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Bolivianos mantêm protestos contra governo de Rodrigo Paz

Bloqueios seguem em La Paz e El Alto após operação que deixou 47 detidos e pelo menos cinco feridos

Trabalhadores realizam manifestação de protesto na Bolívia (Foto: Prensa Latina )
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247 - Prosseguem na Bolívia os protestos contra o governo de Rodrigo Paz, com bloqueios em acessos a La Paz e El Alto após a operação que deixou 47 detidos e pelo menos cinco feridos.

Segundo reportagem da Telesur, a tensão aumentou no sábado (16), quando forças policiais e militares foram mobilizadas para tentar desbloquear vias estratégicas que ligam as cidades de La Paz e El Alto, além da rodovia La Paz-Oruro. Segundo relatos da mídia boliviana citados pela emissora, os bloqueios foram reinstalados e seguiam neste domingo, após duas semanas de mobilização contra o governo.

Confrontos e bloqueios em vias estratégicas

A operação de sábado mobilizou cerca de 3.500 policiais e militares. Comboios e tropas foram enviados para dispersar manifestações e barricadas em La Paz, na cidade vizinha de El Alto e na rodovia La Paz-Oruro.

Na manhã de domingo (17), dados da Autoridade Rodoviária Boliviana indicavam a existência de 15 bloqueios no departamento de La Paz. Os pontos de protesto permaneciam em rodovias importantes de acesso à capital boliviana e a El Alto, em meio a vigílias organizadas por setores sociais.

As duas semanas de protestos e bloqueios provocaram falta de suprimentos e encarecimento de produtos na capital boliviana. De acordo com as autoridades, a operação de desbloqueio permitiu a passagem de 100 caminhões-tanque com combustível que estavam retidos nas estradas.

O governo de Rodrigo Paz realizou neste domingo uma nova rodada de diálogo com representantes de setores sociais de La Paz e El Alto, em busca de acordos para reduzir o conflito. O Executivo tem negociado por setor, mas ainda não conseguiu desmobilizar trabalhadores, camponeses, indígenas e transportadores.

Entre os grupos que mantêm a pressão estão a Central Obrera Boliviana (COB) e a Federação Camponesa Tupac Katari de La Paz. As organizações exigem aumentos salariais, o fim da privatização de empresas e a renúncia de Paz, sob o argumento de que o presidente não conseguiu responder à crise política e econômica enfrentada pelo país.

No sábado, foi anunciado um acordo entre o governo e os professores. A categoria não obteve o reajuste salarial que reivindicava, mas conseguiu um bônus anual de 2.400 bolivianos.

Centrais agrárias convocam novo ato em El Alto

No domingo, a Federação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Província Omasuyos Ponchos Rojos e a Federação de Mulheres Bartolina Sisa instruíram 39 centrais agrárias a se mobilizarem nesta segunda-feira na Praça Ballivián, em El Alto.

Também no domingo, uma marcha de apoiadores do ex-presidente Evo Morales, que governou a Bolívia entre 2006 e 2019, chegou às proximidades de La Paz após seis dias de caminhada. O grupo prevê se somar nesta segunda-feira, na capital, aos setores que mantêm protestos e bloqueios há duas semanas para exigir a renúncia de Paz.

“Vamos chegar até o quilômetro zero, como é conhecida a Praça Murillo, para nos somarmos à mobilização até a renúncia deste presidente incapaz, fascista”, afirmou a meios locais o dirigente sindical Juan Yupari.

Defensoria pede diálogo e avalia mediação

A Defensoria do Povo reiterou seu chamado ao diálogo e afirmou que analisa, junto à Igreja Católica, a possibilidade de abrir um espaço de mediação. O objetivo declarado é reduzir a conflitividade e promover uma reconciliação nacional.

O executivo da Federação Departamental de Trabalhadores Camponeses de La Paz Túpac Katari, Vicente Salazar, atribuiu duas mortes nos municípios de Ingavi e El Alto aos operativos de desbloqueio e fez um chamado pela continuidade dos protestos.

“Nosso povo não tem culpa de buscar reivindicação”, disse Salazar, que rejeita um diálogo com o governo para pacificar o conflito social que tem como objetivo a renúncia do presidente Rodrigo Paz.

COB reafirma pressão pela renúncia de Rodrigo Paz 

A Central Obrera Boliviana reafirmou nesta semana que as mobilizações e bloqueios instalados em diferentes regiões do país têm como objetivo a renúncia de Paz. A entidade afirma que o governo não respondeu às demandas sociais durante seus primeiros seis meses de gestão.

A COB sustenta que o governo de Rodrigo Paz pretende impor a privatização na Bolívia. Segundo a central, esse processo poderia gerar aumentos nos preços da eletricidade, da água potável, do gás liquefeito de petróleo (GLP) e do gás natural veicular (GNV).

O executivo nacional da COB, Mario Argollo, ao lado de representantes dos setores mineiro e fabril, convocou o fortalecimento dos protestos e pediu compreensão à população diante dos efeitos provocados pelas medidas de pressão.

“Não é por loucura que estamos pedindo que este presidente incapaz e todo o seu gabinete ministerial se vão; é porque não deram soluções claras ao país”, afirmou Argollo na quinta-feira.

No sábado, em vídeo divulgado nas redes sociais, Argollo denunciou que o governo busca “silenciar” a direção por meio de ações penais. Ele também expressou solidariedade aos detidos durante os protestos em El Alto e La Paz, afirmando que foram presos por defender seus direitos e rejeitar as medidas impulsionadas pelo Executivo.

O dirigente sindical afirmou que a mobilização não atende apenas a um setor específico.

“Chamamos e exortamos a população, pelo que estamos lutando. Não é para um setor, é para um setor grande da sociedade que em seu momento será prejudicado com as medidas que hoje o governo central está querendo impor”, disse.

Argollo acrescentou que o pacote de 10 leis impulsionado para reativar a economia e reformar o Estado “prejudica as grandes maiorias e favorece empresas transnacionais”.

Governo fala em plano contra a ordem constitucional

O Executivo de Rodrigo Paz, que recebeu apoio de Estados Unidos, Israel e dos governos de Argentina, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Panamá, Paraguai e Peru, acusa os protestos de estarem ligados a um “plano macabro” de Morales para “romper a ordem constitucional” e afirma que haveria financiamento do narcotráfico. O ex-presidente rejeitou as acusações.

Morales afirmou que o governo está obrigado “a demonstrar as mentiras” e questionou a acusação de que estaria pagando as mobilizações. Para ele, essa tese implicaria acusar todos os setores em conflito de serem “narcotraficantes”.

O ex-presidente declarou em suas redes sociais que os Estados Unidos “ordenaram ao governo de Rodrigo Paz que realizasse uma operação militar, com o apoio da DEA e do Comando Sul dos EUA, para me prender ou me matar”.

Petro oferece apoio para solução pacífica

Neste domingo, o presidente colombiano Gustavo Petro declarou que a Bolívia passa por uma “insurreição popular” e ofereceu a disposição do governo da Colômbia para ajudar a resolver a crise.

Petro afirmou estar preparado, “se convidado”, para “buscar soluções pacíficas para a crise política boliviana”.

“A Bolívia está vivenciando uma revolta popular. É a resposta à arrogância geopolítica”, escreveu Petro em sua conta no X.

Na mesma publicação, o presidente colombiano afirmou que “a América Latina e o Caribe precisam ser ouvidos pelo mundo, olhando-o de frente, em paz”.

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