2026: entre a reorganização da direita, a estabilidade econômica e o lugar do Brasil no mundo
Brasil chega a 2026 menos fragilizado economicamente e mais integrado internacionalmente do que chegou a 2018.
Encerrado o Carnaval, o país volta lentamente ao seu eixo real: a política. E com ele retorna, inevitavelmente, a discussão sobre a eleição presidencial que se aproxima.
A eleição presidencial de 2026 não será uma repetição automática de 2022 nem uma simples extensão do ciclo iniciado em 2018. O país chega ao próximo pleito com três características estruturais que moldarão a disputa: uma polarização consolidada, uma oposição em reorganização e uma economia que, embora longe de euforia, apresenta indicadores significativamente distintos daqueles que alimentaram a onda antipolítica do passado recente.
A inelegibilidade de Jair Bolsonaro encerrou um capítulo jurídico, mas não dissolveu o fenômeno político que ele catalisou. O bolsonarismo transformou-se em corrente organizada da extrema direita brasileira, com base social consistente, presença digital disciplinada e narrativa ideológica centrada no antagonismo permanente.
Pesquisas recentes da Genial/Quaest e do Datafolha indicam que seu núcleo duro permanece estável, oscilando entre 25% e 30% do eleitorado. Trata-se de contingente suficiente para garantir competitividade no primeiro turno e influência decisiva no segundo.
Esse dado, por si só, impede qualquer leitura complacente.
A herança e os limites de Flávio Bolsonaro
É nesse contexto que Flávio Bolsonaro surge como herdeiro natural da extrema direita. Sua eventual candidatura repousaria fundamentalmente sobre continuidade simbólica e sobre a narrativa de perseguição ao ex-presidente. O sobrenome funciona como âncora identitária para o eleitorado bolsonarista.
Mas há limites evidentes.
Flávio não construiu trajetória administrativa nacional nem apresentou projeto econômico estruturado. Sua viabilidade dependerá menos de propostas e mais da capacidade de manter coeso o eleitorado ideologicamente mobilizado. O problema é que eleições presidenciais exigem expansão para além do núcleo duro. E é justamente nesse ponto que começam as dificuldades.
Entre 2019 e 2022, sob o governo de Jair Messias Bolsonaro, o Brasil registrou crescimento medíocre, forte volatilidade institucional e perda de protagonismo diplomático. A taxa de desemprego permaneceu elevada por período prolongado, a inflação corroeu renda e a política externa assumiu caráter de alinhamento ideológico.
A extrema direita brasileira reivindica soberania, mas sua prática recente foi marcada por alinhamento automático a Donald Trump, apoio irrestrito ao israelense Benjamin Netanyahu mesmo diante de denúncias internacionais graves envolvendo territórios ocupados e população palestina, e simpatia explícita pelo polêmico presidente argentino Javier Milei, cuja agenda ultraliberal produziu forte retração social e compressão de direitos trabalhistas na Argentina.
Não se trata de soberania estratégica. Trata-se de alinhamento ideológico seletivo.
Essa dimensão internacional não é secundária. Ela afeta comércio, investimentos, acordos climáticos e credibilidade institucional. Em um mundo em transição — com reconfiguração do eixo econômico global e crescente disputa tecnológica — a autonomia diplomática tornou-se ativo relevante.
O reposicionamento internacional de Lula
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva recolocou o Brasil no centro de fóruns multilaterais estratégicos. Retomou protagonismo no G20, fortaleceu articulação no BRICS, ampliou diálogo com o Mercosul, União Europeia, China, Índia, Estados Unidos e países africanos. Reposicionou o país na agenda climática e reativou mecanismos de cooperação sul-americana.
A política externa voltou a operar como instrumento de desenvolvimento e inserção global, não como palco de guerra cultural. Essa diferença pode não ser central no debate cotidiano, mas influencia diretamente fluxos de investimento e percepção de estabilidade.
E estabilidade, no Brasil contemporâneo, tornou-se valor político.
Economia: variável decisiva?
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego encontra-se em patamar próximo aos menores níveis da série histórica recente. O crescimento acumulado desde 2023 superou previsões iniciais do mercado. O salário mínimo voltou a registrar ganho real. A política industrial foi retomada e o investimento público, embora ainda insuficiente, voltou ao centro da agenda econômica.
Persistem desafios relevantes: juros extremamente elevados comprimem crédito, o endividamento das famílias permanece alto e a percepção de custo de vida continua sensível. A classe média urbana mostra ambivalência nas pesquisas de opinião.
Mas há diferença estrutural em relação a 2018: o país não atravessa recessão profunda nem colapso institucional.
Entretanto, um dado vem se consolidando em diversas análises qualitativas e quantitativas: uma parcela significativa da população declara que sua situação pessoal “ainda não melhorou” de maneira perceptível, apesar da recuperação de indicadores macroeconômicos e da recomposição de programas sociais. A inflação perdeu intensidade, mas o custo acumulado dos últimos anos ainda pesa na memória das famílias. A recomposição salarial é real, mas parte do ganho é absorvida por endividamento elevado e serviços mais caros. Em outras palavras, a macroeconomia melhora mais rápido do que a percepção cotidiana. Esse hiato entre indicador e sensação é politicamente relevante — e pode ser explorado pela oposição.
Eleições presidenciais no Brasil raramente são vencidas contra um cenário econômico em melhora perceptível.
A direita para além do clã Bolsonaro
A oposição ensaia alternativas que ultrapassem a herança direta do bolsonarismo. Tarcísio de Freitas é visto por setores da Faria Lima como nome tecnicamente confiável, capaz de oferecer previsibilidade fiscal. No entanto, sua trajetória é inseparável do bolsonarismo. Declarações públicas controversas e alinhamentos ideológicos reduzem sua margem de expansão para além da base conservadora. Seu desafio é ampliar eleitorado sem romper com o campo que o sustenta.
Romeu Zema aposta em narrativa liberal de eficiência administrativa, mas enfrenta limites de projeção nacional. Ronaldo Caiado ancora-se no conservadorismo rural e na agenda de segurança pública, com alcance regional consistente, porém incerto em escala nacional.
A questão central é a convergência. Uma direita fragmentada favorece o governo. Uma candidatura unificada reequilibra o jogo.
Primeiro e segundo turno: dinâmicas distintas
No primeiro turno, a disputa tende a refletir identidades políticas consolidadas. O núcleo bolsonarista garante base mínima robusta. O lulismo mantém capilaridade social e regional. Nomes alternativos da direita podem funcionar como válvulas de escape para setores moderados.
No segundo turno, entretanto, a lógica muda. A eleição deixa de ser afirmação identitária e passa a ser escolha comparativa. É nesse momento que variáveis como estabilidade econômica, credibilidade internacional e memória institucional ganham peso.
As pesquisas revelam ainda um elemento decisivo: os índices de rejeição. Tanto Lula quanto o campo bolsonarista apresentam taxas elevadas de rejeição, ainda que por razões distintas. No caso de Lula, a rejeição parece associada à fadiga de ciclo político prolongado, ao antipetismo sedimentado desde meados da década passada e, sobretudo, à percepção de que a melhora macroeconômica ainda não se traduziu plenamente na vida cotidiana de parte do eleitorado. Já no caso da extrema direita, a rejeição está mais vinculada à memória de radicalização institucional, instabilidade e alinhamento externo ideológico. Em eleições altamente polarizadas, rejeição não é detalhe estatístico — é limite estrutural de expansão.
Se o debate for capturado pela guerra cultural, a extrema direita recupera tração. Se for ancorado em renda, emprego e previsibilidade institucional, o governo tende a se beneficiar.
O que está realmente em disputa
Acredito que 2026 será menos um plebiscito moral e mais um teste sobre qual projeto oferece maior capacidade de atravessar um mundo instável. De um lado, radicalização permanente, alinhamentos ideológicos externos e política de confronto interno. De outro, estabilidade institucional, inserção diplomática autônoma e aposta no desenvolvimento.
Nada está decidido.
Mas o Brasil chega a 2026 menos fragilizado economicamente e mais integrado internacionalmente do que chegou a 2018. Essa diferença é estrutural.
E pode ser determinante.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



