Milei provoca catástrofe e dizima a indústria argentina
Argentina registra a segunda pior queda industrial do mundo entre 2024 e 2025, com fechamento de 2.436 empresas e perda de quase 73 mil empregos formais
247 – A indústria argentina atravessa uma das crises mais profundas de sua história recente ao fim do segundo ano do governo de Javier Milei. Segundo reportagem do jornal Perfil, baseada no Informe Sectorial #41 da consultoria Audemus, divulgado em 3 de março de 2026, o setor acumulou uma retração média de 7,9% no biênio 2024-2025, colocando o país entre os piores desempenhos industriais do planeta.
De acordo com o levantamento, a Argentina registrou a segunda maior queda industrial do mundo entre 56 países analisados pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI), ficando atrás apenas da Hungria. O recuo contrasta com o desempenho de outros países da região, como Brasil, que apresentou crescimento de 3,5%, e Chile, com expansão de 5,2% no mesmo período.
Desindustrialização e colapso empresarial
O relatório aponta que a indústria argentina não conseguiu acompanhar a recuperação observada em setores extrativos, como agricultura e mineração, e acabou mergulhando em um processo de retração produtiva que os analistas classificam como desindustrialização acelerada.
Um dos indicadores mais preocupantes é o desaparecimento de empresas manufatureiras. Em apenas dois anos, 2.436 fábricas deixaram de realizar contribuições ao sistema de seguridade social, o que indica o encerramento de atividades ou paralisação prolongada. Esse número representa cerca de 5% de todas as empresas industriais do país.
Segundo o estudo, o ritmo de fechamento é tão intenso que o número de unidades produtivas ativas pode cair abaixo do patamar registrado durante a pandemia de COVID-19 em 2020.
O documento ressalta que o fenômeno não se trata apenas de uma eliminação de empresas pouco competitivas, mas de um processo amplo de colapso industrial. Muitas companhias com décadas de atividade encerraram operações diante de uma combinação de fatores, como a queda do consumo interno, aumento de custos em dólares e abertura comercial sem mecanismos de proteção ao setor produtivo.
Perda de empregos industriais
O impacto no mercado de trabalho foi imediato e significativo. Entre novembro de 2023 e novembro de 2025, a indústria argentina perdeu 72.955 empregos formais, o que representa uma redução de aproximadamente 6% do total da força de trabalho do setor.
O relatório destaca que “o emprego industrial caiu em 16 dos 24 meses da gestão atual”, evidenciando um processo contínuo de retração.
Mesmo nos meses em que houve leves recuperações técnicas da atividade, a contratação de trabalhadores não voltou a crescer. Segundo os analistas, muitas empresas passaram a operar em modo de sobrevivência, priorizando cortes de custos para evitar o fechamento definitivo.
Capacidade industrial no menor nível da década
Outro indicador que revela a profundidade da crise é a Utilização da Capacidade Instalada Industrial (UCII). Em 2025, a taxa média ficou em 57,9%, o nível mais baixo da última década, desconsiderando apenas o período de paralisação generalizada durante a pandemia.
Diversos setores estratégicos registraram níveis historicamente baixos de utilização de suas plantas produtivas. Entre os mais afetados estão metalmecânica e indústria têxtil, que operaram em patamares mínimos.
O relatório também aponta que tabaco, químicos e borracha e plástico apresentaram suas menores médias desde 2016, inclusive abaixo dos níveis observados em 2020, quando a pandemia provocou uma paralisação abrupta da atividade econômica.
Setores mais atingidos pela crise
A análise por segmentos mostra que as áreas mais dependentes do consumo interno sofreram as maiores perdas.
A indústria de couro e calçados foi a mais impactada, com queda de 16,4% no número de empresas ativas durante o biênio. Logo atrás aparecem o setor de confecções e a produção de produtos metálicos, ambos pressionados pela redução do poder de compra da população e pela entrada de produtos importados.
Em contraste, poucos segmentos conseguiram escapar da tendência negativa. Entre eles estão as atividades vinculadas à exportação de commodities, como a moagem de cereais e oleaginosas, que se recuperou após a seca, e a indústria farmacêutica, cuja demanda tende a permanecer estável mesmo em períodos de crise.
Queda no investimento e alerta para 2026
Audemus também chama atenção para sinais preocupantes no início de 2026. Pela primeira vez em 14 meses, as importações argentinas começaram a cair.
Embora esse movimento pudesse ser interpretado como um sinal de substituição de importações, os analistas avaliam que o fenômeno reflete, na verdade, uma crise produtiva profunda.
A retração foi impulsionada principalmente pela redução das compras de bens de capital e insumos industriais, fundamentais para a produção. Sem investimento em máquinas e sem peças intermediárias para montagem, o setor industrial enfrenta limites estruturais para se recuperar.
Segundo o relatório, o modelo macroeconômico vigente — marcado por um câmbio que estimula o consumo de produtos importados e reduz a competitividade das fábricas locais — tem dificultado a retomada da produção.
Ajuste econômico agrava queda da demanda
A retração industrial ocorre paralelamente a um ajuste econômico mais amplo que afeta tanto o setor privado quanto o público.
Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho indicam que novembro de 2025 registrou uma perda mensal de 17.900 empregos formais no conjunto da economia, acumulando mais de 80 mil postos de trabalho eliminados no último ano.
O setor público também sofreu cortes expressivos. A Administração Pública Nacional perdeu mais de 64.600 postos de trabalho, segundo o levantamento.
Essa combinação de redução do emprego público e privado acabou comprimindo os rendimentos da população e reduzindo ainda mais o consumo interno — fator essencial para a atividade industrial.
Ausência de política industrial amplia incertezas
Para os analistas da Audemus, a ausência de uma política industrial ativa é um dos fatores que mais preocupam no horizonte de médio prazo.
Enquanto diversas potências globais voltaram a adotar subsídios, incentivos e mecanismos de proteção para setores estratégicos, a estratégia econômica argentina aposta na desregulação e na abertura comercial.
Segundo o relatório, esse modelo está acelerando o fechamento de linhas de produção e provocando a perda de capital humano qualificado, já que trabalhadores especializados que deixam o setor industrial frequentemente migram para atividades informais e dificilmente retornam.
Os dados mais recentes da SRT indicam que a indústria manufatureira liderou a destruição de empregos em novembro de 2025, com queda mensal de 0,3% na série dessazonalizada.
A consultoria conclui que a reconstrução do tecido industrial argentino poderá exigir anos de estabilidade econômica e políticas de incentivo, elementos que, segundo o relatório, ainda não aparecem na estratégia oficial do Ministério da Economia.


