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Sara York

Sara Wagner York é jornalista, psicanalista, PhD em Educação, pós-doutora em Semiótica, licenciada em Letras – Inglês, Pedagogia e Letras Vernáculas. Especialista em Educação, Gênero e Sexualidade, é autora do primeiro trabalho sobre cotas para pessoas trans no Brasil, desenvolvido no mestrado em 2020. Tem um filho, é avó e foi a primeira travesti a ancorar no jornalismo brasileiro, pela Brasil 247, tornando-se referência nacional nas discussões sobre mídia, educação e direitos humanos. É imortal da Academia de Letras e Artes do Estado do Rio de Janeiro.

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"A cisheteronormatividade cafona e o medo de quem sempre se acreditou dono do poder"

Discurso de Erika Hilton marca a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, a maior manifestação LGBTQIAPN+ do mundo

Erika Hilton na Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo (Foto: Reprodução/Redes Sociais)
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Algumas frases que funcionam como síntese de uma época foram protagonizadas pelos expulsos do "paraíso", já dizia João Silvério Trevisan em Devassos no Paraíso. Durante a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, a deputada federal Erika Hilton afirmou algo que ajuda a compreender uma das maiores tensões da política brasileira contemporânea. Segundo ela, quando a população LGBT+ chega aos espaços de poder, não chega para brincar. A ironia ao vermos LGBTQIAPN+, negros, PcDs e outras dissidências segura marca o vazio entre aqueles que se veem melhores que seus pares.

A afirmação parece simples, mas toca numa ferida profunda da sociedade brasileira. Durante séculos, determinados grupos ocuparam o Estado, a política, os meios de comunicação, as universidades e os espaços de decisão como se fossem extensões naturais de seus próprios corpos. Homens brancos, cisgêneros, heterossexuais e herdeiros das estruturas coloniais aprenderam a confundir privilégio com mérito e presença histórica com direito divino à permanência. Nem Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, conseguiu tocar tais corações.

Talvez por isso a chegada de novos sujeitos à cena pública produza tanto desconforto. É a máxima de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, em plena ação. A filha da empregada não pode ser doutora, psicanalista, juíza… Nada! Dizem, aos sussurros entre pares, aqueles que não suportam tal confronto.

Não porque essas presenças sejam novidade. Travestis, pessoas negras, mulheres, indígenas, gays, lésbicas e pessoas com deficiência sempre estiveram aqui. O que muda é que agora ocupam o microfone, assinam projetos de lei, presidem comissões, formulam políticas públicas e disputam os sentidos da própria nação. E não dependem deles!

Como nunca deram nada, esses "deuses" não têm moedas a cobrar.

Quando Erika Hilton lembra que não é fácil ser a primeira travesti a presidir uma comissão dedicada aos direitos das mulheres, ela não está apenas falando de sua trajetória pessoal. Está evidenciando a dimensão estrutural de uma sociedade que ainda reage com espanto sempre que corpos historicamente expulsos dos espaços institucionais passam a conduzi-los. Seu discurso na Avenida Paulista transitou entre a celebração e a denúncia. Celebração porque existir continua sendo um ato de alegria coletiva. Denúncia porque a violência LGBTfóbica permanece organizando silenciosamente a distribuição de oportunidades, reconhecimento e cidadania. Vale lembrar que, no ano em que os financiamentos diminuíram 60%, segundo o próprio coordenador geral do evento, Nelson Matias, a 30ª Parada do Orgulho LGBTI+ levou seu grande público às ruas. Estima-se que mais de 45 mil pessoas estiveram presentes este ano.

Há uma força simbólica importante quando uma travesti negra conecta a história do movimento LGBT+ à luta da classe trabalhadora. Ao reivindicar a mobilização pelo fim da escala 6x1 como uma das mais relevantes pautas trabalhistas recentes, Erika desloca uma narrativa muito antiga. Durante décadas, travestis foram empurradas para a informalidade, para a marginalização econômica e para a exclusão dos direitos básicos. Agora, uma travesti aparece não como destinatária da política social, mas como formuladora de um projeto de transformação capaz de beneficiar milhões de trabalhadores.

É justamente aí que reside o incômodo.

A cisheteronormatividade não se sustenta apenas por meio da violência explícita. Ela também se reproduz por meio de uma estética do poder. Uma espécie de imaginação coletiva que define quem parece presidente, quem parece deputado, quem parece intelectual, quem parece autoridade. É essa lógica que Erika confronta ao chamar de cafona, escrota e canalha uma ordem social que insiste em transformar diferenças em hierarquias.

A palavra cafona, nesse contexto, merece atenção, pois refere-se ao anacronismo de uma elite que continua presa a valores envelhecidos enquanto o país real já se transformou. Um Brasil múltiplo, negro, periférico, indígena, LGBT+, feminino e popular que não aceita mais ser tratado como exceção dentro da própria casa.

Por isso a frase "a rua é nossa e nós não voltaremos para o armário" possui um alcance que ultrapassa a comunidade LGBT+. Ela fala sobre a memória. Há trinta anos corpos dissidentes ocupam a Avenida Paulista reivindicando o direito de existir. A cada ano, a tentativa de empurrá-los novamente para a invisibilidade torna-se mais inviável.

Existe também uma dimensão pedagógica nesse processo. A rua convoca e a urna confirma. O espaço público produz consciência coletiva. A política institucional transforma essa consciência em disputa concreta por orçamento, legislação e direitos.

Quando Erika afirma que o Brasil também é LGBT+, ela não está reivindicando um lugar à mesa. Está questionando quem desenhou a mesa, quem escolheu os convidados e quem decidiu, durante tanto tempo, quem poderia falar em nome do país.

Talvez seja esse o verdadeiro sentido de sua fala: não se trata apenas de inclusão, trata-se de reescrever a narrativa nacional a partir daqueles que sobreviveram ao esforço permanente de apagamento.

E quando essas pessoas chegam lá, de fato, elas não chegam para brincar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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