Díaz-Canel: "Já passamos por momentos difíceis, estes em particular são muito difíceis, mas vamos superá-los juntos"
Presidente cubano fala em “resistência criativa” para enfrentar a nova etapa do bloqueio
247 - A entrevista coletiva do presidente cubano Miguel Mario Díaz-Canel, realizada na quinta-feira (5), no Palácio da Revolução, ocorreu em meio a um cenário descrito pelo próprio governo como “complexo” e marcado por dificuldades crescentes no abastecimento de combustível e impactos diretos na geração de eletricidade. No encontro, Díaz-Canel respondeu perguntas de veículos nacionais e estrangeiros e apresentou, ponto a ponto, como o governo pretende atravessar o momento.
A transcrição, publicada pelo jornal Granma, registra um diálogo extenso, com intervenções de jornalistas de diferentes meios, incluindo RT, Xinhua, Canal Caribe, Prensa Latina, Agência Cubana de Notícias e Cubadebate. Logo na abertura, a mediadora Arleen Rodríguez informa que a participação do presidente atende a pedidos de diversos órgãos de imprensa, e Díaz-Canel afirma que a reunião serve para explicar projeções e caminhos para superar a situação “o mais rapidamente possível”.
Díaz-Canel relata que, antes de falar com a imprensa sobre o problema energético, participou de rodadas de avaliações em instâncias do Estado e de uma reunião do Conselho de Ministros para atualizar um plano voltado às diretrizes governamentais diante da “grave escassez de combustível”. A entrevista, assim, se apresenta como uma resposta pública às preocupações internas e às pressões externas que se intensificaram nas últimas semanas.
Entre os temas centrais, aparece a retórica de “colapso” difundida pelo governo dos Estados Unidos e repercutida após eventos citados como o ataque militar e sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, ocorridos em 3 de janeiro na Venezuela. Questionado por Oliver Zamora (RT), Díaz-Canel associa o discurso do colapso a estratégias históricas de estrangulamento econômico e a ameaças de agressão, defendendo que a reação cubana se ancora na “resistência criativa”. Sem escamotear a gravidade da conjuntura, o líder cubano sintetiza a essência do seu pronunciamento ao afirmar: “Já passamos por momentos difíceis, estes em particular são muito difíceis, mas vamos superá-los juntos.”
A entrevista também revisita a relação Cuba–Venezuela, que Díaz-Canel descreve como cooperação e complementaridade, e não como dependência. Ele contextualiza acordos firmados há mais de duas décadas, menciona iniciativas de integração regional e aponta que sanções e pressões sobre Caracas afetaram a dinâmica de fornecimento de combustível. O presidente cubano afirma ainda que, diante do “bloqueio energético”, o país não abrirá mão do direito de receber combustível e que adotará medidas para reduzir impactos sobre a população e serviços essenciais.
Outro eixo do diálogo envolve a repercussão internacional. Díaz-Canel lista manifestações de apoio citando autoridades e organizações, além de mencionar conversas telefônicas com líderes internacionais nas quais teriam sido expressos compromisso e continuidade de cooperação. Ao mesmo tempo, diz haver aspectos que não seriam detalhados publicamente por avaliar que o inimigo acompanha e tenta bloquear oportunidades abertas ao país, assegurando que Cuba “não está sozinha”.
A entrevista avança para perguntas sobre o papel do Sul Global e o que poderia ser feito para apoiar Cuba diante do endurecimento das restrições. Nesse ponto, Díaz-Canel amplia o diagnóstico e define o momento como uma “guerra” com dimensões políticas, ideológicas, culturais e midiáticas. Ele defende articulação internacional, unidade e ações que sustentem o multilateralismo, citando blocos e fóruns como referência.
No campo diplomático, o presidente também reafirma que Cuba está disposta a dialogar com os Estados Unidos, desde que em condições como ausência de pressão e pré-condições, respeito à soberania e tratamento em pé de igualdade. Ele enumera temas que poderiam integrar uma agenda, desde o tema da imigração e segurança até ambiente e intercâmbios acadêmicos, e insiste em que a política de bloqueio impede benefícios mútuos possíveis entre povos vizinhos.
A pauta interna aparece de forma direta quando o tema é defesa e preparação diante de ameaças. Díaz-Canel afirma que o país é pacífico e que sua doutrina não contempla agressão a outras nações, mas justifica medidas de preparação e exercícios como parte da “Guerra de Todo o Povo”, apresentando as ações como resposta à retórica de agressão dos Estados Unidos.
Em seguida, o diálogo entra em aspectos econômicos e institucionais, com discussões sobre prioridades, produção local, funcionamento do Partido e implementação de transformações para enfrentar problemas estruturais. Díaz-Canel menciona debates e consultas, fala sobre equilíbrio entre centralização e descentralização e defende a ampliação da autonomia de empresas e municípios, relacionando essa diretriz à necessidade de aumentar capacidade produtiva territorial em um contexto de limitações de mobilidade e energia.
Um dos trechos mais longos e detalhados trata da transição energética. O presidente descreve resultados e metas vinculadas a parques fotovoltaicos, recuperação de capacidade de geração e iniciativas para instalar sistemas em residências e instituições consideradas vitais. Ele atribui parte da sustentação do sistema elétrico, durante o dia, à energia gerada por parques solares, e explica que a falta de combustível limita a plena utilização de capacidade instalada de geração distribuída, o que agravaria déficits em horários de pico.
Por fim, o tom mobilizador é forte quando o presidente é perguntado sobre a postura da população e dos jovens diante das adversidades. Díaz-Canel elogia a resiliência e afirma que a resistência cubana não seria apenas de “tolerância”, mas de criação e superação, vinculando a participação juvenil a ideias de unidade e continuidade.
A entrevista é extensa, atravessa temas estratégicos e detalha argumentos do governo cubano sobre energia, economia, defesa, diplomacia e comunicação em um período de alta tensão. Para entender a sequência completa das perguntas e respostas, vale ler a íntegra no link abaixo.

