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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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A direita testa a arma do escândalo por associação contra Lula

Líder nas pesquisas, presidente vira alvo de uma operação clássica de desgaste: não é preciso prova — basta suspeita, ruído e manchetes em série

Brasília (DF) - 17/11/2025 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As pesquisas divulgadas nesta terça (13) e quarta-feira (14) confirmaram Lula na liderança e, nos cenários testados, como favorito à reeleição nas eleições presidenciais de outubro. É justamente por isso que a direita e a extrema direita acionam o manual da guerra política: produzir desgaste contínuo por “associação”, insinuando ligações indiretas e empilhando suspeitas até transformar ruído em narrativa de escândalo. A matéria da CNN Brasil sobre o “caso Master” deve ser lida nesse registro: menos pelo que comprova juridicamente e mais pelo potencial de contaminação eleitoral que pode gerar em ano de disputa.

Lula lidera — e a engrenagem do desgaste entra em ação

O calendário virou, a eleição chegou, e os números já deram o primeiro recado: Lula começa 2026 como líder em intenção de voto e, nas projeções, permanece como provável reeleito, apesar da oposição tentar vender o contrário. As pesquisas divulgadas em 13 e 14 de janeiro reafirmam esse quadro e recolocam o presidente como o eixo central do pleito.

É aqui que começa o jogo real. Quando um presidente lidera e aparece como favorito, o objetivo do campo adversário passa a ser menos convencer e mais contaminar — desgastar por gotejamento, dia após dia, até produzir um ambiente de cansaço, desconfiança e descrença. O método é antigo, mas a tecnologia multiplicou sua potência: manchetes em série, redes sociais em modo enxame, cortes “cirúrgicos” e vazamentos seletivos.

A matéria da CNN e a técnica do “escândalo por associação”

Foi nesse contexto que a CNN Brasil publicou “O nome que preocupa o Planalto no caso Master”, apontando Augusto Ferreira Lima, o “Guga Lima”, como peça sensível por ter sido ex-sócio de Daniel Vorcaro e, segundo a reportagem, ter mantido relação com o núcleo baiano antes mesmo da aproximação de Vorcaro com o Centrão.

O detalhe não é pequeno: a CNN afirma que fontes da investigação veem nele “potencial” para ligar o caso ao coração do governo. Repare: a palavra é “potencial”. Não é prova, não é sentença, não é documento — é capacidade de narrativa. Em ano eleitoral, esse é o ponto decisivo. A direita não precisa necessariamente vencer no terreno jurídico. Ela precisa vencer no terreno simbólico: transformar relações institucionais em suspeitas permanentes, empilhar conexões e repetir “ligações” até que a soma do ruído pareça evidência.

Jaques Wagner, Rui Costa e o esforço de puxar o PT para dentro do caso

A reportagem cita que Jaques Wagner, hoje líder do governo Lula no Senado, comandava a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia em 2018, durante o governo de Rui Costa, atual ministro da Casa Civil. Segundo a CNN, Guga Lima teria vencido uma licitação envolvendo a antiga Ebal e desenvolvido o CredCesta, produto voltado a servidor público, num contexto em que o empresário se aproximou da estrutura baiana.

A própria matéria registra uma nota relevante: a assessoria de Wagner sustenta que o contato se deu no âmbito institucional, ligado a processo de desestatização do Supermercado Cesta do Povo, com proposta e arremate por licitação. Em outras palavras: há um fato institucional — e há o esforço de convertê-lo em narrativa de contaminação política.

O ponto central: o “caso” vira arma porque Lula lidera

Se Lula estivesse fraco, esse tipo de pauta não seria prioridade. Pautas assim ganham tração quando o favorito precisa ser derrubado não por debate programático, mas por desgaste moral. O mecanismo é conhecido:

Primeiro, cria-se o elo: “ex-sócio”, “ligado”, “teve relação”, “circulou”.

Depois, sugere-se o salto: “pode ligar ao coração do governo”.

Em seguida, abre-se a temporada de manchetes: repercussão, bastidores, “fontes”, versões, insinuações.

Por fim, o eleitor médio absorve só o ruído, não os detalhes.

É o velho método da fumaça suficiente para parecer incêndio. Em um país onde o noticiário e as redes sociais operam com lógica de choque e velocidade, basta um nome virar “o que preocupa o Planalto” para a máquina política adversária produzir o resto: slogans, cortes, posts, vídeos e suspeitas repetidas.

O depoimento na PF: a próxima janela de pressão

A CNN informa que Guga Lima prestará depoimento à Polícia Federal no fim de janeiro. Aqui está o principal gatilho de crise — não pelo que necessariamente exista, mas pelo risco de vazamentos seletivos e frases descontextualizadas ganharem vida própria. Em ano eleitoral, o que derruba reputação muitas vezes não é o fato completo: é o recorte.

A própria reportagem, porém, aponta uma contradição importante: há quem diga que ele não faria delação porque “não teria o que delatar”, e a linha dele seria se desvincular do caso, afirmando que saiu da sociedade em maio de 2024. Isso muda a fotografia: não é “uma bomba inevitável”, mas uma peça disputada na arena da narrativa.

O jogo maior: direita tradicional e extrema direita se unificam no ataque

A eleição de outubro tende a ser, mais uma vez, o choque de dois projetos: de um lado, um governo de continuidade popular, com Lula e a defesa da soberania; de outro, a tentativa de retorno de um bloco reacionário, mais agressivo, mais autoritário e mais subordinado aos interesses do capital internacional e ao roteiro global do trumpismo.

Quando a direita não consegue encostar nos números, tenta encostar no clima. E o clima se produz com pauta moral, suspeita insinuada e repetição de conexões indiretas. É assim que se prepara uma eleição sem debate: transformando o país em um tribunal de boatos. Não se trata de apurar, mas de contaminar. Não se trata de esclarecer, mas de desgastar.

O que é fato — e o que é operação

É preciso dizer com clareza, para não cair no teatro:

Fato, até aqui, é que existe um empresário citado por ter sido ex-sócio de Vorcaro e que teve relações institucionais na Bahia, num contexto que a própria reportagem descreve como formal e com licitação, segundo nota de Jaques Wagner.

Operação política, por sua vez, é tentar vender isso como ponte direta para Lula sem que exista, ao menos no que foi apresentado, prova documental que sustente tal salto.

Em um pleito normal, isso seria ruído. Em ano eleitoral, isso vira munição.

Outubro será decidido entre projeto e sabotagem

As pesquisas de janeiro mantêm Lula no centro e na dianteira. E é justamente por isso que a direita inaugura 2026 tentando empurrar o país para a política de lama. O Brasil não vai escolher apenas um presidente. Vai escolher entre um governo que, com seus limites e contradições, representa o campo popular

e a reconstrução democrática, ou a volta de um bloco autoritário que já demonstrou — no Brasil e no mundo — que só sabe governar com guerra cultural, ódio e desinformação.

A notícia da CNN, nesse contexto, não é apenas uma reportagem. Ela entra como peça do tabuleiro. E o tabuleiro já está montado: minar Lula por associação porque, nas urnas, ele continua sendo o favorito.

A eleição de outubro não será apenas de propostas. Será de resistência.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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