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Bepe Damasco

Jornalista, editor do Blog do Bepe

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A complicada equação eleitoral de São Paulo para a candidatura de Lula

Repetir a fórmula Haddad candidato ao governo seria o caminho natural para o PT. O problema é que o ministro da Fazenda resiste em ir para o sacrifício

Fernando Haddad, Lula e Geraldo Alckmin (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Muito se tem falado sobre o impacto do ataque terrorista dos Estados Unidos à Venezuela, que culminou com o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, nas eleições brasileiras deste ano. Claro que de Trump pode se esperar toda sorte de pressões, ameaças, sujeiras e baixarias para influir no resultado eleitoral do nosso país. Contudo, estou entre aqueles que acham que Lula pode sair ganhando ao liderar uma mobilização popular em defesa da soberania do Brasil e da América Latina, do diálogo e da paz. Mas isso é assunto para outro artigo.

Por ora, trato do intrincado nó a ser desatado pelo PT e aliados em São Paulo. Os cerca de 45% dos votos conquistados por Fernando Haddad para o governo de São Paulo nas eleições de 2022 foram decisivos para ajudar Lula a vencer Bolsonaro por pequena margem. Lula obteve no segundo turno praticamente o mesmo percentual de votos de Haddad no estado, atingindo 44,76%, com 11.519.882 votos.

Repetir a fórmula Haddad candidato ao governo seria o caminho natural para o PT. O problema é que o ministro da Fazenda resiste em ir para o sacrifício mais uma vez, já que é inegável o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição.

Para além de não demonstrar disposição de disputar o governo de São Paulo, Haddad vem afirmando textualmente que não pretende ser candidato a nada este ano e que almeja contribuir com a candidatura de Lula ao quarto mandato ocupando um lugar na coordenação da campanha. Nem mesmo o Senado, cargo para o qual concorreria com grandes chances de vitória, uma vez que duas vagas estarão em disputa, parece seduzir Haddad.

Visto por muitos como o quadro político do partido mais habilitado a pegar o bastão passado por Lula, assim que o presidente cumprir mais um mandato e pendurar as chuteiras das refregas eleitorais, Haddad parece mirar a Casa Civil em 2027 para, a partir da coordenação geral do governo, pavimentar o caminho para disputar a Presidência em 2030.

Lula e a direção do PT têm razão de não querer abrir mão de um quadro da estatura de Haddad, que, aliás, colecionou entregas importantes para o país à frente da Fazenda, como o arcabouço fiscal (antes mesmo de tomar posse), a reforma tributária (um tabu que se arrastava no Congresso Nacional há 30 anos), a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, a taxação das bets, das fintechs, o enquadramento dos devedores contumazes e várias outras medidas pautadas na justiça tributária, além do controle da inflação e do índice de desemprego no menor patamar da história.

O ministro tem seus motivos para se poupar de mais uma empreitada eleitoral. Vamos lembrar que ele não hesitou em atender o pedido de Lula, que estava preso, e assumiu a candidatura presidencial em 2018, tendo ótimo desempenho em apenas 21 dias de campanha no primeiro turno. Estou convencido de que Haddad teria sido eleito presidente da República, não fosse o episódio da facada, que permitiu a Bolsonaro, com a contribuição da imprensa, apostar todas as fichas na sua vitimização. Sem falar que caiu no seu colo a desculpa perfeita para fugir dos debates.

Em 2022, a candidatura de Haddad ao governo de São Paulo teve o objetivo central de dar um palanque forte para Lula no estado que concentra o maior colégio eleitoral do país. Missão cumprida.

Hoje, o impasse se torna ainda maior quando se examina a possibilidade de o vice-presidente Geraldo Alckmin assumir, em nome do campo governista, a candidatura ao governo de São Paulo, estado já governado por ele em diversos mandatos. Capaz de dialogar com o eleitor de centro e até de direita, além de manter prestígio no interior conservador do estado, o vice seria boa alternativa.

Mas, segundo interlocutores citados pela imprensa, Alckmin não aceita nem conversar sobre o assunto, pois considera encerrada sua carreira no Palácio dos Bandeirantes. É candidatíssimo à reeleição para a vice-presidência, contando com o aval de Lula, satisfeito com sua performance.

Lançar um nome de menos peso, que seria a saída sem Haddad e Alckmin, é uma opção vista como temerária pelo PT, na medida em que pode abrir espaço para Tarcísio de Freitas se fortalecer ainda mais, a ponto de turbinar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro no estado.

Como se vê, todo mundo tem suas razões no debate sobre São Paulo. O papel de Lula será essencial nas negociações para descascar este abacaxi.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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