HOME > América Latina

Claudia Sheinbaum faz seu mais forte discurso contra ingerências externas no México

“O México não é pinhata de ninguém”, disse

Claudia Sheinbaum (Foto: Reuters)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - De forma enfática, diante de milhares de pessoas reunidas junto ao Monumento à Revolução, a presidente Claudia Sheinbaum deixou claro que “o México não é pinhata de ninguém” e afirmou que o país “não aceita ingerência”. 

Aos presentes no evento na Cidade do México no domingo (31), que marcou os dois anos desde que venceu as eleições, Sheinbaum também perguntou, segundo o La Jornada: “Quem decide no México, as agências estrangeiras ou o povo?”. Ela conclamou a população a defender a soberania nacional, a independência e a transformação do país, convocando para que “a partir da próxima semana vamos às praças públicas realizar assembleias, distribuir panfletos e informar ao povo que a pátria não se vende, se ama e se defende”.

Diante do coro de “você não está sozinha, você não está sozinha”, entoado pelos milhares de participantes que lotaram a esplanada e as ruas ao redor, a presidente mexicana afirmou que não é por acaso que por trás de campanhas midiáticas estejam setores conservadores nacionais e internacionais que nunca aceitaram que o México recuperasse sua dignidade e decidisse exercer plenamente sua independência.

“Hoje as formas de desestabilização mudaram” e não necessariamente são impostas pela força, mas podem se manifestar por meio de campanhas digitais e operações de desinformação capazes de desgastar governos ou movimentos.

Essas ações podem operar a partir de plataformas globais nas quais o fluxo de informação está concentrado em poucas mãos, com capacidade de influência ligada a algoritmos sem precedentes na história. Além disso, são estruturadas para permitir o uso de contas falsas ou robôs financiados para manipular informações.

“Nesse terreno, o que está em disputa não é apenas a política, mas o que querem fazer é mudar a percepção da realidade”, afirmou.

“Não se trata de negar a liberdade de expressão. Essa liberdade é um pilar irrenunciável de toda democracia. Mas, por trás de contas pagas e robôs, articulam-se interesses estrangeiros e nacionais que buscam recuperar privilégios perdidos ou frear a transformação", disse Sheinbaum.

Por isso, convocou a população a permanecer alerta, informar a partir dos territórios, conversar com as famílias e compreender que “esta é uma nova forma de manipulação”.

Diante desses fatos, destacou que a Procuradoria-Geral da República abriu uma investigação por possíveis violações das leis mexicanas.

Em tom enfático, declarou: “Aqui queremos ser muito claros: a Constituição e a Lei de Segurança Nacional estabelecem com precisão que nenhum agente estrangeiro pode realizar tarefas que correspondem exclusivamente às autoridades mexicanas”, razão pela qual qualquer agente estrangeiro deve submeter-se às normas nacionais e quem vier ao país deve fazê-lo com respeito à soberania mexicana.

“Poucos dias depois ocorreu algo ainda mais grave: um escritório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos solicitou, em caráter de urgência, a detenção para fins de extradição de dez cidadãos mexicanos”, entre eles um governador, um prefeito e um senador em exercício, “sem apresentar publicamente provas que sustentassem esse pedido. Um fato dessa magnitude não tem precedentes na história de nossa relação bilateral”.

Diante disso, lançou uma pergunta aos milhares de simpatizantes e participantes reunidos na esplanada do Monumento à Revolução:

“Surge a pergunta legítima: trata-se realmente de um interesse legítimo e genuíno em ajudar o México? É realmente um interesse legítimo para combater o crime organizado?”.

Após o enfático “não” da multidão, continuou: “Ou talvez estejamos vendo setores da direita norte-americana utilizarem nosso país para se posicionar rumo às eleições de 2026, ou pretendem influenciar as eleições de 2027 em nosso país?”

Ela ressaltou que “não são perguntas retóricas. O México não é pinhata de ninguém”.

Em seguida, pediu a atenção do povo mexicano, pois, “quando do exterior se determina quem é culpado e quem não é, quando se busca pressionar nossas instituições a partir de fora, quando se normaliza a ideia de que outro país pode intervir em assuntos que dizem respeito apenas aos mexicanos, já não estamos falando de cooperação, estamos falando de ingerência. E o México — que se ouça claramente e em alto e bom som — não aceita ingerências. Somos um país livre, independente e soberano”.

Segundo ela, é legítimo duvidar do verdadeiro interesse dos processos de extradição contra autoridades eleitas porque “primeiro vêm por alguns, depois por outros, até que os órgãos de justiça se tornem o principal eleitor do México. Isso não podemos permitir”.

Ela afirmou que a história do México conhece bem aonde esse caminho conduz, lembrando que as intervenções nunca deixaram justiça para os povos.

Também esclareceu que “nunca vamos defender a corrupção nem a conivência com o crime” e que “o combate à corrupção e à colaboração com a criminalidade tem sido tão firme que as autoridades atuaram contra integrantes de todos os partidos quando foi comprovada a ligação com atividades criminosas”.

Sobre os resultados na área de segurança, destacou que, em 20 meses, os homicídios dolosos foram reduzidos em 49% e os crimes de alto impacto em 20%. “E vamos continuar apresentando resultados em segurança, mas deve ficar claro: nós não fazemos guerra como no passado. Nós construiremos a paz com justiça.”

Por isso, afirmou que “temos sido muito claros com as autoridades do país vizinho do norte: para nos ajudar a reduzir a violência no México, é indispensável deter o tráfico de armas, e é fundamental que enfrentem o grave problema do consumo de drogas em seu território. Assim como nós atuamos no nosso, eles também devem romper as cadeias de distribuição de drogas e de lavagem de dinheiro que operam nos Estados Unidos”.

Ela reafirmou acreditar na cooperação entre as nações, na troca de informações e no trabalho conjunto, mas ressaltou que isso não significa subordinação nem submissão.

Embora a luta contra o crime organizado seja uma responsabilidade compartilhada, “essa luta não pode servir de desculpa para enfraquecer princípios fundamentais como a não intervenção e o respeito à autodeterminação dos povos”.

O México continuará colaborando para evitar que as drogas cruzem a fronteira, mas, segundo ela, “é melhor trabalhar conjuntamente como parceiros comerciais, respeitando-nos mutuamente e fortalecendo o interesse comum com respeito às nossas soberanias. Mas deve ficar muito claro que o México não aceita ingerência em seus assuntos internos porque nós não interferimos em outras nações”.

“Colaboramos, mas não nos subordinamos, nem nos subordinaremos”, concluiu.

Artigos Relacionados