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Paulino Cardoso

Historiador, analista geopolítico e Editor do Mundo Multipolar

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30 anos de uma África do Sul democrática

Três décadas depois do discurso de posse, a propota conciliação turbinou também um discurso populista com características singulares

Nelson Mandela

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No último 27 de abril, a África do Sul celebrou o 30º Dia da Liberdade. Entretanto, quando você busca na mídia corporativa notícias sobre o país da África meridional, em especial, sobre as eleições presidenciais que ocorrerão no próximo dia 29, as poucas informações são profundamente negativas.

Esta má vontade da mídia, talvez esteja diretamente relacionada ao protagonismo da pátria de Nelson Mandela, na arena internacional, seja como um dos membros fundadores dos BRICS, mas principalmente na defesa intransigente da libertação do Povo da Palestina. 

Como bem nos lembra o jornalista Abayomi Azikiwe, editor do Pan-Africa News Wire:

 "O grau em que as reformas instituídas pelo governo não cumpriram as aspirações dos interesses capitalistas nacionais e internacionais contribui para os argumentos que sugerem que o ANC falhou nos seus imperativos políticos. Várias posições assumidas e avançadas pelo governo sul-africano atraíram a ira da administração Biden e do Congresso dos EUA".

Em recente artigo alusivo à efeméride, o jornalista Fábio Zanini, lembrou das célebres palavras de Nelson Mandela na posse como presidente da República, prometendo “trabalho, pão, água e sal para todos”. Segundo ele, “O lirismo daquele momento atualmente se perdeu numa África do Sul que convive com altos índices de desemprego, criminalidade e corrupção.”

Três décadas depois do histórico discurso de posse, a conciliação pregada por Mandela, paradoxalmente, turbinou no país um discurso populista que ganha ressonância na sociedade, mas com características singulares.

Zanini chama atenção para o aparente paradoxo, enquanto na maior parte do mundo, políticos de centro se preocupam com o crescimento destrutivo da extrema direita, na África do Sul, segundo ele, é o populismo de esquerda que pode desestabilizar o país. De acordo com o jornalista, há duas forças políticas formadas a partir de dissidências do Congresso Nacional Africano (CNA), que se mantém até hoje no poder, duelam pelo flanco esquerdo do espectro político. Ambas partem de um diagnóstico de que a pacificação pregada no final do apartheid foi um erro e que o CNA se absteve de fazer mudanças radicais e necessárias na sociedade.

Uma dessas forças é o EFF, sigla em inglês para os Combatentes pela Liberdade Econômica, que prometem nacionalizar setores econômicos e combater os privilégios da minoria branca. Isso usando uma estética que remete ao antigo símbolo dos revolucionários africanos, a boina vermelha como uniforme. 

O outro grupo é o recém-surgido partido MK, que tem o ex-presidente Jacob Zuma à frente e ressuscita o nome de um braço armado do movimento antiapartheid (A Lança da Nação). A pauta do MK é o nacionalismo econômico e cultural e a redistribuição acelerada de propriedades para negros pobres. Isso porque, ainda hoje, mesmo com os esforços do governo para aquisição de terras, a minoria branca segue controlando 83% das propriedades agrícolas do país.

Zanini aponta que pesquisas eleitorais indicam que essas duas forças de esquerda combinadas poderão atrair de 20% a 25% do eleitorado. Isso forçaria o Congresso Nacional Africano a promover uma virada à esquerda de sua plataforma reformista, caso queira continuar controlando o governo.

O autor ainda lembra de uma outra ação iniciada e defendida por Mandela está em debate, a de mobilizar eleitores mais à direita, que apoiam o partido Aliança Democrática, hoje o segundo maior do país. “Com ideologia liberal inspirada na centro-direita europeia, a legenda se insurge contra o amplo programa de ações afirmativas batizado de Fortalecimento Econômico Negro (BEE, na sigla em inglês), que tem como objetivo aumentar a participação de negros no comando de empresas, inclusive privadas.” Como no Brasil, inspirados nos EUA, as ações afirmativas não trazem mudanças significativas, apenas contribuem para gerar uma classe média negra despolitizada. 

Em um documentário do Jornal Brasil De Fato, sob direção de Iolanda Depizzol e Pedro Stropasolas, Irvin Jim, Secretário geral do Sindicato Nacional dos Metalúrgicos da África do Sul (Numsa), denuncia que o Dia da Liberdade e o fim do regime de segregação racial não significou a conquista da igualdade entre a maioria negra e a minoria branca do país. Para ele, “aprendemos rapidamente que o que garantimos através disso era poder político, sem poder econômico. E ficou muito claro que o que tivemos foi um acordo negociado”.

Nesta mesma direção, Jonis Ghedi Alasow, jovem pesquisador sul africano, comenta que: "As realidades econômicas materiais, onde seus avós moravam, se você é uma pessoa negra e pobre, é provavelmente onde você está morando hoje. E onde seus avós moravam, como uma pessoa branca e rica, é provavelmente onde você ainda mora hoje. E isso é, de muitas maneiras, a razão pela qual há uma visão de que 1994 foi um primeiro passo, e um passo importante. Mas o segundo passo ainda precisa ser dado. 74% dos jovens estão desempregados na África do Sul. E, de novo, porque não mudamos realmente a estrutura econômica do apartheid. Isso é um fenômeno racial".

Quando Nelson Mandela tomou posse, vivíamos o auge do Neoliberalismo, decretado após a implosão da União Soviética. Os Estados Unidos emergiram como força hegemônica capaz de reorientar os destinos do mundo, dando pouca margem de atuação. 

Como no Brasil de Fernando Henrique Cardoso, a África do Sul estava pressionada pelas diretrizes do Consenso de Washington, e infestado de ONGs financiadas pela cooperação internacional. Em 2018, ao tentar orientar o governo para políticas de interesse da própria nação, e não do capital estrangeiro, o presidente Jacob Zuma levou um golpe de Estado e sofreu uma perseguição judicial que tinha o intuito de bani-lo da vida pública. Exatamente o mesmo processo de guerra híbrida que passamos em nosso país com o golpe contra Dilma Rousseff. 

Três décadas depois, cumprido a tarefa de passar ao povo o poder político, talvez tenha chegado a hora de um próximo passo: a democratização social e econômica do país. Nisso os BRICS, capitaneados por China e Rússia, poderão cumprir um papel importante, na medida em que a África do Sul, maior economia do continente africano, desempenhe o papel que lhe cabe como líder da maioria global em um mundo multipolar. E isto estará nas mãos dos 27 milhões de eleitores no próximo 29 de maio.

Com edição de Mariana Schlickmann

Fontes:

Abayomi Azikiwi. https://www.globalresearch.ca/south-african-freedom-day/5856700

Fabio Zanini (FOLHAPRESS).https://jornaldebrasilia.com.br/noticias/mundo/nos-30-anos-da-posse-de-mandela-conciliacao-da-lugar-a-populismo-na-africa-do-sul/

Brasil De Fato.

https://www.brasildefato.com.br/2024/04/27/bdf-lanca-documentario-sobre-30-anos-da-eleicao-de-mandela-e-as-sequelas-deixadas-pelo-apartheid-na-africa-do-sul

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