Venezuela, mercados e energia: o que os fatos de hoje revelam
A resposta brasileira precisa ser estratégica, coordenada e baseada em soberania energética, política externa ativa e uso inteligente dos nossos ativos
Os dados de mercado desta manhã ajudam a separar retórica de realidade. Apesar do choque político e simbólico da captura de Maduro, os mercados globais abriram em alta e o petróleo recuou levemente. Isso confirma um ponto essencial: não há choque físico relevante de oferta. Mesmo com as maiores reservas no subsolo, a Venezuela produz hoje menos de 1% do petróleo global. O mercado entende isso.
O comportamento dos títulos do tesouro americano indica leve aumento de prêmio de risco, mas nada que sugira pânico ou expectativa de conflito prolongado. A Opep+ também reforçou essa leitura ao anunciar manutenção da produção. Ou seja: o sistema energético global não entrou em estresse.
Isso reforça a tese central que vem ficando cada vez mais explícita nas falas oficiais dos EUA.
Marco Rubio foi claro: “Não precisamos do petróleo da Venezuela. O que não vamos permitir é que a indústria petrolífera venezuelana seja controlada por adversários dos EUA.”
Isso é praticamente uma confissão estratégica.
O objetivo não é produzir mais petróleo, nem controlar preços no curto prazo. É negar acesso. Controlar o destino, o financiamento e a governança da energia venezuelana, impedindo que China, Rússia e Irã consolidem influência no Hemisfério Ocidental.
Por isso fala-se agora em “quarentena do petróleo”, uso de bloqueios seletivos e influência política, não em ocupação direta. A energia vira instrumento de contenção geopolítica, não de maximização econômica.
Nesse contexto, também chama atenção a retórica crescente de Trump em relação a outros países da região, como a Colômbia. Isso indica que o precedente não se encerra na Venezuela. A noção de “zona de influência” está sendo verbalizada sem constrangimento.
Para o Brasil, a leitura é direta e estratégica.
Num mundo em que grandes produtores passam a ser contidos ou alinhados à força, o Brasil surge como origem segura, institucionalmente estável e fora de sanções. Isso aumenta nosso peso no tabuleiro energético global, especialmente diante da China. Ao mesmo tempo, eleva a responsabilidade: energia deixou de ser apenas mercado, voltou a ser poder.
O risco não é o barril hoje. É o precedente amanhã.
E a resposta brasileira não pode ser ideológica nem reativa. Precisa ser estratégica, coordenada e baseada em soberania energética, política externa ativa e uso inteligente dos nossos ativos, especialmente a Petrobras.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




