A China diante do caos e de Taiwan
A noção de unificação pacífica desapareceu do léxico colocando em seu lugar a nada sutil expressão de “tendência histórica”
O presidente chinês Xi Jinping em sua mensagem de final de ano lançou uma frase muito objetiva e que, mesmo para o senso comum diplomático, pode ter passado despercebido: “A tendência histórica de reunificação da pátria é irreversível”. O presidente claramente estava se referindo a Taiwan. Qual a grande novidade semiótica deste pronunciamento? Simples sem ser simplista: a noção de unificação pacífica desapareceu do léxico colocando em seu lugar a nada sutil expressão de “tendência histórica”.
A tradução de “tendência história” deve ser a mais clara possível. Trata-se de um processo cuja nenhuma ação humana seja capaz de conter. Da mesma forma que as leis da natureza impõe regularidades que dão o ritmo das mudanças no meio natural. Na prática, nem as ações de outras potências – notadamente os Estados Unidos – poderão conter esse processo. Processe este que já não poderá ser pacífico como outrora e sim de acordo com as necessidades colocadas pela própria história. Inclui-se a guerra propriamente dita.
De um ponto de vista particular, para o lado chinês, o melhor cenário é o da manutenção do atual status quo com a ilha mantendo seus símbolos, moeda e sistema, porém sem declarar independência. Porém, o cenário muda ao longo das duas últimas décadas na mesma proporção em que as forças de oposição ao Kuomintang acumulam forças e alcançam o poder central da ilha em linha com a direita mais inconsequente dos EUA que podem ser localizadas tanto dentro dos Partido Democrata quando no Partido Republicano.
Vejamos, ao mesmo tempo em que Trump desautoriza a primeira-ministra japonesa a provocar abertamente a China usando-se da questão de Taiwan como meio, os Estados Unidos venderam um pacote de US$ 12 bilhões em armas à província. Tratou-se de uma provocação aberta aos chineses que, por sua vez, responderam com sanções contra cerca de 20 empresas de defesa dos EUA e dez altos executivos ligados às vendas de armas. Ao lado destas medidas, exercícios militares na região foram retomados em clara demonstração de força e das capacidades do continente em cercar e bloquear a ilha.
Porém, ficam duas questões mais estratégicas. Como a China se preparou, e se prepara, para o caos global tendo em vista seus interesses em Taiwan e no mar do Sul da China? E como o país trabalha diante de um “acordão” com os Estados Unidos?
A segunda questão é menos complexa, pois demanda um exercício de lógica formal simples para uma conclusão. Os EUA não são um país confiável, mesmo acenando para um recuo às outrora “áreas de influência”, o que deixaria a China com liberdade de ação em seu entorno. Perguntemos. Tendo em vista que o grande interesse estratégico estadunidense é deter a Chinam, o que demanda desgastá-la, qual o sentido de “abandonar” Taiwan e o mar do Sul da China? Respondo: nenhum.
Já a primeira questão tem mais alto grau de complexidade. O caos. Ainda precisamos encontrar uma dialética que nos entregue a relação entre a atual doutrina de política externa do país, o “Corolário Trump” e a estratégia global de uma potência decadente que necessita do caos enquanto forma de governança em um mundo em intensa transformação e com bases materiais muito diferentes da “retomada da hegemonia” nos anos de 1980 com Reagan. Traduzindo, a China de hoje é completamente diferente da então União Soviética e o próprio Japão. No limite, os EUA nunca aceitarão sua superação. E nisso Taiwan é ainda um grande ativo em suas mãos como forma de conter e desgastar a China.
A China diante desse cenário opera em várias frentes e em nenhuma delas o trabalho deu-se início agora ou recentemente. O próprio projeto de modernização iniciado em 1978 foi uma resposta à demanda histórica de reunificação do país via criação de uma zona de convergência econômica entre o continente e Hong-Kong, Macau e Taiwan enquanto base do conceito de “um país, dois sistemas”. O resultado é uma dependência econômica de Taiwan em relação ao continente nada pequena: quase um terço das exportações de Taiwan vai para a China, e cerca de um quinto das suas importações vêm do continente — o que faz de China/Hong Kong o parceiro econômico mais importante do ponto de vista do comércio. Do ponto de vista econômico e comercial, Taiwan já foi absorvida pela China. E isso é fundamental.Militarmente, a expansão dos gastos chineses no setor é uma necessidade tanto histórica quanto de um entorno regional cada vez mais instável, incluindo a própria dinâmica taiwanesa. Entre 2019 e 2025 o orçamento militar oficial da China tem crescido todos os anos a taxas médias de 6,9%. Suas capacidades de dissuasão e coerção tem-se elevado em grande proporção, ainda que uma ocupação militar da província ainda não seja uma opção imediata. O mais importante nesse ponto é a já citada e demonstrada capacidade chinesa em isolar Taiwan por mar, ar e terra. O país já conta com três porta-aviões, muito distante dos EUA ainda, mas o recém-lançado Fujian é capaz de rivalizar com o USS Gerald R.
A elevação da pressão psicológica aliada a crescentes gastos e presença militar ao redor da ilha tem sido altamente funcional para, ao menos por enquanto, manter o atual status quo. Ao que tudo indica, a mudança semiótica conforme notado no discurso de ano novo e Xi Jinping esteja em conformidade com a oficialização do caos enquanto instrumento de governança mundial. As coisas não tendem a parar por aí. O consenso entre especialistas ocidentais é que em 2027 o continente esteja pronto para uma tomada militar total da “província rebelde”.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



