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China amplia compras de soja do Brasil e pressiona exportações dos EUA no primeiro semestre

Safra recorde e preços mais competitivos reforçam a liderança sul-americana no maior mercado importador

Grãos de soja são descarregados de uma colheitadeira em uma fazenda em Sarandi, no Rio Grande do Sul, em 2 de abril de 2024 (Foto: REUTERS/Diego Vara)

247 – A China deve aumentar as importações de soja brasileira no primeiro semestre de 2026, impulsionada por uma safra recorde no Brasil e por preços mais competitivos, o que tende a consolidar o domínio da América do Sul no abastecimento do maior importador mundial de oleaginosas. As informações são da Reuters, em reportagem assinada por Naveen Thukral, Ella Cao e Ana Mano, publicada em 26 de janeiro.

Segundo fontes comerciais ouvidas pela agência, esmagadores privados chineses já estão fechando acordos para embarques a partir de fevereiro, à medida que a colheita brasileira ganha ritmo, amplia a oferta e pressiona as cotações. O movimento pode reduzir o espaço para compras dos Estados Unidos quando a nova temporada de exportação norte-americana começar, tradicionalmente, em setembro.

A virada do mercado chinês e o peso do preço

A dinâmica descrita pela Reuters indica um mercado em que a lógica econômica fala alto, especialmente para o setor privado chinês. Com a soja brasileira chegando mais barata, processadores tendem a privilegiar o produto do Brasil, enquanto a soja dos EUA permanece relativamente mais cara, tanto por diferencial de preço quanto por estrutura tarifária.

A reportagem afirma que as compras de cerca de 12 milhões de toneladas de soja dos EUA, realizadas desde o fim de outubro, foram feitas integralmente por estatais como Sinograin e COFCO. Ainda assim, os preços elevados do grão norte-americano teriam deixado de lado os compradores privados, que operam com margens mais apertadas e maior sensibilidade ao custo final.

A diferença de tarifas é um elemento central nessa equação. De acordo com a Reuters, a China aplica tarifa de 13% sobre a soja dos EUA, enquanto o produto brasileiro enfrenta tarifa de 3%. Essa assimetria torna a origem norte-americana menos atraente para esmagadores privados, mesmo em cenários em que o governo chinês busque sinalizar compromisso com acordos comerciais.

Tarifas, diplomacia e o cálculo político entre Pequim e Washington

A Reuters também aponta que, mesmo se Pequim determinar novas aquisições por estatais para cumprir compromissos de um acordo comercial com Washington, o apetite do setor privado pode seguir limitado, dado o impacto das tarifas e a diferença de custos frente ao Brasil.

O texto traz a leitura de Dan Wang, diretor para China do Eurasia Group, sugerindo que parte das compras atuais pode estar vinculada a um esforço de manutenção de um ambiente diplomático menos conflitivo. "Os volumes atuais de compra de soja dos EUA pela China são limitados, suficientes apenas para manter uma atmosfera política positiva antes da reunião de abril entre os líderes dos dois países", disse ele, segundo a Reuters.

A perspectiva, na avaliação citada, é de que concessões adicionais dependeriam de resultados concretos em temas sensíveis, como tarifas e o dossiê de Taiwan. "Se a reunião de abril produzir mais reduções de tarifas e certas garantias sobre a questão de Taiwan, a China poderá se comprometer com as compras de soja, mas os volumes provavelmente permanecerão limitados", acrescentou Wang, conforme a reportagem.

No campo das agendas oficiais, a Reuters registra que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que visitaria a China em abril, enquanto Xi Jinping viajaria aos EUA no fim de 2026. Em paralelo, o mercado segue precificando o curto prazo com foco em oferta, frete, prêmios e margens.

Soja dos EUA: compras abaixo do ritmo e conta mais salgada

Os números apresentados pela Reuters sugerem um contraste relevante. Apesar de as estatais chinesas terem comprado cerca de 12 milhões de toneladas de soja dos EUA desde o fim de outubro, o volume permanece abaixo das compras chinesas de aproximadamente 23 milhões de toneladas no ano-safra de 2024/25.

A reportagem detalha ainda comparações de preços que ajudam a entender a preferência pelo Brasil. Em 18 de novembro, a soja brasileira para embarque em dezembro com destino à China estava cotada a US$ 507,90 por tonelada, abaixo dos US$ 516,90 dos suprimentos do Golfo dos EUA e dos US$ 510,50 da origem do Noroeste do Pacífico dos EUA, em base custo e frete, excluídas tarifas.

Nesse patamar, diz a Reuters, a China teria pago de US$ 31 milhões a US$ 108 milhões a mais por 12 milhões de toneladas de soja dos EUA do que pagaria por cargas brasileiras. A diferença, somada ao custo tarifário, reforça o incentivo econômico para intensificar a origem sul-americana, sobretudo quando a oferta do Brasil se amplia com o avanço da colheita.

Safra recorde no Brasil consolida liderança e pressiona prêmios

Do lado brasileiro, a perspectiva é de abundância e competitividade ao longo de boa parte do ano. A Reuters cita operadores que não esperam novas reservas relevantes de soja dos EUA, mencionando preços mais altos e colheitas abundantes previstas em Brasil e Argentina.

Adelson Gasparin, corretor de grãos no sul do Brasil, atribui a vantagem do país ao tamanho da safra e ao efeito prolongado dessa oferta sobre os preços. "Nossa grande safra torna nosso produto mais barato do que o dos EUA, e isso tende a durar até a chegada da nova soja dos EUA a partir de setembro", afirmou, segundo a Reuters, ao projetar que a China mantenha níveis elevados de importação.

A reportagem acrescenta que a soja brasileira embarcada em fevereiro é ao menos 50 centavos de dólar por bushel mais barata do que embarques do Golfo dos EUA em base free-on-board, e pode ser até 75 centavos de dólar mais barata para embarques de março. Com a colheita acelerando, a tendência seria de pressão adicional sobre preços no Brasil.

Dan Basse, presidente da AgResource Co., prevê aumento do diferencial entre as origens. "Acho que a diferença vai aumentar", disse ele, segundo a Reuters, indicando que o spread poderia chegar a algo próximo de um dólar.

Ainda segundo o texto, compras pontuais de soja dos EUA poderiam ocorrer durante o pico da exportação sul-americana, porém em volumes mínimos, a menos que haja diretriz do governo chinês para elevar aquisições norte-americanas, ou que um congestionamento logístico no Brasil, por exemplo com cargas de milho, afete a dinâmica portuária. Um trader ouvido pela Reuters foi direto ao resumir a hipótese de uma virada pró-EUA por orientação estatal. "Não acho que isso funcione sem uma imposição do governo".

Projeções para 2025/26 e a demanda chinesa no radar

O cenário de oferta brasileira descrito pela Reuters é sustentado por estimativas robustas. A consultoria Agroconsult prevê produção recorde de 182,2 milhões de toneladas de soja no Brasil em 2025/26. Do lado da demanda, Marcela Marini, analista sênior de grãos e oleaginosas do Rabobank, espera que o Brasil exporte cerca de 85 milhões de toneladas para a China entre setembro de 2025 e agosto de 2026, um aumento de 6 milhões de toneladas em relação ao ano anterior, segundo a Reuters.

A reportagem afirma ainda que a China já reservou cerca de 42 milhões a 44 milhões de toneladas de soja brasileira para o período de setembro a agosto, incluindo 23 milhões a 25 milhões de toneladas para fevereiro a agosto, de acordo com dois operadores asiáticos citados pela agência.

No pano de fundo, a demanda chinesa por farelo segue como variável-chave. A Reuters observa que o rebanho suíno da China continua grande e que analistas não esperam queda significativa antes do fim do segundo trimestre, mantendo a demanda por farelo de soja forte no primeiro semestre de 2026.

Apesar disso, há projeções de arrefecimento no total anual importado. Para 2024/25, a China importou 109,37 milhões de toneladas de soja, enquanto as importações para 2025/26 devem cair para 95,8 milhões, segundo o governo chinês citado pela Reuters. Mesmo com possível redução no agregado, a combinação de safra recorde no Brasil e diferencial de preço sugere que a participação brasileira tende a seguir elevada, especialmente no primeiro semestre, quando a oferta sul-americana costuma ditar o ritmo do mercado global.

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