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Sara York

Sara Wagner York (também conhecida como Sara Wagner Pimenta Gonçalves Júnior) é bacharel em Jornalismo, doutora em Educação, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. É especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, autora do primeiro trabalho acadêmico sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido em seu mestrado. Pai e avó, é reconhecida como a primeira mulher trans a ancorar no jornalismo brasileiro, pela TV 247

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A chuva das tragédias: de Cláudio Castro, Yuri Moura, a marcha bolsonarista e o raio em Brasília

Sara Yor analisa a judicialização da memória, as tragédias anunciadas e o silenciamento institucional

A chuva das tragédias: de Cláudio Castro, Yuri Moura, a marcha bolsonarista e o raio em Brasília (Foto: Reprodução/YouTube)

Em um país onde tragédias ambientais, obras mal executadas e espetáculos políticos se sucedem sem elaboração pública, a Justiça julga, nesta semana, o deputado estadual Yuri Moura por fiscalizar intervenções precárias em Petrópolis, enquanto, em Brasília, um raio atinge apoiadores reunidos para uma marcha bolsonarista. Entre processos, desastres e encenações, o Brasil segue transformando memória em incômodo - e o esquecimento em política de Estado.

O Brasil não desmorona de uma vez.

Ele se desfaz em parcelas.

Uma encosta mal contida.

Um rio adoecido.

Um prédio implodido.

Uma imagem falsa circulando.

E, entre tudo isso, o esquecimento.

Nesta semana, em pleno recesso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o deputado estadual Yuri Moura será julgado por ter feito aquilo que sua função exige: fiscalizar. Estar ao lado das vítimas. Denunciar uma obra emergencial que, anos depois da tragédia climática de Petrópolis, ainda não garantiu segurança às famílias da Rua Nova.

A acusação partiu do governador Cláudio Castro. O motivo: um vídeo gravado em 2023, no qual Yuri, ao lado dos moradores, chamou a obra de "porca" e denunciou corrupção, atrasos e abandono institucional.

O que está em julgamento, portanto, não é apenas uma fala.

É o direito à memória. É o direito de não aceitar que a reconstrução vire maquiagem.

Sobre a política do esquecimento

A lógica é conhecida. O desastre acontece.

As câmeras chegam. As promessas são feitas.

As obras emergenciais começam. O tempo passa.

A imprensa se afasta. As vítimas permanecem.

E quem insiste em voltar ao local vira incômodo.

Fiscalizar vira sinonimo de afronta.

Lembrar torna-se perturbação.

Denunciar implanta um crime.

O caso da Rua Nova revela isso com precisão, pois é uma obra de mais de R$ 80 milhões, iniciada em 2022, que não resolveu a insegurança geológica. Relatórios técnicos, ações do Ministério Público, vistorias da Defesa Civil e novas intervenções federais confirmam que o risco nunca foi plenamente eliminado.

Mas quem responde judicialmente é justamente quem denunciou.

O país apaga seus próprios rastros

No último domingo, em Brasília, o Torre Palace Hotel foi implodido. Em minutos, virou poeira. O fotojornalista Luis Gustavo Nova registrou tudo em timelapse: a destruição limpa, organizada e protocolar.

Sem ruído, sem memória e sem ritual!

Como se apagar fosse sempre mais fácil que cuidar.

Pouco antes, uma imagem gerada por inteligência artificial circulou mostrando o Teatro Procópio Ferreira sendo demolido. Era falsa. Mas funcionou como ensaio simbólico. Vai nos acostumando à perda.

Vai treinando o nosso olhar para o apagamento.

Mariana, Brumadinho, Petrópolis

O poeta Pedro Paulo Gomes Pereira escreve:

"Dizer esses nomes não é localizar no mapa.

É tocar num ponto em que o mundo cedeu."

Mariana. Brumadinho. Petrópolis.

Não foram acidentes.

Foram escolhas repetidas.

Barragens frágeis. Encostas negligenciadas.

Obras mal feitas. Fiscalizações ignoradas.

A lama, o deslizamento, o colapso - tudo já estava anunciado.

O que falta, quase sempre, é vontade política para impedir.

A judicialização da memória

O julgamento de Yuri Moura, marcado às pressas, durante o recesso, revela algo mais profundo que é a tentativa de disciplinar a lembrança.

Não se processa apenas um parlamentar.

Processa-se a insistência.

Uma insistência em voltar, em ouvir, em registrar, em cobrar.

E principalmente em não deixar passar!

Num país que normaliza tragédias, lembrar é subversivo.

E como sustentar o céu

O poema de Pedro Paulo termina com um aviso:

"Sustentar o céu não é cálculo.

É responsabilidade."

Cuidar de territórios, de vidas, de histórias, não é favor, mas um dever.

Quando obras emergenciais viram soluções permanentes.

Quando vítimas viram números.

Quando denunciantes viram os réus.

Quando imagens falsas substituem os fatos.

Algo essencial já se perdeu, e nós sabemos o que é apesar de muitas vezes não saber nomear…

O que está realmente em julgamento

Nesta semana, a Justiça julga um deputado estadual, enquanto, nas terras distritais, um deputado federal é elevado à condição de santo por meio de uma marcha-cortina de fumaça que tenta encobrir sua ligação com o banco Master.

Mas o país se julga a si mesmo.

Julga:

como trata suas vítimas.

como responde às tragédias.

como protege quem fiscaliza.

como preserva sua memória.

A pergunta não é se Yuri Moura será condenado ou absolvido.

A pergunta é outra:

quantos mundos ainda estamos dispostos a deixar cair para que tudo continue "funcionando"?

E por último, quem fala tanto de Deus, recebe uma resposta:

"Um raio atingiu um grupo reunido próximo ao Memorial JK, na área central de Brasília, durante um temporal, deixando feridos. As pessoas aguardavam a chegada de uma marcha de apoiadores de Bolsonaro e foram encaminhadas aos hospitais de Base e da Asa Norte."

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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