milhões de anos

As saúvas carregam uma história de milhões de anos.

Nubia Rangel

Nubia Rangel

Curiosidades
  • Agricultoras pré-históricas: As saúvas brasileiras cultivam fungos dentro do formigueiro há cerca de 66 milhões de anos, muito antes de o ser humano descobrir a agricultura.
  • Lavoura subterrânea: Cada formigueiro funciona como uma verdadeira fazenda, onde as folhas viram adubo para o fungo que alimenta toda a colônia.
  • Herança do asteroide: A agricultura das formigas teria começado logo após o impacto que extinguiu os dinossauros, quando os fungos dominaram o planeta.

Difícil imaginar, mas a formiga saúva, aquela mesma que aparece carregando pedacinhos de folha pelos jardins do Brasil, é uma agricultora experiente há dezenas de milhões de anos. Um estudo publicado na revista Science mostrou que essa formiga brasileira cultiva o próprio alimento dentro do formigueiro desde a época em que os dinossauros foram extintos. Ou seja, enquanto a gente acha que inventou a agricultura há 10 mil anos, esses insetos minúsculos já estavam no ramo bem antes.

O que a ciência descobriu sobre a agricultura das formigas

Uma equipe internacional liderada pelo entomólogo Ted Schultz, do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, analisou o DNA de 475 espécies de fungos e 276 espécies de formigas para montar uma espécie de árvore genealógica gigante. O resultado foi surpreendente: a agricultura das formigas surgiu há cerca de 66 milhões de anos, bem na época em que um asteroide enorme atingiu a Terra e provocou a extinção dos dinossauros.

O impacto levantou tanta poeira que bloqueou a luz do Sol por meses, prejudicando a fotossíntese e matando boa parte das plantas. Para os fungos, porém, foi um prato cheio: eles se multiplicaram aproveitando todo aquele material vegetal em decomposição. Foi nesse cenário caótico que algumas formigas começaram a se aproximar dos fungos, dando início a uma das parcerias mais antigas da natureza.

Como essa agricultura ancestral funciona na prática

As saúvas, do gênero Atta, são as estrelas dessa história aqui no Brasil. Elas não comem as folhas que cortam, apesar do que muita gente pensa. Na verdade, essas folhas servem de “adubo” para cultivar o fungo Leucoagaricus gongylophorus dentro do formigueiro. É o fungo que alimenta as operárias, as larvas e a rainha. Funciona quase como uma horta vertical bem organizada, com setores diferentes para cuidar, regar e colher.

O mais curioso é que cada rainha, ao sair do formigueiro para fundar uma nova colônia, leva um pedacinho desse fungo guardado na boca. É como receber a receita da vovó: uma herança viva que vai passando de geração em geração há milhões de anos. Sem esse fungo, a colônia simplesmente não sobrevive, e o fungo, por sua vez, depende totalmente das formigas para existir.

A formiga brasileira que cultiva o próprio alimento dentro do formigueiro há milhões de anos
Um antigo evento mudou o rumo dessa parceria natural.

Coevolução: o que mais os pesquisadores encontraram

Os cientistas descobriram que houve um segundo grande capítulo na história da agricultura das formigas, há cerca de 27 milhões de anos. Foi quando a América do Sul ficou mais seca, com áreas de floresta dando lugar a campos. As formigas, que viviam em ambientes úmidos, levaram seus fungos para essas regiões mais secas, isolando-os dos parentes selvagens.

Esse isolamento foi essencial. Os fungos se tornaram tão dependentes das formigas que viraram organismos domesticados, exatamente como o milho ou o trigo são para nós. A diferença é que as formigas chegaram nesse ponto dezenas de milhões de anos antes de qualquer ser humano sonhar com uma plantação.

Pontos-chave do estudo
🦖
Origem com o asteroide

A agricultura das formigas começou há 66 milhões de anos, logo após o impacto que extinguiu os dinossauros e favoreceu os fungos.

🍄
Parceria inseparável

Saúva e fungo vivem em simbiose total: a formiga cuida do cultivo e o fungo alimenta a colônia inteira no formigueiro.

🌱
Domesticação ancestral

Há 27 milhões de anos, as formigas domesticaram seus fungos na América do Sul, muito antes da agricultura humana.

Os detalhes completos da pesquisa foram publicados na revista Science e podem ser consultados neste estudo sobre a coevolução entre formigas e fungos, que reúne dados genéticos de centenas de espécies analisadas pela equipe internacional.

Por que essa descoberta importa para você

Pode parecer só uma curiosidade biológica, mas entender como a formiga saúva mantém uma lavoura subterrânea por milhões de anos sem doenças, pragas ou desequilíbrios é um baita aprendizado. Os pesquisadores acreditam que esses insetos podem nos ensinar muito sobre agricultura sustentável, controle natural de fungos indesejados e até reciclagem de matéria orgânica.

No Brasil, onde as saúvas são consideradas pragas agrícolas, esse olhar muda completamente a conversa. Em vez de só combater, dá para investigar como elas conseguem manter um sistema produtivo tão estável, algo que a nossa agricultura ainda persegue com bastante dificuldade e muito agrotóxico.

A formiga brasileira que cultiva o próprio alimento dentro do formigueiro há milhões de anos
Pequenos insetos desenvolveram estratégias surpreendentes.

O que mais a ciência está investigando sobre as formigas cultivadoras

Os próximos passos da pesquisa envolvem entender melhor o papel das bactérias que vivem junto com o fungo dentro do formigueiro e que ajudam a controlar pragas naturais. Cientistas da Unesp e de instituições americanas, por exemplo, já investigam se esses microrganismos do “jardim das formigas” poderiam ser usados para degradar plásticos como o PET, abrindo portas para soluções ambientais inovadoras.

Da próxima vez que você cruzar com uma fileira de saúvas carregando folhinhas pelo quintal, lembre-se: ali passa uma das agricultoras mais antigas do planeta, herdeira de uma tradição que começou com a queda de um asteroide. A ciência ainda tem muito o que aprender com esses pequenos gigantes do solo brasileiro.

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