A dificuldade que esses gigantes têm com uma das operações matemáticas não é um mero acaso — ela revela um viés do cérebro que nós também enfrentamos durante a infância. Além disso, o método engenhoso que os cientistas precisaram inventar para aplicar um “teste cego” sem que a girafa visse a resposta final é fascinante. Entenda abaixo como a mente delas foi colocada à prova.
Ninguém esperaria que uma girafa fosse boa em aritmética. Mas um experimento conduzido pelo Zoo de Barcelona, em parceria com a Universidade de Barcelona e o Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, revelou que esses animais conseguem combinar quantidades de forma consistente, um processo semelhante à soma, sem nunca ter visto o resultado final da operação. O estudo, publicado em 26 de junho de 2026 no Scientific Reports, é a primeira investigação da capacidade aritmética em girafas e aponta uma assimetria clara: somar vai bem, subtrair não.
Como o experimento foi desenhado?
Os pesquisadores Iker Loidi e Jordi Galbany, do Departamento de Psicologia Clínica e Psicobiologia da Universidade de Barcelona, testaram quatro girafas em cativeiro no Zoo de Barcelona: duas fêmeas (Nuru, 15 anos; Yalinga, 21 anos) e dois machos (Nakuru, 8 anos; Njano, 7 anos). Os animais foram submetidos a tarefas com recipientes opacos contendo pedaços de cenoura, o alimento preferido da espécie.
A chave do experimento estava no que as girafas não viam. Elas observavam a quantidade inicial em dois recipientes e depois viam itens sendo movimentados, mas sem nunca enxergar o resultado final. Tinham de escolher qual recipiente ficou com mais comida usando apenas o raciocínio sobre a operação realizada. O estudo incluiu três tarefas experimentais e dois controles:
- Tarefa de combinação: itens eram adicionados a um dos recipientes, como uma soma.
- Tarefa de dissociação: itens eram retirados de um dos recipientes, como uma subtração.
- Tarefa de eventos subsequentes: itens retirados de um recipiente eram transferidos para o outro.
- Controles com quantidades visíveis e não visíveis, sem manipulação.

Qual foi o desempenho de cada animal?
O resultado mais importante foi a diferença de acerto entre a tarefa de combinação e a de dissociação. Na combinação, todas as quatro girafas acertaram acima do nível do acaso. Na dissociação, nenhuma delas teve desempenho significativo.
A tabela abaixo resume o desempenho médio por tarefa, conforme os dados do artigo científico:
Por que girafas conseguem somar, mas não subtrair?
Os pesquisadores propõem que as girafas operem com o sistema de magnitude analógica, uma capacidade descrita em primatas, aves e peixes que permite representações numéricas aproximadas. Esse sistema tem um viés natural: acumular quantidades é cognitivamente mais acessível do que acompanhar a remoção delas. A combinação exige que o animal some o que viu, enquanto a dissociação exige rastrear o que foi retirado e ainda assim escolher o restante corretamente.
Em humanos, neurociência mostra que subtração ativa regiões cerebrais diferentes de adição e demora mais para ser processada. Crianças desenvolvem subtração mais tarde que adição, e muitas usam estratégias como “subtrair pela adição” para resolver contas de diminuir. O padrão das girafas é consistente com essa dificuldade mais ampla que parece transcender a espécie.

Dois dos quatro animais se destacaram no experimento?
Sim, e esse foi um dos achados mais relevantes. Dois animais, Nuru e Njano, acertaram a tarefa de combinação mesmo em tentativas onde a estratégia mais simples, a de escolher o recipiente que o experimentador tocou, não funcionaria. Nakuru e Yalinga acertaram predominantemente nas tentativas em que essa estratégia mais simples estava disponível.
A diferença indica que Nuru e Njano podem ter usado um raciocínio mais elaborado sobre as quantidades, e não apenas um atalho comportamental. Notavelmente, Nuru já havia se destacado em estudos anteriores de cognição numérica realizados pelos mesmos pesquisadores no Zoo de Barcelona.
O que o estudo não responde e o que ele abre?
Os próprios autores são explícitos sobre as limitações: quatro animais é uma amostra pequena para generalizar a toda a espécie. O estudo também não separa se as girafas usam número de itens ou variáveis contínuas como massa e área para fazer as escolhas, o que exigiria um protocolo experimental diferente. E o número de tentativas na tarefa de eventos subsequentes pode ter sido insuficiente para detectar resultados significativos.
O que o estudo estabelece com solidez é que a capacidade de combinar quantidades existe em pelo menos dois indivíduos testados. Se você nunca associou girafa à aritmética, elas tampouco estavam na lista de pesquisadores até o experimento ser desenhado: basta que alguém pergunte a questão certa para que uma resposta inesperada apareça.

