A 230 km de Brasília, no nordeste de Goiás, a Chapada dos Veadeiros guarda um dos cenários geológicos mais antigos do planeta. O Parque Nacional está sobre um platô de quartzito com 1,8 bilhão de anos e é cortado pelo Paralelo 14 Sul, a mesma linha imaginária que atravessa Machu Picchu, no Peru.
De povoado de caçadores a Patrimônio Mundial da Humanidade
O nome vem do antigo povoado de Veadeiros, onde viviam os caçadores e seus cães caçadores, conhecidos como veadeiros. A região foi polo de mineração de cristal por décadas até que o Ibama interrompeu a atividade na década de 1990 para conter a degradação.
O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi criado pelo Decreto 49.875, assinado pelo então presidente Juscelino Kubitschek em 11 de janeiro de 1961, com 625 mil hectares iniciais. Sofreu reduções drásticas ao longo das décadas e foi ampliado para 240 mil hectares por decreto no Dia Mundial do Meio Ambiente de 5 de junho de 2017. A UNESCO declarou a unidade Patrimônio Natural da Humanidade em 2001.

Por que essa chapada virou centro místico de turismo no Brasil?
A abundância de afloramentos de quartzo faz a região ser vista como centro de concentração de energia. O solo rico em cristais reflete luz com intensidade incomum quando observado por satélites. O Paralelo 14 Sul que atravessa a chapada também passa por Machu Picchu, coincidência que alimenta o misticismo local.
A ocupação mística começou em 1957, antes da criação do parque, com a chegada de uma missão espiritual vinda de Recife que fundou a Fazenda Bona Espero, instituição filantrópica que ensina esperanto. Hoje, mais de 40 grupos filosóficos e religiosos têm presença registrada em Alto Paraíso de Goiás.

Quais são as três bases para visitar a chapada?
O parque e as principais atrações estão distribuídos por seis municípios, com três cidades concentrando o turismo. Cada base tem perfil diferente.
- Alto Paraíso de Goiás: a maior das três, com mais infraestrutura, restaurantes, pousadas, supermercados e lojinhas de cristais.
- Vila de São Jorge: porta de entrada do parque, a 36 km de Alto Paraíso por estrada de terra, com ruas de chão batido e clima de vila do interior.
- Cavalcante: a 90 km de Alto Paraíso, dá acesso ao território Quilombo Kalunga, reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro.
Quem deseja planejar uma viagem inesquecível para a Chapada dos Veadeiros, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 141 mil visualizações, onde apresentam um roteiro com mais de 25 atrações, incluindo dicas sobre as melhores bases de hospedagem:
O que fazer entre cachoeiras gigantes e formações lunares?
As atrações se dividem entre o interior do parque (com guia opcional) e propriedades particulares no entorno. Cinco a sete dias dão para conhecer as principais.
- Trilha dos Saltos do Rio Preto: principal trajeto do parque, com 11 km de ida e volta, leva aos dois saltos do Rio Preto com 80 e 120 metros de altura. Banho permitido no salto de 80 metros.
- Vale da Lua: formações rochosas cinzentas esculpidas pelo Rio São Miguel ao longo de milhões de anos, com aspecto lunar e piscinas naturais.
- Cachoeiras Almécegas I e II: duas quedas de 50 e 15 metros próximas ao centro de Alto Paraíso, na Fazenda São Bento.
- Cachoeira Santa Bárbara: águas azul-turquesa dentro do território Quilombo Kalunga, em Cavalcante, acesso somente com guia local da comunidade.
- Mirante da Janela: formação rochosa que se assemelha a uma janela, com vista para os Saltos I e II do Rio Preto.
- Jardim de Maytrea: ponto de contemplação à beira da GO-118, entre Alto Paraíso e São Jorge, com vista para o Morro da Baleia e o Morro do Buracão.
- Cachoeira do Segredo: queda imponente cercada por paredões e mata, acesso por trilha de média dificuldade.
- Cataratas dos Couros: complexo de quedas no Rio dos Couros, em São João da Aliança, com banho em piscinas naturais.
O Cerrado de altitude e as Comunidades Kalunga
O parque protege um dos trechos mais preservados do bioma Cerrado, considerado a savana com maior biodiversidade do planeta. Segundo o ICMBio, são mais de 6 mil espécies de árvores e 800 de aves catalogadas. A ampliação de 2017 passou a proteger 17 espécies de flora e 32 de fauna ameaçadas, como o lobo-guará, a onça-pintada e o pato-mergulhão, além de 466 nascentes que abastecem as bacias amazônica e do São Francisco.
As Comunidades Kalunga, em Cavalcante, foram fundadas por escravos fugitivos no século XVIII e são reconhecidas oficialmente como Patrimônio Cultural Brasileiro. O território guarda quilombos centenários e dá acesso a cachoeiras espetaculares como a Santa Bárbara e a Candaru.
A gastronomia goiana de cidade serrana
A culinária mistura tradição goiana, opções vegetarianas e veganas (herança da ocupação mística) e ingredientes do Cerrado.
- Pequi: fruta símbolo do Cerrado, presente em pratos como arroz com pequi e galinhada, tradição goiana.
- Empadão goiano: massa amarela recheada com frango, linguiça, queijo, azeitona e ovos, prato típico de Goiás.
- Pratos veganos e orgânicos: forte cena em Alto Paraíso, com restaurantes especializados em comida natural e produtos locais.
- Frutos do Cerrado: baru, buriti, jatobá e mangaba em sobremesas, sucos e licores artesanais.
Quando ir à Chapada dos Veadeiros?
A chapada tem duas estações bem definidas. A seca, de maio a outubro, é a alta temporada e oferece as melhores condições para trilhas. A chuvosa traz volume máximo às cachoeiras, mas pode fechar alguns atrativos por risco de trombas d’água.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar à chapada saindo de Brasília
O aeroporto mais próximo é o Aeroporto Internacional de Brasília, a 230 km de Alto Paraíso. De carro, o trajeto leva cerca de 3 horas pela BR-020 até Formosa e depois pela GO-118, estrada asfaltada e panorâmica. De Goiânia, são 420 km pela BR-060 e GO-118. A Real Expresso opera linhas de ônibus entre Brasília e Alto Paraíso. A Vila de São Jorge fica a mais 36 km por estrada de terra, com posto de gasolina apenas em Alto Paraíso ou São João da Aliança.
Conheça o platô bilionário onde o Cerrado encontra o céu
Poucos lugares no Brasil conseguem reunir rochas com 1,8 bilhão de anos, cachoeiras de 120 metros, quilombos centenários e o mesmo paralelo de Machu Picchu em um só território. O nordeste goiano entrega tudo isso em três horas de carro da capital federal.
Você precisa subir o planalto e entender por que essa chapada virou um dos destinos mais antigos e ao mesmo tempo mais vivos do Cerrado brasileiro.

