O império sem disfarce
Trump, o delírio imperial e o projeto de poder que atravessa o mundo, e chega às urnas no Brasil
Donald Trump fala como um imperador, age como um senhor da guerra e se apresenta como se fosse dono do mundo. À primeira vista, parece delírio. Mas, quando observado à luz da geopolítica contemporânea, seu comportamento revela a forma política assumida por um império em declínio que já não consegue liderar pelo consenso e passa a governar pela coerção aberta.
O imperador que diz em voz alta o que o império sempre fez - Donald Trump não governa — e nunca governou — como um presidente liberal do pós-guerra. Ele atua como um soberano tardio, personalista, agressivo e hierárquico. Seu discurso não busca persuadir, mas intimidar. Não constrói consensos; exige submissão. Essa postura, frequentemente tratada como desvio psicológico ou delírio individual, é, na realidade, funcional a um sistema imperial que já não consegue sustentar sua hegemonia por meios simbólicos.
Durante décadas, os Estados Unidos exerceram poder global por meio de instituições multilaterais, tratados, organismos internacionais e uma retórica civilizatória que apresentava a força como exceção. Golpes, guerras, bloqueios e sanções sempre existiram, mas eram narrados como desvios necessários em nome da liberdade. Trump rompe com essa encenação. Ele diz em voz alta aquilo que antes era dito em linguagem técnica, jurídica ou diplomática.
Ao ameaçar aliados, humilhar chefes de Estado, sugerir anexações territoriais ou tratar países como ativos negociáveis, Trump não delira. Ele atualiza a linguagem do império para um mundo em que a hegemonia norte-americana já não é aceita espontaneamente. O imperador não é um erro do sistema. É uma exigência histórica quando o consenso entra em colapso.
Da aliança à vassalagem: a coerção intra-ocidental - O trumpismo inaugura uma ruptura inédita no interior do próprio campo ocidental. Canadá, Dinamarca e União Europeia deixam de ser tratados como parceiros estratégicos e passam a ser pressionados como subordinados. A Groenlândia, território autônomo sob soberania dinamarquesa, tornou-se símbolo dessa mutação. Quando Trump sugeriu “comprar” a ilha, o episódio foi tratado como folclore, mas a mensagem foi clara: para o império em crise, territórios estratégicos não são nações; são ativos geopolíticos.
A União Europeia surge como obstáculo estrutural. Grande demais para ser ignorada, fraca demais para se impor militarmente e dependente demais da OTAN para resistir à coerção. O trumpismo substitui a diplomacia pelo constrangimento permanente, pela chantagem econômica e pela humilhação política. Não se trata de guerra formal, mas de coerção contínua.
O Ártico: quando o centro do mundo muda de lugar - A obsessão de Trump com o Canadá e a Groenlândia só se explica plenamente quando se observa o Ártico. O degelo acelerado transformou a região em um dos principais eixos da disputa global do século XXI. Novas rotas marítimas, vastas reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos, além de vantagens militares absolutas, reposicionaram o Ártico no tabuleiro geopolítico.
Nesse cenário, os Estados Unidos chegaram atrasados. A Rússia consolidou presença militar e logística, controla a Rota do Mar do Norte e dispõe da maior frota de quebra-gelos do mundo. A China, mesmo sem tradição ártica, investe agressivamente na região como parte de sua estratégia de longo prazo.
Trump reage a esse atraso com intimidação, pressão territorial e ameaça aberta. A Groenlândia surge como peça-chave; o Canadá, como corredor e obstáculo. Não se trata de preparar uma guerra imediata, mas de reposicionamento estratégico bruto, fora das regras multilaterais. Quando o império já não consegue organizar o mundo, ele tenta paralisá-lo sob ameaça.
O senhor da guerra sem trono - Donald Trump não pode se reeleger, segundo a legislação eleitoral dos Estados Unidos. Mas isso não enfraquece o fenômeno. Ao contrário, o esclarece. O trumpismo não depende da presença formal de Trump no poder. Ele já cumpriu sua função histórica: romper o verniz liberal, normalizar a coerção aberta e deslocar o eixo da política para a guerra cultural e a intimidação permanente.
O trumpismo tornou-se método, linguagem e doutrina informal. Opera por redes políticas, partidos capturados, alianças internacionais e plataformas digitais. É um regime sem Estado, um poder que prescinde do cargo. O senhor da guerra contemporâneo não governa territórios. Ele mantém todos sob cálculo permanente de risco.
Do Ártico à América Latina: o espelho brasileiro - É nesse ponto que o império sem disfarce encontra seu reflexo mais nítido no Brasil. Aqui, a coerção não se apresenta com frotas no horizonte, mas com guerra cultural, desinformação, pressão econômica e alianças internas com a extrema-direita. O país não é visto como aliado pleno, mas como território funcional: mercado, fornecedor de commodities e fronteira geopolítica a ser contida.
Em outubro, o Brasil irá às urnas para uma eleição presidencial decisiva. Não se trata de uma disputa convencional. Estarão em jogo dois projetos históricos antagônicos. De um lado, o projeto trumpista, mesmo sem Trump no poder nos Estados Unidos: autoritário, subordinado, hostil à soberania nacional e disposto a corroer a democracia para garantir alinhamento externo. De outro, o projeto lulista, liderado por Lula, que pode se reeleger e representa soberania, política externa ativa, integração regional e democracia como valor estratégico.
Não se vota em Trump. Vota-se a favor ou contra o trumpismo.
Quando o império abandona o disfarce: uma escolha “muito difícil” - Trump pode sair da cena institucional. O trumpismo, não. Ele já cumpriu sua função histórica: demonstrar que o império, quando ameaçado, abandona o consenso, relativiza a democracia e governa pela força. Demonstrar que aliados são vassalos, soberania é obstáculo e a política vira guerra permanente.
No Brasil, essa lógica chega às urnas em outubro. Não se trata de uma eleição qualquer. Trata-se de uma decisão histórica sobre o lugar do país no mundo.
Às vésperas da eleição que colocou Jair Bolsonaro no poder, em 2018, o jornal O Estado de S. Paulo publicou um editorial célebre e infame, intitulado “Uma escolha muito difícil”, para justificar o apoio a um candidato autoritário, antipolítico e hostil à democracia, sob o pretexto de evitar o campo popular representado pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
A história mostrou o que aquela “dificuldade” produziu: destruição institucional, submissão externa, ataque às liberdades, flerte com o golpismo e uma crise democrática sem precedentes.
Agora, a escolha volta a se apresentar — mas, desta vez, sem qualquer disfarce.
De um lado, o projeto trumpista: autoritário, subordinado, violento na forma e colonial no conteúdo, disposto a corroer a democracia brasileira para alinhar o país a um império em declínio.
Do outro, o projeto lulista: soberania, reconstrução democrática, política externa ativa, integração regional e defesa do Brasil como nação autônoma em um mundo multipolar.
Não há nada de “difícil” nessa escolha.
Difícil foi fingir neutralidade diante do autoritarismo.
Difícil foi relativizar a democracia em nome do mercado.
Difícil foi chamar barbárie de pragmatismo.
Agora, a escolha é clara.
Quando o império abandona o disfarce, a ambiguidade deixa de ser opção.
E a história não absolve quem, mais uma vez, fingir não entender o que está em jogo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




