Trump está fazendo o mundo se apaixonar pela China, diz colunista do Financial Times
Ivan Krastev diz que a política externa agressiva do presidente dos EUA acelera a percepção global de que a influência de Pequim cresce e é positiva
247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode estar chacoalhando a ordem internacional — mas, no processo, estaria ajudando a tornar a China mais atraente aos olhos de grande parte do planeta. É o que sustenta o colunista Ivan Krastev, em artigo publicado no Financial Times, ao apontar um desgaste crescente com “décadas de padrões duplos e hipocrisia liberal” vindos de Washington e ao sugerir que o novo estilo da Casa Branca produz um efeito inesperado: mais simpatia por Pequim.
No texto, Krastev — que é editor colaborador do FT, presidente do Centre for Liberal Strategies e fellow do IWM Vienna — combina referências culturais e política internacional para sustentar que americanos e não americanos se cansaram do moralismo norte-americano, e que a franqueza agressiva de Trump não se converte automaticamente em respeito ou liderança global.
Logo na abertura, o colunista recorre a um personagem do escritor John Updike para ilustrar o velho impulso ideológico dos Estados Unidos: “Sem a Guerra Fria, qual é o sentido de ser americano?”, diz a frase citada no artigo, atribuída ao personagem Harry “Rabbit” Angstrom. Para Krastev, essa ironia serve para expor a autopercepção de “missão” e de superioridade moral que marcou por décadas a política externa de Washington.
O fim da “hipocrisia” e a diplomacia sem verniz
Ivan Krastev argumenta que a chegada de Trump ao poder simbolizou “o fim da hipocrisia e da moralização” e, ao mesmo tempo, a ascensão de uma política externa movida pelo “brutalismo” e pela “franqueza”. Na visão do colunista, não haveria mais espaço para “verniz diplomático”, nem para declarações cuidadosamente calibradas para manter aparências.
Ele recorre a uma expressão famosa do narrador esportivo Howard Cosell para resumir o novo método: “É hora de dizer as coisas como elas são”. Segundo o articulista, antes os Estados Unidos justificavam ataques a países ricos em petróleo com argumentos como democracia e segurança, mesmo quando o mundo suspeitava que o interesse real era energético.
Agora, escreve, o discurso seria assumido sem rodeios: “Hoje, o presidente dos EUA é o primeiro a insistir que atacou a Venezuela por petróleo”. O colunista ressalta, porém, que o fim do discurso moralizante não torna automaticamente os Estados Unidos mais respeitados.
A pesquisa citada e a “boa notícia” sobre a China
Krastev afirma que uma pesquisa global de opinião encomendada pelo European Council on Foreign Relations (ECFR) revela uma mudança significativa no imaginário internacional. O levantamento — citado no artigo — teria mostrado que, no primeiro ano do segundo mandato de Trump, um número crescente de pessoas acredita que a influência da China, já elevada, aumentará ainda mais e que isso seria positivo para seus próprios países e para o mundo.
O autor sintetiza essa conclusão de maneira direta: “Trump pode ter sacudido o planeta, mas o mundo está se apaixonando pela China”.
China no cotidiano: carro elétrico, painel solar e DeepSeek
Ao tentar explicar por que Pequim estaria ganhando simpatia, Ivan Krastev aponta o peso da China na vida cotidiana. Para ele, muitos dos “novos fãs” do país asiático já dirigem carros elétricos chineses, instalaram painéis solares produzidos por empresas chinesas em suas casas, usam o sistema de inteligência artificial DeepSeek e veem os filhos brincarem com brinquedos fabricados na China.
O articulista reconhece que há tensões geopolíticas — citando exercícios militares em torno de Taiwan e no Mar do Sul da China —, mas afirma que, fora essa esfera, a China aparece como “demonstravelmente pacifista”, por não realizar operações militares ofensivas fora do que considera suas fronteiras.
Por que a força exibida por Trump não rende dividendos
Em um trecho de reflexão mais ampla, Krastev dialoga com uma máxima atribuída a Maquiavel — de que é melhor ser temido do que amado, se não for possível ser ambos — para questionar por que a política de demonstração permanente de poder dos Estados Unidos não estaria gerando maior adesão internacional.
A resposta, segundo ele, está no modo como o mundo enxerga o poder: as pessoas só se impressionam quando ele falha. Por isso, diz o autor, o planeta não teria se surpreendido com a escalada tarifária de Trump, e sim com o fato de a China ter conseguido reagir. Ele observa que a demonstração de força militar americana na Venezuela seria algo “esperado”, enquanto o que chama atenção globalmente é o fracasso russo na guerra da Ucrânia, por mostrar limites concretos.
“Inveja” de Pequim e imitação do “capitalismo de Estado”
Entre os trechos mais contundentes do artigo, Ivan Krastev afirma que Trump “inveja” a China e fantasia com a extensão do poder industrial chinês. Para o colunista, o presidente dos Estados Unidos estaria tão fascinado com esse modelo que passou a praticar uma espécie de “capitalismo de Estado” ao estilo chinês — um movimento que seria, em si, uma confissão de desconfiança no próprio sistema americano.
Ele recorre a outra formulação para reforçar o argumento: “A imitação é a forma mais alta de elogio, e agora é Washington que está imitando Pequim”.
América sozinha e alianças enfraquecidas
Krastev conclui que o poder pode produzir obediência e conformidade, mas não gera lealdade. E observa que Trump convenceu parte do eleitorado norte-americano de que “America First” significa, na prática, “Estados Unidos sozinhos”. Segundo ele, quando o país mais poderoso do mundo dá sinais de que defenderá apenas seus próprios interesses imediatos, não deveria se surpreender ao encontrar menos solidariedade internacional quando sua influência começar a enfraquecer.
No fim, o colunista sugere que os Estados Unidos venceram a Guerra Fria não apenas por serem fortes, mas por insistirem em parecer diferentes — oferecendo ao mundo um imaginário de liberdade no qual outros países podiam acreditar. E deixa uma pergunta que retoma o espírito da referência literária do início do texto: sem os EUA defendendo a liberdade — ou ao menos fingindo fazê-lo —, qual seria, afinal, o sentido de ser pró-americano?


