Primeira venda de petróleo da Venezuela por Trump beneficia empresa ligada a megadoador de campanha
Negócio de US$ 250 milhões com a Vitol envolve executivo que doou cerca de US$ 6 milhões a comitês pró-Trump e participou de reunião na Casa Branca
247 – A primeira venda de petróleo bruto venezuelano feita pelos Estados Unidos no novo plano energético do presidente Donald Trump foi destinada a uma empresa cujo alto executivo doou milhões de dólares para apoiar a reeleição do republicano. As informações são do jornal britânico Financial Times, que detalhou os bastidores do acordo e a relação entre doações políticas e a operação de comercialização do petróleo venezuelano.
Segundo a reportagem, a transação inicial envolveu a Vitol, uma das maiores tradings de energia do mundo, em um acordo de aproximadamente US$ 250 milhões. O negócio marcou o início de uma estratégia considerada controversa por analistas e observadores internacionais, com a qual a Casa Branca pretende vender até 50 milhões de barris de petróleo da Venezuela.
De acordo com o Financial Times, John Addison, trader sênior da Vitol, esteve envolvido nos esforços para garantir o acordo e, ao mesmo tempo, aparece como um dos principais financiadores políticos pró-Trump no setor de energia. Addison teria doado cerca de US$ 6 milhões para comitês de ação política que apoiaram a campanha de reeleição do presidente.
Entre as doações citadas na reportagem, há um repasse de US$ 5 milhões em outubro de 2024 para o Maga Inc, conforme registros reunidos pelo OpenSecrets, além de mais de US$ 1 milhão para outros dois comitês alinhados a Trump.
Reunião na Casa Branca e promessa de “melhor preço possível”
A reportagem relata ainda que Addison participou, ao lado de Ben Marshall, chefe da operação da Vitol nos Estados Unidos, de uma reunião de alto perfil na Casa Branca com líderes da indústria, na sexta-feira anterior ao anúncio do acordo. A Vitol teria sido a única empresa com dois executivos de alto escalão no encontro.
No evento, Addison teria dito diretamente ao presidente que a Vitol buscaria obter o melhor resultado possível para Washington:
“A Vitol vai conseguir o melhor preço possível para o petróleo venezuelano para os EUA, para que a influência que o senhor tem sobre os venezuelanos garanta que o senhor consiga o que quer.”
A Vitol afirmou que as doações feitas por Addison ocorreram em caráter privado. Ainda assim, o caso reacende o debate sobre a influência de grandes interesses econômicos nos rumos da política energética e externa dos Estados Unidos.
Casa Branca reage e nega conflito de interesse
Questionada sobre a operação, a Casa Branca respondeu com um discurso agressivo, negando qualquer conflito e destacando o que chama de “feito histórico” do presidente. A porta-voz Taylor Rogers afirmou:
“O presidente Trump sempre faz o que é do melhor interesse do povo americano, como intermediar este histórico acordo de energia com a Venezuela imediatamente após a prisão do narcoterrorista Nicolás Maduro. As tentativas contínuas da mídia de fabricar conflitos de interesse são uma tentativa cansada de distrair do trabalho incrível que só este presidente é capaz de realizar.”
Trafigura também teria comprado petróleo venezuelano
Além da Vitol, a reportagem aponta que a Trafigura, outra gigante global do comércio de energia, também teria comprado US$ 250 milhões em petróleo venezuelano em uma operação semelhante, segundo duas pessoas familiarizadas com os acordos.
O Financial Times lembra que a Trafigura gastou US$ 525 mil em lobby nos EUA em 2024 e 2025, conforme dados do OpenSecrets. Um funcionário do Departamento de Energia afirmou que Vitol e Trafigura foram escolhidas por serem “capazes e dispostas” a executar rapidamente as primeiras transações.
“O Departamento de Energia continuará explorando todas as opções à medida que as vendas continuarem”, disse o representante.
Plano prevê “controle indefinido” do setor de petróleo da Venezuela
A reportagem descreve que a Casa Branca declarou que pretende controlar a indústria de petróleo da Venezuela “indefinidamente”, após a captura do presidente Nicolás Maduro em 3 de janeiro.
O governo dos EUA também teria estabelecido um embargo naval sobre o país caribenho e estaria incentivando empresas ocidentais a investir até US$ 100 bilhões para “reconstruir” infraestrutura e elevar a produção de petróleo venezuelana, numa estratégia que, na prática, reposiciona o país como uma peça central de interesses energéticos e geopolíticos de Washington.
Um funcionário da administração afirmou ainda que a exigência é que a “maioria” do petróleo seja vendida a compradores nos Estados Unidos, embora Vitol e Trafigura não tenham comentado se haverá limitações à revenda do produto no mercado internacional.
EUA dizem ter vendido petróleo 30% mais caro do que Maduro conseguia
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, disse na quinta-feira que o governo norte-americano conseguiu vender o petróleo venezuelano a preços 30% superiores aos obtidos pelo governo de Maduro três semanas antes.
De acordo com o relato, as sanções impostas pelos EUA teriam forçado Caracas a vender petróleo com grandes descontos, especialmente para refinarias menores e privadas na China, muitas vezes classificadas como “teapot refineries”.
Chegada do primeiro carregamento a Curaçao expõe logística do plano
Outro ponto central da operação envolve a logística. O primeiro carregamento de petróleo venezuelano adquirido por Vitol e Trafigura já teria chegado ao terminal de armazenamento de petróleo de Bullen Bay, na ilha caribenha de Curaçao, segundo o primeiro-ministro Gilmar Pisas.
Construído originalmente pela Shell, o terminal tem capacidade para receber superpetroleiros com mais de 1 milhão de barris, algo que a maioria dos portos dos EUA não consegue acomodar plenamente devido a limitações de profundidade e largura dos canais.
Pisas afirmou que Bullen Bay foi designado como um dos hubs de armazenamento e distribuição do petróleo venezuelano e que será utilizado por Vitol e Trafigura nos próximos embarques.
Pressão do setor de petróleo e dinheiro nas eleições
O caso acontece num contexto em que o setor de petróleo e energia foi uma das principais fontes de doações políticas a Trump. A reportagem menciona que, em maio de 2024, durante reunião no resort Mar-a-Lago, o então candidato teria prometido reduzir regulações caso executivos apoiassem sua campanha.
O texto também aponta que a Chevron, única grande petroleira dos EUA com presença estabelecida na Venezuela, gastou US$ 9,2 milhões em lobby e fez US$ 10 milhões em doações de campanha em 2024, principalmente para republicanos. A empresa teria contribuído também para a posse de Trump e negocia uma alteração de licença para ampliar produção e exportações de petróleo venezuelano.
Com novas vendas previstas para os próximos dias e semanas, segundo um funcionário do governo norte-americano citado pelo Financial Times, o plano de comercialização do petróleo venezuelano tende a ampliar tensões geopolíticas e disputas sobre soberania, influência externa e o papel de grandes empresas e doadores no desenho das políticas energéticas dos Estados Unidos.


