Morre Taty Almeida, líder das Mães da Praça de Maio
Referência histórica dos direitos humanos na Argentina morreu aos 95 anos após décadas de luta por memória, verdade e justiça
247 - Lidia Estela Mercedes Miy Uranga, conhecida mundialmente como Taty Almeida, morreu neste domingo, aos 95 anos, após uma trajetória marcada pela luta por memória, verdade e justiça na Argentina. Presidente das Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora, ela se tornou uma das vozes mais importantes do movimento de direitos humanos do país depois do sequestro e desaparecimento de seu filho Alejandro, em 1975.
Segundo a teleSUR, Taty Almeida dedicou quase meio século à busca por Alejandro Martín Almeida, sequestrado aos 20 anos pela Aliança Anticomunista Argentina, a AAA, em 17 de junho de 1975. Desde então, sua história pessoal passou a se confundir com a luta coletiva contra o terrorismo de Estado, a impunidade e o apagamento da memória das vítimas da repressão na Argentina.
A morte de Taty foi comunicada pela associação Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora, que lamentou a perda de uma de suas principais referências. “Com profunda tristeza, compartilhamos a notícia mais triste: hoje, nossa querida Taty Almeida, presidente das Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora”, informou a entidade em mensagem publicada nas redes sociais.
Em homenagem à dirigente, a organização destacou o legado político, humano e afetivo deixado por ela. “Obrigada por nos ensinar que amar é resistir, que a única luta perdida é aquela que é abandonada e que não há força maior que o amor. Obrigada pelo seu compromisso, pelo seu ativismo, pela sua ternura e por cada palavra que será sempre um refúgio e um abraço (...) Por essa sua capacidade única de tornar os momentos difíceis mais leves sem jamais perder a profundidade das suas convicções”, afirmou a entidade.
As Mães também ressaltaram a capacidade de Taty Almeida de dialogar com novas gerações e manter viva a luta dos familiares dos desaparecidos. “Você nos ensinou que a luta também pode ser abraçada com alegria. Teve, além disso, a enorme sabedoria e capacidade de caminhar junto aos mais jovens, acompanhando e escutando sempre (...) Prometemos cuidar da sua memória e da de Alejandro, levando seu legado a cada canto. E cada vez que levantarmos a voz pelos 30 mil, também faremos você presente”, acrescentou a associação.
A busca por Alejandro e a luta contra a impunidade
O desaparecimento de Alejandro transformou radicalmente a vida de Taty Almeida. Página 12 recordou que sua busca começou em 17 de junho de 1975, quando seu filho desapareceu. “Jamais conseguiu encontrar seus restos. Referência indiscutível do movimento de direitos humanos, será lembrada como uma militante da vida”, publicou o jornal argentino logo após a confirmação de sua morte.
Taty nasceu em 1930, em Buenos Aires, e formou-se como professora, profissão que exerceu por poucos anos. Casou-se com Jorge Almeida e teve três filhos: Jorge, Alejandro e María Fabiana. Em 1979, quatro anos depois do sequestro de Alejandro, aproximou-se das mulheres que integravam as Mães da Praça de Maio, movimento que havia surgido durante a ditadura argentina para denunciar os desaparecimentos forçados e exigir respostas do Estado.
A partir daquele momento, sua vida foi inteiramente atravessada pela militância. Em 1986, quando ocorreu a divisão do movimento, Taty passou a integrar as Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora, organização na qual construiu grande parte de sua trajetória pública.
Uma vida marcada pela memória de Alejandro
Diferentemente de outras mães que formaram o núcleo original da Praça de Maio durante os primeiros anos da ditadura, Taty Almeida vinha de uma família ligada ao meio militar. Seu pai havia sido militar, e outros familiares também mantinham vínculos com esse setor. O sequestro e desaparecimento de Alejandro, porém, alteraram profundamente sua visão sobre a realidade argentina.
Alejandro trabalhava na agência Telam e no Instituto Geográfico Militar, além de cursar o primeiro ano de Medicina na Universidade de Buenos Aires, a UBA. Sua ausência tornou-se o centro de uma busca que Taty jamais abandonou.
Página 12 também recuperou o momento que marcou para sempre a vida da família. Naquela noite de 17 de junho de 1975, Alejandro saiu de casa e não retornou. “A última coisa que ela o ouviu dizer foi ‘mãe, já volto’. Ela olhou o relógio e reclamou porque estava prestes a servir a comida. Alejandro saiu. E nunca mais voltou. Naquele 17 de junho de 1975 começou uma busca desesperada por aquele filho que lhe haviam arrancado. Uma busca, de quase 51 anos, que a levou a bater às portas dos militares mais poderosos e a reclamar ‘justiça legal’, como gostava de dizer”, publicou o jornal.
Reconhecimento público e compromisso com as novas gerações
Com o passar dos anos, Taty Almeida tornou-se uma das vozes mais conhecidas e respeitadas do movimento de direitos humanos argentino. Sua figura passou a simbolizar a persistência das famílias dos desaparecidos e a defesa de uma memória ativa diante dos crimes cometidos pelo Estado.
Em março deste ano, durante a inauguração da mostra permanente da Confederação Geral do Trabalho, a CGT, pelos 50 anos do golpe de 1976, Taty reafirmou sua confiança no legado das Mães da Praça de Maio. Também agradeceu o trabalho do Equipo Argentino de Antropología Forense, o EAAF, responsável por identificar restos de vítimas do genocídio, e emocionou-se ao falar de Alejandro.
“Que Deus não me leve até tocar seus ossos”, disse ela na ocasião.
No mesmo evento, Taty afirmou: “Restamos três mães”, mas declarou estar segura de que as novas gerações continuariam a luta por memória, verdade e justiça. Em fevereiro, em entrevista ao Página 12, ela havia expressado o mesmo desejo. “Sempre digo que não quero ir embora sem poder tocar ao menos os ossos de Alejandro”, afirmou, sentada em seu apartamento no bairro de Palermo, em Buenos Aires, a poucos metros da cama onde seu filho costumava dormir.
“Em mim estão todas as Mães”
Em abril, durante a entrega do título de doutora honoris causa pela Universidade de Buenos Aires, Taty Almeida voltou a reafirmar a continuidade da luta. Sentada em sua cadeira de rodas, com o lenço branco na cabeça, ela falou diante de estudantes, professores, familiares, militantes de direitos humanos e lutadores sociais.
“Restamos três Mães, nada mais, e duas Avós”, disse ela, sorrindo.
Na mesma cerimônia, Taty dirigiu-se especialmente aos jovens. “Vocês são os que vão continuar lutando pela memória, pela verdade e pela justiça”, afirmou.
Ela também destacou que carregava consigo a história de todas as mulheres que integraram o movimento. “Em mim estão todas as Mães. As mães que ainda estão, as que não estão, mas que sempre vão continuar estando”, declarou.
Ao lembrar que aquele era o quinto título de doutora honoris causa que recebia, Taty afirmou que a homenagem tinha um significado especial por ocorrer em Buenos Aires e por contar com a presença de quase toda sua família. Também mencionou as ausências: os filhos que vivem na Espanha e na Itália, e “aquele que não está”, Alejandro Martín Almeida, desaparecido desde 1975.
A militância como compromisso
Na Universidade de Buenos Aires, Taty Almeida fez ainda uma defesa enfática da militância como expressão de compromisso político e humano. “Não devemos ter medo da palavra militância. Ser militante é ter compromisso, aquele compromisso que os 30 mil desaparecidos assumiram, aquele compromisso que tantos jovens, e não tão jovens, que são a nossa esperança, já assumiram”, declarou.
Em seguida, reafirmou uma de suas frases mais conhecidas. “A luta não acabou, a luta continua”, disse.
Taty também repetiu uma mensagem que atravessou sua trajetória pública e se tornou parte do legado das Mães da Praça de Maio. “Lembrem-se do que nós, mães, dissemos e fazemos: a única luta perdida é aquela que é abandonada.”
Pouco antes de sua morte, ela havia sintetizado sua própria história em uma declaração carregada de memória coletiva. “Todas as mães estão em mim. As mães que ainda estão aqui, aquelas que já não estão, mas que sempre estarão”, disse Taty Almeida neste ano.
Sua morte encerra uma vida dedicada à busca por Alejandro e à denúncia dos crimes cometidos contra milhares de argentinos. Seu legado permanece associado à defesa da memória, da verdade e da justiça, bandeiras que ela sustentou até o fim como uma das principais referências das Mães da Praça de Maio - Linha Fundadora.



