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Roberto Santana Santos

Professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ). Doutor em Políticas Públicas e Mestre em História Política

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9 pontos sobre a Venezuela até agora

Análise crítica dos principais fatos históricos, políticos e geopolíticos que ajudam a compreender a Revolução Bolivariana e a conjuntura atual do país

Um homem caminha ao lado de um mural com as cores da bandeira venezuelana, em Caracas, Venezuela - 29 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/Gaby Oraa)

Pontos preliminares

1. A Revolução Bolivariana é o acontecimento mais importante da história latino-americana no século XXI. A chegada de Hugo Chávez ao governo em 1999 e a declaração do caráter socialista da Revolução em 2001, mudou o tabuleiro político na região, recolocando a esquerda como ator político relevante no continente em um momento de euforia neoliberal e ainda historicamente muito próximo à derrocada soviética de 1991. É a favor ou contra as ideias do chavismo que toda a política da região passa a girar, inaugurando a “onda progressista” dos anos 2000, assim como as previsões charlatães das direitas de que seus países iriam “virar a Venezuela” em caso de vitórias eleitorais da esquerda.

2. Os Estados Unidos jamais vão admitir governos que contrariem seus interesses, muito menos na América Latina. Se mesmo países capitalistas, como Rússia e Irã, já sofrem com tentativas de golpes, embargos e sanções, pior ainda para aqueles que busquem a via revolucionária. Pouco adianta se apresentar como “esquerda moderada”. Perante os interesses do capital norte-americano, todos são comunistas e precisam ser removidos. Lembremos como o pré-sal foi vendido a “preço de banana” e boa parte da indústria petrolífera e naval brasileira foi desmantelada após o Golpe de 2016 que depôs Dilma Rousseff. Pelas lentes da Casa Branca, Lula e Maduro estão no mesmo lugar, apenas se adotam táticas diferentes conforme a avaliação de ameaça e as condições de cada país.

Dito isso, há muita desinformação nas redes sobre os acontecimentos recentes na Venezuela. Essa desinformação tem dois ramos: primeiro, faz parte da estratégia norte-americana embaralhar as informações para negativar a imagem internacional do governo venezuelano – apresentando-o como uma ditadura conivente com o narcotráfico – como também para fomentar divisões em Caracas que permitam um golpe de Estado. Em segundo lugar, há muito desconhecimento, inclusive entre a militância de esquerda e seus porta-vozes, sobre a Venezuela. 

Um dos males do mundo digital é o surgimento do “tudólogo”, jornalistas e analistas que parecem dominar todos os assuntos e capazes de emitir opiniões abalizadas sobre qualquer tópico. O campo da esquerda não está isento desse mal e vimos nos últimos dias muita gente inteligente falando bobagens e até reproduzindo a fala do inimigo. Vamos elencar alguns pontos tentando o máximo de objetividade (já que neutralidade total é algo que pertence ao idealismo liberal):

3. Não se pode subestimar o poder do inimigo: Os Estados Unidos, que pese o fim da sua hegemonia e o declínio relativo de seu poder, continuam sendo a maior potência militar do planeta. Eles têm sim a capacidade de bombardear qualquer país, provocar panes em sistemas elétricos e informacionais, derrubar defesas antiaéreas e sequestrar chefes de Estado com o máximo de eficiência e poucas ou nenhuma baixa. Que pese o exagero de propaganda dos filmes hollywoodianos, o que aconteceu em Caracas na madrugada do dia 03 é totalmente possível de ser replicado em quase todos os países do mundo, o que deve servir de alerta para os que almejam construir um país justo e soberano.

4. Após o choque devido ao sequestro do Presidente Nicolás Maduro, o chavismo continua controlando o país. Tanto as medidas de mobilização popular, convocando manifestações nas ruas, quanto os trâmites institucionais, com a posse da vice Delcy Rodriguez como presidenta interina e a decretação do Estado de Guerra com aval da Suprema Corte – como determina a Constituição da nação – foram realizadas. Ao contrário de alguns comentaristas afoitos que acham que o governo venezuelano deveria declarar guerra contra os EUA, a liderança chavista organiza a defesa do país e passa tranquilidade à população deixando claro que o Estado e as instituições estão funcionando e não há vazio de poder. Isso procura dissuadir qualquer aventura golpista e mantém a unidade e coesão de uma população sob ataque.

5. A principal tarefa nesse momento é evitar o golpe. A atuação rápida dos militares estadunidenses aponta que o sequestro de Maduro era o objetivo principal. Washigton adota agora uma postura de espera, possivelmente fomentando secretamente alguma divisão nas Forças Armadas venezuelanas. Não é possível promover um golpe em Caracas hoje sem apoio armado local. Atualmente, Trump não tem condições políticas internas para ocupar a Venezuela, o que exigiria uma guerra de larga escala sem previsão de término. O intuito passa a fomentar divisões internas na Venezuela a partir da ausência do Chefe de Estado. Contra essas possibilidades que o governo chavista se mobiliza nesse momento.

6. Claro que algumas perguntas são muito óbvias: houve traição a Maduro? Por que os helicópteros americanos não foram alvejados? Qual foi o tamanho do confronto? Essas são questões que somente serão respondidas com o tempo. É sintomático que, até o momento, nenhum dos dois lados revelou qualquer imagem sobre a operação. As informações de que boa parte da guarda pessoal de Maduro pereceu (15 venezuelanos e 32 cubanos) mostra que houve confronto e que a operação americana foi numa escala muito maior do que apenas “alguns helicópteros”. Em situações de tensão extrema como essa, o governo venezuelano evitará acusações de traições públicas, por mais que nos bastidores a ação deve ser exatamente a oposta.

7. Delcy Rodriguez, que assume como presidenta interina, é militante histórica do chavismo e já desempenhou os mais altos cargos no governo, inclusive o de chanceler. Os comentários de que teria “entregado Maduro” são parte da guerra psicológica promovida por Washington, quando não, achismos de comentaristas de internet. A carta que a presidenta interina divulgou na noite do dia 04 de janeiro, é a mesma posição que Maduro e a Venezuela sempre tiveram: desejos de relações de colaboração com os EUA desde que baseadas no respeito. É bom lembrar que nenhuma empresa norte-americana foi expulsa da Venezuela. Elas é que se retiraram por não admitirem os termos de partilha dos lucros do petróleo exigidos por Caracas. A única que o fez foi a Chevron, que continuou operando durante todos esses anos no país, e tem mais problemas com o governo dos EUA (precisa de uma licença constantemente renovada pela Casa Branca devido às sanções) do que com o da Venezuela. Delcy Rodriguez apresenta ao mundo novamente que o problema é a posição de Washigton, não de Caracas. Precisará liderar agora a defesa do país contra novos ataques e uma campanha mundial pela libertação de Maduro.

8. O que a Venezuela necessita nesse momento não é de especulações, mas sim solidariedade. Há décadas o povo venezuelano sofre com sanções, embargos, tentativas de golpe, atentados terroristas da extrema direita, intentos de sequestro ou morte de seus presidentes. E mesmo assim, a Revolução Bolivariana persiste. Fosse a ditadura de um homem só, já teria sucumbido há muito tempo. A Revolução Bolivariana é uma insurgência popular contra o neoliberalismo e o imperialismo, a tentativa de construção de um socialismo com forte presença territorial, com seus acertos e erros como qualquer processo histórico. Sua derrota é a derrota de todas as forças populares latino-americanas e traria consequências catastróficas para o Brasil e o governo Lula, ainda mais em ano eleitoral. É dever da esquerda e sua militância a solidariedade total com seu povo e o repúdio à guerra e às ações bélicas norte-americanas. 

9. O ataque covarde de Trump e o sequestro de Maduro é o “novo normal” da política externa norte-americana. O presidente estadunidense vocaliza a posição hoje majoritária da burguesia de seu país, que compreendeu ser impossível frear o avanço chinês e a formação de um mundo multipolar. Passa, portanto, a demarcar seus espaços de domínio, sendo a América Latina, o principal, e abandona a hegemonia – onde era obrigado a organizar o sistema internacional para legitimar sua supremacia. A Casa Branca não organiza mais as regras, ela explode as regras para garantir sua – enorme – fatia do sistema internacional. O Brasil está na mira de Washigton e não pode agir de maneira poliana, crendo ainda se movimentar em um mundo regrado pelo direito internacional. Temos que ter isso em mente se queremos um projeto popular e soberano para nosso país. Trump não vai parar em Caracas.

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Por fim, certo de que estudar nunca é demais, compartilho abaixo algumas leituras para quem deseja se aprofundar sobre a Venezuela por fora do monopólio midiático.

- Para uma história da Revolução Bolivariana, meu texto “A Revolução Bolivariana foi a última revolução do século XX e a primeira do século XXI” disponível clicando aqui.

- Para saber como funcionam as comunas, unidades de produção autônoma e democracia direita para formação do poder popular, recomendo o livro “Construindo a comuna: democracia radical na Venezuela” de George Ciccariello-Maher lançado pela editora Autonomia Literária.

- Para uma análise dos mecanismos de democracia direta existentes na Venezuela recomendo o livro “Estado e democracia nos tempos de Hugo Chávez” de Mariana Bruce lançado pela FGV editora.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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