Acima da Linha do Equador, na margem direita do rio Branco, fica a cidade que rompe o mapa do Brasil. Boa Vista, capital de Roraima, é a única entre as 26 capitais do país situada inteiramente no Hemisfério Norte. A cidade foi a terceira capital planejada do Brasil, depois de Belo Horizonte e Goiânia, e ganhou um traçado urbano em formato de leque desenhado entre 1944 e 1946 pelo engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson. As avenidas radiais convergem para a Praça do Centro Cívico e popularizaram a comparação com as ruas de Paris.
Como uma fazenda virou a capital mais setentrional do Brasil
Boa Vista nasceu como fazenda em 1830, propriedade do capitão Inácio Lopes de Magalhães, na margem direita do rio Branco. O povoado foi elevado a freguesia em 9 de julho de 1890, data que hoje marca o aniversário oficial da cidade. Durante quase meio século, foi apenas um núcleo ligado à pecuária e ao comércio fluvial, isolado do resto do país.
A virada veio com a Segunda Guerra Mundial. O presidente Getúlio Vargas criou o Território Federal do Rio Branco em 13 de setembro de 1943, e Boa Vista foi escolhida como capital. O território passou a se chamar Roraima em 1962 e foi elevado a estado pela Constituição de 1988, conforme registra a Prefeitura de Boa Vista. A cidade concentra hoje cerca de dois terços da população do estado.

O engenheiro que desenhou o leque e a polêmica sobre Paris
O concurso para o plano urbanístico foi vencido em 21 de setembro de 1944 pela empresa Riobras Industrial Ltda, do engenheiro civil Darcy Aleixo Derenusson. Formado pela antiga Escola Politécnica Nacional, no Rio de Janeiro, Derenusson havia participado do Plano Diretor de Volta Redonda antes de assumir o desenho da nova capital roraimense. O resultado foram avenidas radiais que partem da Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco e se abrem como um leque.
A popular comparação com as ruas de Paris virou polêmica entre arquitetos. O filho do engenheiro, o arquiteto Darcy Romero Derenusson, afirmou em entrevista à Folha de Boa Vista que o projeto teve inspiração no conceito de cidade-jardim, e não na capital francesa. Já a Universidade Federal de Roraima (UFRR) sustenta que o modelo radial concêntrico tem origem na arquitetura francesa, o que aproxima a comparação com Paris. O fato é que o desenho ficou pronto antes de 1946, quando ainda não havia capital projetada com essa forma no Brasil.

O Hemisfério Norte do Brasil tem clima e dias diferentes do resto do país
A posição acima da Linha do Equador faz de Boa Vista uma exceção climática brasileira. Enquanto o resto do país tem verão entre dezembro e março, na capital roraimense a estação chuvosa vai de maio a agosto, com precipitação média mensal acima dos 350 milímetros em maio, segundo os dados climáticos do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC).
O calor é constante o ano inteiro, com temperaturas entre 23°C e 36°C nos meses mais quentes. A cidade fica mais próxima do Caribe, em termos de rota aérea, do que do litoral brasileiro, e faz fronteira com Venezuela e Guiana. Essa posição rendeu também influências culturais regionais que aparecem na gastronomia e na música, com a vertente conhecida como roraimeira.
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O que fazer em Boa Vista além de procurar o ponto exato do Equador
A capital concentra a maioria das atrações em uma área compacta no entorno do rio Branco. Estas são as paradas obrigatórias:
- Orla Taumanan: inaugurada em julho de 2004 sobre 6,5 mil metros quadrados de estrutura suspensa às margens do rio Branco, com vista para o pôr do sol. Taumanan significa paz na língua macuxi.
- Parque do Rio Branco: complexo turístico inaugurado em 2020 com quadras poliesportivas, praias artificiais e passarela integrada à Orla Taumanan.
- Praça do Centro Cívico Joaquim Nabuco: centro geográfico da cidade onde convergem todas as avenidas radiais do plano de Derenusson. Abriga as sedes dos três poderes estaduais.
- Praça das Águas e Portal do Milênio: inaugurada no ano 2000, tem fontes coloridas e portal comemorativo, virou o programa preferido das noites quentes da capital.
- Monumento aos Pioneiros: escultura de 1995 do artista Luíz Canará em homenagem aos primeiros imigrantes que ocuparam Roraima.
- Praia do Caçari: praia fluvial no rio Branco com águas claras e infraestrutura básica, ponto de encontro nos fins de semana.
A cozinha local mistura ingredientes amazônicos com influência indígena e regional. Vale provar:
- Tucunaré e tambaqui na brasa: peixes do rio Branco assados ou grelhados, servidos com farofa e baião nos restaurantes do centro.
- Damorida: caldo indígena macuxi de peixe com pimenta jiquitaia e jambu, herança das comunidades originárias da região.
- Paçoca de carne: prato típico de carne-seca com farinha de mandioca. Boa Vista chegou a produzir a maior paçoca do mundo, registrada no Guinness World Records.
- Tapioca recheada: vendida em barracas no entorno da Orla Taumanan, virou comida noturna típica.
- Sucos de frutas amazônicas: cupuaçu, taperebá, buriti e cubiu, frutas regionais que aparecem em sorveterias e lanchonetes do centro.
Quem busca explorar o extremo norte do Brasil e quer planejar uma viagem inesquecível, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Estevam Pelo Mundo, que conta com mais de 468 mil visualizações, onde Lucas Estevam mostra o que fazer em Boa Vista e na Serra do Tepequém em Roraíma:
Quando o clima ajuda a aproveitar a capital roraimense
A inversão das estações em relação ao restante do Brasil exige planejamento. A janela ideal para conhecer a cidade vai de setembro a abril, quando as chuvas diminuem e os rios baixam:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a capital que fica no outro lado do Equador
Boa Vista é o tipo de destino que rompe a geografia mental do brasileiro. A única capital totalmente no Hemisfério Norte combina um plano urbano em formato de leque, fronteiras com dois países e uma orla com vista para o rio Branco que pouca gente conhece.
Você precisa atravessar a Praça do Centro Cívico, descer até a Orla Taumanan ao pôr do sol e provar uma damorida para entender por que essa capital esquecida está geograficamente mais perto do Caribe do que do litoral brasileiro.




