Evo Morales denuncia plano de extradição ilegal aos Estados Unidos
Ex-presidente da Bolívia afirma que governo Rodrigo Paz prepara operação para prendê-lo e entregá-lo a Washington
247 – O ex-presidente da Bolívia Evo Morales denunciou publicamente a existência de um plano articulado no interior do Poder Executivo boliviano para realizar sua detenção ilegal e posterior entrega aos Estados Unidos. A acusação ocorre em meio a uma escalada de tensão política no país, marcada por protestos sociais, bloqueios de rodovias e forte disputa em torno de uma nova legislação sobre estados de exceção.
As informações foram divulgadas pela teleSUR, que relata que movimentos sociais e organizações camponesas bolivianas respaldaram a denúncia de Morales e apresentaram detalhes sobre operações de inteligência em curso na região do Trópico de Cochabamba.
Durante pronunciamento, o líder do Movimento ao Socialismo (MAS) afirmou que o governo do presidente Rodrigo Paz revogou normas anteriores e passou a impulsionar uma proposta legislativa que, segundo ele, ameaça direitos humanos e abre caminho para a repressão estatal.
Morales declarou que “a Lei 1341 garantia a vida, os direitos”, mas afirmou que a atual iniciativa em tramitação na Assembleia Legislativa Plurinacional “outorgará licença para assassinar”. Ele também acusou as autoridades de tentar criminalizar a mobilização social e classificou a nova Lei de Regulação dos Estados de Exceção como uma “licença para matar abertamente” sob um regime de impunidade.
Morales cita plano Delta Ñ e acusa governo de preparar captura
Ao detalhar a denúncia, Evo Morales afirmou que haveria uma operação denominada Delta Ñ, cujo objetivo seria viabilizar sua captura e envio aos Estados Unidos. Segundo ele, “o plano do Governo mediante Delta Ñ é como levar Evo Morales aos Estados Unidos”.
O ex-presidente também atribuiu ao ministro da Defesa, Ernesto Justiniano, uma ordem com prazo definido. De acordo com Morales, Justiniano teria declarado em reuniões de gabinete: “Comigo Evo até 13 de junho, detido ou morto”.
Morales repudiou o que descreveu como uma articulação envolvendo autoridades civis e militares para estruturar rotas de transferência a partir do aeroporto de Viru Viru, com passagem por Buenos Aires ou Lima e destino final em Washington. Para o ex-mandatário, a operação configuraria uma extradição forçada contra o primeiro presidente indígena do Estado Plurinacional da Bolívia.
Movimentos sociais denunciam perseguição e ameaça aos recursos naturais
A denúncia de Evo Morales foi apoiada por movimentos sociais, organizações originárias e entidades camponesas, que afirmam haver operações de inteligência em andamento no Trópico de Cochabamba.
Segundo os porta-vozes populares citados pela teleSUR, o plano Delta Ñ seria coordenado diretamente pelo coronel Edson Rojas e pelo major Ayala, com apoio político de agências dos Estados Unidos.
As organizações operárias e camponesas afirmam que o objetivo das ações de perseguição contra lideranças sociais seria desarticular a resistência das comunidades e abrir caminho para o controle externo dos recursos naturais da Bolívia, especialmente o lítio.
Para esses movimentos, a ofensiva contra Morales e contra dirigentes populares estaria vinculada a uma disputa estratégica pelo controle das riquezas naturais bolivianas por potências hegemônicas.
Bloqueios se espalham por cinco departamentos da Bolívia
A crise política se intensifica em paralelo à ampliação dos protestos. Segundo o mapa oficial de transitabilidade citado na reportagem, a Bolívia registrava 74 pontos de bloqueio de estradas em cinco departamentos, no 35º dia de mobilizações sociais.
As regiões de Cochabamba e La Paz aparecem como as mais afetadas, com 19 bloqueios cada uma. Também há cortes de rota em Potosí e Oruro.
As bases mobilizadas exigem a libertação imediata de dirigentes detidos e o fim da perseguição judicial. O governo, por sua vez, tenta conter a crise por meio de propostas de diálogo condicionadas, em um ambiente de crescente polarização.
Senado debate lei sobre estados de exceção
Diante do avanço das mobilizações, a Câmara de Senadores instalou uma sessão em formato híbrido para iniciar a análise do projeto de Lei de Regulação dos Estados de Exceção, enviado pelo presidente Rodrigo Paz.
A sessão declarou um intervalo para retomada dos debates no período da tarde. Para bancadas populares e setores alinhados aos movimentos sociais, a proposta representa uma ferramenta de repressão militarizada contra territórios mobilizados.
O porta-voz presidencial José Luis Gálvez afirmou que a prioridade da administração continua sendo o diálogo, mas admitiu que a aprovação da norma daria ao governo um instrumento legal para decretar estados de exceção nas áreas afetadas pelos protestos.
A denúncia de Evo Morales, somada à tramitação da nova lei e à multiplicação dos bloqueios, aprofunda a crise política na Bolívia e recoloca no centro do debate nacional temas como soberania, repressão estatal, direitos humanos e controle dos recursos naturais.



