Trump intensifica pressão dos EUA sobre Cuba com sanções
Washington amplia ofensiva econômica e política contra Havana enquanto cobra abertura econômica e libertação de presos políticos
247 - O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumentou significativamente a pressão sobre Cuba nas últimas semanas, ampliando sanções econômicas, endurecendo o discurso político e elevando as exigências por mudanças estruturais no regime cubano. Mesmo diante do conflito em curso no Irã, Washington mantém Havana como uma de suas prioridades estratégicas na política externa.
As informações foram publicadas originalmente pelo jornal britânico Financial Times e reproduzidas pela Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, os Estados Unidos vêm utilizando uma combinação de sanções, ameaças políticas, pressões diplomáticas e promessas de ajuda humanitária para influenciar os rumos das negociações com o governo cubano.
As conversas entre os dois países ocorrem desde fevereiro, mas integrantes da Casa Branca avaliam que o processo perdeu ritmo nas últimas semanas. O governo Trump teme que Havana esteja tentando prolongar as negociações enquanto enfrenta o agravamento da crise econômica interna e observa o cenário político nos Estados Unidos às vésperas das eleições de novembro.
Visita da CIA aumenta tensão diplomática
O clima de tensão aumentou após a visita surpresa do diretor da CIA, John Ratcliffe, à ilha na quinta-feira (14). Segundo um funcionário americano ouvido pela reportagem, Ratcliffe afirmou que Cuba teria uma “rara chance de estabilizar sua economia em colapso”.
Ainda de acordo com a fonte, o chefe da CIA deixou uma ameaça implícita ao governo cubano ao afirmar que Havana não deveria “se iludir pensando que o presidente não cumprirá suas ameaças”.
A declaração elevou as especulações sobre possíveis ações mais agressivas dos Estados Unidos contra Cuba, especialmente após a operação conduzida pelos americanos na Venezuela em janeiro, quando Nicolás Maduro foi capturado e levado ao território americano para responder judicialmente.
EUA cobram abertura econômica e reformas políticas
Washington exige que Cuba promova uma abertura econômica mais ampla, com aumento do investimento estrangeiro e fortalecimento do setor privado. Além disso, o governo americano pressiona pela libertação de presos políticos e pela adoção de reformas políticas.
Apesar do endurecimento do discurso dos EUA, analistas apontam que Havana vem sinalizando disposição para negociar. Um dos gestos observados foi a divulgação oficial da visita do chefe da CIA pelo próprio governo cubano — atitude incomum em relações historicamente marcadas pela desconfiança.
O regime cubano também libertou presos políticos recentemente. Em comunicado publicado na sexta-feira (15) pelo jornal oficial Granma, ligado ao Partido Comunista, Havana afirmou ter “demonstrado categoricamente que Cuba não constitui uma ameaça à segurança nacional dos EUA”.
Novas sanções atingem economia cubana
Enquanto mantém as negociações abertas, Washington intensificou a pressão econômica sobre a ilha. Os Estados Unidos impuseram novas sanções contra a Gaesa, conglomerado empresarial controlado pelos militares cubanos e considerado peça central da economia do país.
O grupo atua em setores estratégicos como turismo, comércio, logística e finanças. Além disso, os americanos ampliaram o alcance das chamadas sanções secundárias, atingindo empresas internacionais que mantêm operações em Cuba.
Como consequência, a mineradora canadense Sherritt abandonou uma joint venture de mineração de níquel e cobalto na ilha. Redes hoteleiras administradas por grupos estrangeiros também passaram a enfrentar risco de punições.
Crise energética amplia insatisfação popular
As restrições econômicas também começaram a afetar diretamente o abastecimento energético cubano. O governo da ilha admitiu dificuldades no fornecimento de diesel e óleo combustível, agravando os apagões em diversas regiões.
A deterioração das condições de vida tem provocado tensão crescente entre os cubanos. Moradores relatam escassez de água, longas interrupções de energia e sensação de incerteza política diante do agravamento da crise.
“Os apagões são intermináveis. Há água por uma hora por dia e às vezes até menos”, afirmou Jorge, artista que trabalha como vigia noturno em Havana. “O governo dos EUA ainda não definiu o que vai fazer, enquanto os daqui não largam o osso.”
Washington combina pressão e ajuda humanitária
Ao mesmo tempo em que endurece as sanções, os Estados Unidos tentam ampliar sua influência junto à população cubana por meio de ajuda humanitária. Na quarta-feira, Washington anunciou um pacote de US$ 100 milhões — cerca de R$ 506 milhões — em assistência direta.
Segundo o governo americano, os recursos serão distribuídos pela Igreja Católica e por organizações independentes do regime cubano.
Em entrevista à Fox News, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, demonstrou forte ceticismo sobre a possibilidade de mudanças profundas no regime cubano.
“Vamos dar uma chance a eles. Mas não acho que vai acontecer”, declarou Rubio. “Não acho que seremos capazes de mudar a trajetória de Cuba enquanto essas pessoas estiverem no comando daquele regime.”
Possível indiciamento de Raúl Castro amplia pressão
Além das sanções econômicas, os Estados Unidos avaliam novas medidas no campo judicial. Segundo veículos da imprensa americana, o Departamento de Justiça prepara um possível indiciamento contra Raúl Castro, de 94 anos, ainda considerado uma das principais lideranças políticas da ilha.
Especialistas avaliam que, apesar do agravamento da crise econômica, o regime cubano pode tentar resistir às pressões externas e preservar sua estrutura de poder.
Ricardo Zúniga, ex-integrante do governo Barack Obama e especialista em América Latina, afirmou que a elite política cubana resiste a qualquer cenário de transição.
“Eles têm muita dificuldade em acreditar em um futuro para Cuba onde não estejam no comando”, disse.
Debate sobre ação militar divide especialistas
Nos bastidores de Washington, também cresce o debate sobre a possibilidade de ações mais agressivas contra Havana. Alguns analistas discutem cenários semelhantes ao ocorrido recentemente na Venezuela.
Um ex-alto funcionário americano, porém, alertou para as dificuldades de uma eventual operação militar em território cubano.
“Posso dizer aqui que não consigo imaginar uma operação militar em Cuba para mudar o governo que não envolvesse algum tipo de ocupação”, afirmou.
Ele acrescentou: “No entanto, também tenho que ser honesto e dizer que não poderia ter imaginado o que aconteceu na Venezuela no dia 3 de janeiro.”
Já Emilio Morales, presidente do Havana Consulting Group, sediado em Miami, acredita que a impopularidade do regime cubano poderia acelerar mudanças políticas.
“O povo deseja que os americanos assumam o controle”, declarou.


