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Salim Lamrani: “Não se pode aceitar que um povo inteiro seja asfixiado”

Em entrevista a “Septimo Piso” do site Sputnik, Salim Lamrani, analisa as consequências do bloqueio, as motivações de Washington e o contexto político

Cuba condena e denuncia a nova escalada do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos (Foto: Granma)

247 - A pressão dos Estados Unidos sobre Cuba entra em uma nova fase de endurecimento. Sanções econômicas, restrições financeiras e limitações no abastecimento energético agravam a situação na ilha.

Como analisa a situação atual de Cuba diante da intensificação das pressões norte-americanas?

Cuba atravessa um período extremamente difícil, provavelmente o mais complexo desde 1959, excetuando-se a crise de 1962. Nunca a pressão, a agressão e a hostilidade dos Estados Unidos contra a ilha haviam alcançado tal nível.

É preciso lembrar que Washington impõe, há mais de seis décadas, um bloqueio econômico que afeta todas as categorias da população cubana. Durante seu primeiro mandato, Donald Trump endureceu consideravelmente essas sanções.

Entre 2017 e 2021, ele impôs 243 medidas coercitivas adicionais. Isso representa uma nova sanção a cada cinco dias durante quatro anos. Essas medidas atingiram diretamente as três principais fontes de renda de Cuba: o turismo, as remessas familiares e a cooperação médica internacional.

O que aconteceu depois, sob o governo Biden?

O governo Biden não modificou absolutamente nada dessa política. Também manteve uma decisão extremamente grave tomada por Trump em janeiro de 2021: a reinclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo.

Trata-se de uma lista unilateral elaborada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, totalmente desprovida de legitimidade. Basta lembrar que Nelson Mandela permaneceu nessa lista até 2008, mesmo depois de ter sido presidente da África do Sul.

As consequências para Cuba foram imediatas: mais de uma centena de instituições bancárias e financeiras internacionais romperam suas relações com a ilha. Isso complicou fortemente os investimentos estrangeiros e agravou ainda mais a crise econômica.

Fala de uma escalada sem precedentes. Concretamente, o que isso significa?

O novo governo Trump levou a hostilidade a níveis inéditos, especialmente com o bloqueio petrolífero.

Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, apenas um navio petroleiro entrou em Cuba, o equivalente a doze dias de consumo nacional. E quando falamos de combustível, é preciso compreender as consequências concretas na vida cotidiana.

O sistema elétrico cubano depende do petróleo em 50%. Isso significa hospitais paralisados, cirurgias suspensas, transporte insuficiente, dificuldades de acesso à água potável, escolas fechadas e graves problemas na coleta de lixo.

Atualmente, cerca de 100 mil pacientes aguardam uma intervenção cirúrgica, entre eles 11 mil crianças. Em algumas regiões, os cortes de energia podem durar até trinta horas.

São medidas unilaterais, desumanas e totalmente contrárias ao direito internacional.

Por que os Estados Unidos mantêm essa política após tantas décadas?

Cuba representa um símbolo na América Latina. Diferentemente de outros países, o principal recurso estratégico de Cuba não é material, mas simbólico. Cuba conseguiu desafiar a principal potência mundial em seu próprio “quintal” e construir uma sociedade diferente, com educação gratuita, saúde universal, acesso à cultura e soberania sobre seus recursos naturais. É precisamente isso que os Estados Unidos jamais aceitaram.

Cuba demonstrou que era possível seguir um caminho alternativo, mesmo sendo uma pequena ilha com recursos limitados e submetida a forte pressão externa. Mostrou que era possível retomar o controle nacional de seus recursos e construir um projeto soberano.

Isso constituía um precedente extremamente perigoso para Washington, pois poderia inspirar outros países da América Latina. O grande risco histórico para os Estados Unidos sempre foi o “efeito de exemplo”.

Donald Trump declarou recentemente querer uma mudança de regime em Cuba. Como interpreta essas declarações?

Penso que Donald Trump deve compreender uma coisa fundamental: Cuba é um país independente e soberano. O destino de Cuba depende exclusivamente da vontade do povo cubano. Nenhum presidente norte-americano tem legitimidade para decidir o futuro político da ilha.

E nenhum cubano digno desse nome deveria pedir sanções contra seu próprio povo. Ninguém pode exigir a asfixia econômica da sua própria população.

Washington frequentemente justifica essas sanções em nome dos direitos humanos. O que pensa disso?

Se os Estados Unidos realmente se preocupassem com os direitos humanos em Cuba, levantariam imediatamente as sanções econômicas. O principal obstáculo ao bem-estar do povo cubano é precisamente esse bloqueio.

É preciso medir seu impacto concreto: somente no ano passado, o custo foi de 7,55 bilhões de dólares, ou seja, 20 milhões de dólares por dia. Com essa mesma quantia, Cuba poderia garantir o abastecimento de produtos essenciais para toda a população durante seis anos. Desde sua imposição em 1960, as sanções custaram a Cuba mais de 170 bilhões de dólares, e mais de 80% da população cubana nasceu sob esse estado de sítio.

Além disso, as medidas mais recentes provocaram uma queda nas três principais fontes de renda do país: menos 60% no turismo, menos 40% nas remessas familiares e menos 20% na cooperação médica internacional.

Tudo isso afeta diretamente a população.

Também mencionou pressões sobre as missões médicas cubanas. O que está acontecendo?

A pressão norte-americana é muito forte. Por exemplo, o embaixador dos Estados Unidos em Cuba chegou a viajar para a Calábria, na Itália, para pedir às autoridades regionais que encerrassem um acordo com médicos cubanos. Trata-se de cerca de 300 profissionais essenciais para o sistema de saúde local.

Isso ilustra o nível de ingerência diplomática: um embaixador norte-americano deslocando-se a outro país para exigir o fim de uma cooperação médica.

O que a comunidade internacional deveria fazer diante dessa situação?

É preciso coragem política. A Rússia já mostrou um caminho ao enviar petróleo para Cuba. Outros países produtores deveriam fazer o mesmo. Brasil, Colômbia e China têm capacidade para ajudar a ilha e resistir à lógica da lei do mais forte.

O povo cubano foi historicamente solidário com a América Latina, a África e a Ásia. Já é hora de o mundo retribuir parte dessa solidariedade. O povo cubano não pede para intervir nos assuntos internos dos Estados Unidos. Apenas pede o direito de decidir soberanamente seu próprio destino.

Cuba deseja apenas ter o direito de escolher como organizar sua sociedade, sem ingerência externa.

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