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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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A engenharia da submissão: como a mídia legitima a tutela dos EUA sobre o Brasil

A mídia brasileira traduz e legitima a doutrina de poder dos Estados Unidos, preparando a opinião pública para aceitar mecanismos de controle externo

Bandeiras do Brasil e dos Estados Unidos (Foto: Embaixada dos EUA/Divulgação)

O Brasil está sendo empurrado para dentro de uma armadilha semântica e política cuja gravidade ainda não foi plenamente percebida. Sob o disfarce da segurança pública, uma parte decisiva da mídia brasileira começou a traduzir para o debate nacional um vocabulário que não nasce na experiência histórica, jurídica ou institucional do país, mas na doutrina de poder dos Estados Unidos. O que aparece na superfície como cobertura, comentário ou debate técnico é, em um plano mais profundo, a preparação cognitiva da opinião pública para aceitar como razoável aquilo que deveria ser identificado imediatamente como ameaça à soberania: a tutela estrangeira sobre os critérios, as categorias e os limites da própria ordem interna brasileira.

É assim que operações de poder funcionam em sociedades complexas. Elas não chegam, em primeiro lugar, com tanques, ultimatos ou ocupações formais. Elas chegam pela linguagem. Chegam quando uma categoria importada começa a circular como se fosse neutra. Chegam quando um enquadramento geopolítico externo passa a ser repetido domesticamente com a aparência de bom senso. Chegam quando a imprensa abandona a obrigação de interrogar a origem, a função e o interesse inscrito nas palavras que difunde e passa a atuar como correia de transmissão de uma gramática estratégica que reorganiza o campo do pensável. Nesse estágio, a disputa já não é apenas informativa. Ela é cognitiva. O que está em jogo não é só o que o país sabe, mas a forma como ele aprende a perceber a si mesmo.

A operação em curso é especialmente perigosa porque desloca o centro real da discussão. Em vez de perguntar por que uma doutrina de segurança produzida em Washington está sendo adaptada ao ambiente brasileiro, o debate é empurrado para uma falsa controvérsia sobre nomenclatura, eficiência repressiva e excepcionalidade penal. Sai de cena a soberania, entra em cena a tipificação. Sai de cena a geopolítica, entra em cena o tecnicismo policial. Sai de cena a história das intervenções e coerções sobre a América Latina, entra em cena a fantasia de que instrumentos de poder imperial podem ser recebidos como simples ferramentas de gestão do crime. É nesse truque que a mídia corporativa revela sua função mais profunda: não a de informar a sociedade sobre o risco, mas a de reorganizar o risco sob uma forma aceitável, administrável e, no limite, desejável.

Não se trata, portanto, de um erro pontual de cobertura nem de uma sucessão inocente de escolhas editoriais. Trata-se de um alinhamento estrutural. A mídia mainstream não precisa defender explicitamente a ingerência para ajudar a construí-la. Basta que ela torne familiar o vocabulário da exceção, respeitável a lógica da tutela e discutível aquilo que, em um país minimamente consciente de sua posição no sistema internacional, deveria ser repelido sem hesitação. É assim que a hegemonia opera no século XXI: estreitando o horizonte do possível, naturalizando a linguagem do dominador e convertendo submissão em realismo. Quando isso acontece, a guerra híbrida já avançou muito antes de qualquer medida formal. Ela já venceu uma parte decisiva da batalha, porque conseguiu instalar na mente coletiva a ideia de que perder soberania pode ser apenas uma questão de terminologia.

O mecanismo é preciso e reconhecível para quem observa com atenção a dinâmica da comunicação política em contextos de disputa geopolítica. Ele começa com a importação de uma categoria externa, deslocada de seu contexto original e inserida no debate nacional como se fosse uma resposta técnica a um problema interno. No caso brasileiro, essa categoria é o terrorismo aplicado a organizações criminosas, um enquadramento que não nasce da tradição jurídica do país, mas da doutrina de segurança dos Estados Unidos, historicamente utilizada para ampliar sua capacidade de intervenção, sanção e controle sobre territórios considerados estratégicos. Ao entrar no circuito informacional brasileiro sem o devido questionamento de sua origem e função, essa categoria deixa de ser percebida como instrumento de poder e passa a circular como conceito neutro, pronto para ser apropriado.

O segundo movimento é a tradução. A mídia não apenas repercute essa categoria, ela a adapta, a simplifica e a distribui de forma inteligível para o público doméstico. Esse processo não é trivial. Traduzir, nesse contexto, não é apenas converter palavras de um idioma para outro, mas converter uma lógica geopolítica em linguagem cotidiana. Quando isso ocorre, a doutrina externa deixa de ser percebida como estrangeira e passa a ser assimilada como parte legítima do repertório nacional de soluções. O que era imposição potencial se torna sugestão razoável. O que era estratégia de poder se apresenta como bom senso.

Em seguida vem o deslocamento do eixo do debate, que é o ponto mais decisivo da operação. Em vez de se discutir a legitimidade de um país estrangeiro influenciar ou determinar os critérios de classificação de ameaças internas no Brasil, o foco é redirecionado para uma discussão restrita sobre eficácia no combate ao crime. A pergunta deixa de ser política e passa a ser técnica. Deixa-se de questionar quem define as regras e passa-se a discutir apenas como aplicá-las. Nesse deslocamento, o conflito real é apagado e substituído por uma controvérsia administrável, que não ameaça a estrutura de poder em jogo.

O quarto movimento é a neutralização do impacto. Ao apresentar a proposta como uma possibilidade em análise, cercada de opiniões divergentes e argumentos jurídicos, a mídia reduz a percepção de ruptura que ela carrega. O que deveria gerar reação imediata é convertido em mais um tema de debate entre especialistas. A excepcionalidade é diluída na rotina. A gravidade é absorvida pela linguagem moderada. Esse é o momento em que o impensável começa a perder sua força de rejeição e passa a ocupar um espaço legítimo no imaginário coletivo.

Por fim, a repetição consolida o processo. À medida que esse enquadramento é reiterado em diferentes veículos, programas e análises, ele deixa de ser novidade e passa a integrar o horizonte do possível. Não é necessário que haja concordância plena. Basta que haja familiaridade. A aceitação social não nasce da adesão imediata, mas da exposição contínua. Quando uma ideia se torna recorrente, ela deixa de parecer externa, estranha ou ameaçadora. Ela se torna parte do cenário. E, uma vez incorporada ao cenário, pode ser ativada politicamente com muito menos resistência.

Esse conjunto de movimentos não é aleatório. Ele corresponde a uma forma consolidada de operação em ambientes de guerra híbrida, em que a disputa central não ocorre apenas no plano militar ou econômico, mas na capacidade de moldar percepções, redefinir categorias e reorganizar os limites do aceitável. O que está em jogo não é apenas como o Brasil combate o crime, mas quem define os termos desse combate e quais interesses são atendidos quando esses termos são adotados.

A prova desse mecanismo aparece com nitidez quando se observa como a cobertura se organiza na prática. Não é uma questão de uma matéria isolada, mas de um padrão. Grandes veículos passaram a tratar a hipótese de classificar facções brasileiras como organizações terroristas como um tema legítimo de debate, colocando lado a lado opiniões favoráveis e contrárias, como se estivesse em jogo apenas uma divergência técnica. Ao fazer isso, deslocam o ponto de partida da discussão. A questão deixa de ser a legitimidade de uma doutrina estrangeira incidir sobre o Brasil e passa a ser se essa doutrina é eficaz ou não no combate ao crime. Esse enquadramento, aparentemente equilibrado, já contém uma escolha fundamental. Ele aceita como dado aquilo que deveria ser problematizado desde o início.

Esse padrão se repete na forma como são apresentados os instrumentos associados a essa classificação. Sanções financeiras, bloqueio de ativos, cooperação internacional ampliada e atuação sobre fluxos globais de capital aparecem como mecanismos técnicos, quase administrativos, capazes de fortalecer o enfrentamento ao narcotráfico. O que não se explicita com a mesma ênfase é que esses instrumentos fazem parte de uma arquitetura de poder construída pelos Estados Unidos ao longo de décadas para exercer controle sobre o sistema internacional. O domínio sobre circuitos financeiros, sistemas de pagamento e estruturas de regulação não é neutro. Ele permite impor restrições, condicionar políticas e pressionar governos. Ao tratar esses instrumentos como ferramentas operacionais, a mídia esvazia seu caráter geopolítico e os apresenta como soluções universais.

Há também um elemento recorrente de legitimação indireta por meio da comparação internacional. Quando se menciona que outros países da região já adotaram classificações semelhantes ou discutem medidas nessa direção, cria-se a sensação de que o Brasil está atrasado ou fora de um consenso emergente. Esse recurso é poderoso porque desloca a decisão do campo da soberania para o campo da conformidade. Em vez de perguntar se a medida é adequada à realidade brasileira, sugere-se que ela é inevitável diante de um movimento global. A pressão deixa de vir de fora e passa a ser percebida como parte de um processo ao qual o país deve se ajustar.

Outro aspecto revelador é a forma como as vozes críticas são enquadradas. Quando autoridades ou especialistas alertam para os riscos de ingerência externa, de ampliação indevida de competências ou de distorção do sistema jurídico, essas posições são frequentemente apresentadas como cautela institucional ou preocupação técnica. Raramente são desenvolvidas como denúncia de uma estratégia de poder mais ampla. O resultado é que a crítica perde densidade política e aparece como uma opinião entre outras, não como um alerta sobre um processo estrutural em curso. Isso contribui para manter o debate dentro de limites seguros, onde a discussão não ameaça o enquadramento dominante.

Esse conjunto de escolhas editoriais produz um efeito cumulativo. A cada nova matéria, a hipótese de enquadrar facções como terrorismo ganha mais espaço, mais familiaridade e mais legitimidade. O público é exposto a essa ideia em diferentes formatos, com diferentes fontes e sob diferentes ângulos, mas sempre dentro de um mesmo campo semântico. Com o tempo, o que era uma proposta externa passa a ser percebido como uma possibilidade interna. Esse é o ponto em que a operação se consolida. Não porque haja consenso, mas porque a ideia já não encontra a resistência automática que encontraria em outro contexto.

Quando se observa esse processo em conjunto, o papel da mídia deixa de ser apenas o de informar sobre uma agenda em discussão e passa a ser o de organizar o terreno em que essa agenda será decidida. Ao definir o que é relevante, como deve ser interpretado e quais são os limites do debate, ela atua diretamente na formação das condições de aceitabilidade política. Nesse sentido, não se trata apenas de cobertura. Trata-se de mediação ativa de um processo que envolve interesses que ultrapassam o campo interno e se conectam a uma disputa mais ampla sobre quem define as regras e os instrumentos de poder no Brasil.

Essa dinâmica ganha contornos ainda mais claros quando se observa quem, no interior do próprio país, passa a operar como vetor dessa agenda. Não é coincidência que a incorporação desse vocabulário e dessa lógica de enquadramento encontre eco justamente nos segmentos políticos mais alinhados ao eixo de poder norte-americano. A defesa da classificação de facções como terrorismo, a valorização de instrumentos de coerção externa e a naturalização da intervenção indireta aparecem com mais força em setores da direita brasileira que, nos últimos anos, consolidaram uma relação orgânica com o trumpismo, com think tanks internacionais e com redes transnacionais de poder que operam a partir do Atlântico Norte.

Esse alinhamento não se expressa apenas em declarações pontuais. Ele se materializa em iniciativas concretas, em articulações institucionais e na forma como determinados atores públicos passam a enquadrar o próprio país. Quando figuras políticas defendem abertamente a adoção de categorias e instrumentos que ampliam a capacidade de atuação de potências estrangeiras sobre o território brasileiro, o que está em jogo não é apenas uma posição ideológica. É uma concepção de inserção internacional que aceita, e em certos casos promove, a redução da autonomia nacional em nome de uma suposta eficiência no enfrentamento de problemas internos.

Nesse contexto, a mídia desempenha um papel decisivo ao conferir legitimidade a essas posições. Ao tratar essas falas como parte normal do debate público, sem submetê-las a um escrutínio proporcional à sua gravidade, contribui para diluir seu impacto e para integrá-las ao espectro do aceitável. O que, em outro cenário, seria percebido como uma defesa explícita de ingerência externa passa a ser apresentado como mais uma opinião no campo da segurança pública. Essa normalização é fundamental para que ideias que implicam perda de soberania possam circular sem gerar reação social proporcional.

A convergência entre esses atores políticos e o enquadramento midiático não precisa ser coordenada de forma explícita para produzir efeitos. Ela se dá por afinidade estrutural. Ambos operam dentro de um mesmo horizonte de referências, compartilham uma leitura semelhante sobre o papel do Brasil no sistema internacional e reconhecem, ainda que de formas distintas, a centralidade dos Estados Unidos na definição de padrões e normas. Essa convergência cria um ambiente em que propostas alinhadas a interesses externos encontram menos resistência e mais canais de difusão.

Do ponto de vista do materialismo histórico, esse movimento não pode ser dissociado das frações de classe que se beneficiam ou acreditam se beneficiar desse tipo de alinhamento. Setores das elites econômicas e políticas brasileiras, historicamente vinculados a circuitos internacionais de capital, tecnologia e influência, tendem a ver na aproximação com o poder norte-americano uma forma de garantir acesso, proteção ou vantagem competitiva. Mesmo quando isso implica aceitar assimetrias profundas, a expectativa de ganho imediato ou de estabilidade relativa pode prevalecer sobre considerações de longo prazo relacionadas à autonomia nacional.

É nesse ponto que a operação atinge sua dimensão mais sensível. A combinação entre uma mídia que organiza o debate dentro de limites compatíveis com essa agenda e atores políticos dispostos a promovê-la cria as condições para que uma transformação estrutural ocorra sem ruptura aparente. Não há necessidade de imposição direta quando há internalização. Não há necessidade de confronto aberto quando há adesão progressiva. A tutela se constrói como possibilidade antes de se tornar realidade.

O resultado é um cenário em que decisões que afetam profundamente a soberania do país podem ser tomadas dentro de um ambiente discursivo que as apresenta como soluções técnicas para problemas urgentes. A urgência do combate ao crime, amplificada diariamente, funciona como justificativa para a adoção de medidas excepcionais. E, sob essa pressão, categorias, instrumentos e alinhamentos que deveriam ser objeto de debate estratégico passam a ser aceitos como respostas pragmáticas. É assim que a engenharia da submissão se completa: não pela imposição, mas pela convergência entre discurso, interesse e percepção.

Esse processo não pode ser compreendido fora da lógica mais ampla da guerra híbrida e das operações psicológicas contemporâneas. O que está em jogo não é apenas a adoção de uma categoria jurídica, mas a reorganização do campo perceptivo de uma sociedade inteira. Em cenários de disputa entre potências, o controle não se exerce apenas por meios econômicos ou militares, mas pela capacidade de definir quais problemas existem, como devem ser interpretados e quais soluções são consideradas legítimas. Nesse tipo de conflito, vencer não significa necessariamente impor uma decisão, mas fazer com que o outro a aceite como racional.

A categoria de terrorismo cumpre, historicamente, essa função. Ao ser acionada, ela não apenas descreve uma ameaça, mas reconfigura o regime de resposta possível. Ela autoriza exceções, flexibiliza limites legais, amplia o alcance de instrumentos coercitivos e, sobretudo, desloca a autoridade para quem detém a capacidade de definir e aplicar essa classificação em escala global. No caso dos Estados Unidos, essa capacidade está associada a um conjunto de dispositivos que vão do controle sobre fluxos financeiros internacionais à influência sobre organismos multilaterais e redes de cooperação em segurança. Quando essa categoria é internalizada por outro país sem a devida mediação crítica, o que se transfere não é apenas um conceito, mas parte do poder de decisão que o acompanha.

Do ponto de vista do realismo político, esse movimento é coerente com a forma como grandes potências operam para preservar e expandir sua influência. Em um cenário de competição sistêmica, como o que marca a atual fase da ordem internacional, a América Latina volta a ser tratada como espaço de interesse direto. A pressão não se manifesta apenas por meio de acordos formais ou declarações diplomáticas, mas pela difusão de padrões normativos que alinham as políticas internas dos países da região a uma lógica externa. A classificação de atores locais como ameaças globais é um dos mecanismos mais eficazes para isso, porque permite integrar questões domésticas a uma agenda internacional sob liderança de quem detém os instrumentos de coordenação.

A mídia, nesse contexto, atua como vetor de internalização dessa lógica. Ao reproduzir, adaptar e reiterar esse enquadramento, ela contribui para que a sociedade passe a interpretar seus próprios desafios a partir de uma lente que não lhe pertence. O crime organizado deixa de ser um fenômeno inserido em dinâmicas sociais, econômicas e políticas específicas e passa a ser percebido como parte de uma ameaça global que exige respostas alinhadas a padrões externos. Esse deslocamento não é neutro. Ele redefine prioridades, orienta políticas públicas e condiciona decisões estratégicas.

A eficácia dessa operação depende, em grande medida, da sua invisibilidade. Quanto menos ela for percebida como tal, maior será sua capacidade de produzir efeitos. Por isso, ela se apoia em elementos que parecem incontestáveis, como a necessidade de combater a violência e proteger a população. Ao se ancorar em demandas legítimas, a estratégia reduz o espaço para questionamento e dificulta a construção de uma crítica que não seja imediatamente associada à complacência com o crime. Esse é um dos aspectos mais sofisticados da engenharia em curso: ela utiliza problemas reais como plataforma para introduzir soluções que atendem a interesses que vão além do enfrentamento desses problemas.

Quando se observa esse conjunto de fatores, torna-se evidente que a discussão sobre o enquadramento de facções como terrorismo não pode ser tratada como um tema isolado. Ela é parte de uma dinâmica mais ampla, em que categorias, narrativas e instrumentos circulam globalmente e são apropriados localmente de forma a reconfigurar relações de poder. Ignorar essa dimensão é reduzir o debate a uma superfície que não corresponde à sua profundidade real. Reconhecê-la é o primeiro passo para compreender que o que está em jogo não é apenas como o Brasil combate o crime, mas como ele se posiciona em um sistema internacional em disputa e quais limites está disposto a aceitar na definição de sua própria soberania.

A essa altura, o que se impõe não é mais a descrição do fenômeno, mas a sua nomeação sem ambiguidade. A mídia brasileira, ao operar dessa forma, não está apenas informando sobre uma agenda em disputa. Está participando ativamente da construção das condições que permitem que essa agenda avance. Ao selecionar enquadramentos, ao definir os termos do debate e ao reiterar determinadas categorias sem questionar sua origem e função, ela atua como peça de um dispositivo mais amplo de poder que organiza percepções, orienta decisões e limita o horizonte do possível.

Isso não significa que haja um comando centralizado ou uma coordenação explícita entre redações e atores internacionais. O que existe é algo mais profundo e, por isso mesmo, mais eficaz: uma convergência estrutural entre interesses, visões de mundo e posições no sistema global. A mídia corporativa brasileira está inserida em um circuito transnacional de produção de informação que tem como eixo o Atlântico Norte, compartilha referências, fontes e parâmetros com esse circuito e, em grande medida, internaliza suas prioridades. Nesse ambiente, a reprodução de uma doutrina externa não aparece como submissão, mas como atualização, modernização ou alinhamento a padrões considerados avançados.

O problema é que esses padrões não são neutros. Eles carregam consigo uma determinada forma de organizar o poder e de distribuir capacidades de decisão. Quando são adotados sem mediação crítica, tendem a reforçar assimetrias já existentes e a ampliar a dependência de quem os incorpora. No caso brasileiro, isso significa aceitar que categorias fundamentais para a definição de ameaças internas e de respostas institucionais possam ser influenciadas por uma lógica externa, com todas as implicações que isso traz para a autonomia do país.

Ao tornar essa operação invisível, a mídia contribui para que ela se realize com menor resistência. A ausência de um debate explícito sobre soberania não elimina o problema, apenas o desloca para um plano menos perceptível. A sociedade passa a discutir os efeitos sem questionar as causas, as soluções sem interrogar os interesses que as orientam. Nesse contexto, decisões que alteram profundamente o equilíbrio entre autonomia e dependência podem ser tomadas sob a aparência de normalidade democrática.

É nesse ponto que a responsabilidade se torna incontornável. A imprensa, em qualquer sociedade, ocupa uma posição privilegiada na mediação entre informação e poder. Quando abdica de interrogar as estruturas que moldam o que noticia e passa a reproduzir enquadramentos que favorecem determinados interesses sem torná-los visíveis, ela deixa de cumprir uma função pública essencial e passa a operar como instrumento de uma dinâmica que escapa ao controle da própria sociedade que deveria servir.

O resultado desse processo não é imediato, mas é cumulativo. A cada nova camada de naturalização, a margem de contestação se reduz. A cada novo deslocamento do debate, a capacidade de identificar o problema em sua raiz diminui. E, quando finalmente as consequências se tornam evidentes, o terreno já foi preparado de tal forma que revertê-las exige um esforço muito maior do que teria sido necessário para evitá-las.

O que está em curso, portanto, não é apenas uma disputa sobre como enfrentar o crime organizado. É uma disputa sobre quem define os termos dessa luta e quais limites estão sendo estabelecidos para a ação do Estado brasileiro. A forma como essa disputa é mediada hoje terá impacto direto sobre o tipo de país que o Brasil será capaz de ser no futuro. E, nesse processo, a mídia já fez uma escolha.

O que está sendo construído diante dos olhos do país não é apenas um novo enquadramento sobre o crime organizado. É a redefinição silenciosa dos limites da soberania brasileira. Quando uma sociedade passa a aceitar que categorias, critérios e instrumentos produzidos fora de seu próprio sistema político possam orientar decisões internas, o que está em jogo deixa de ser eficiência e passa a ser autonomia. E autonomia, uma vez cedida, não é facilmente recuperada. Ela se dissolve em camadas, sob justificativas sempre plausíveis, sempre urgentes, sempre apresentadas como necessárias.

A engenharia da submissão não exige anúncio. Ela se realiza quando o inaceitável deixa de ser percebido como tal. Quando a linguagem do poder externo passa a organizar o pensamento interno. Quando a mediação informacional, em vez de revelar a estrutura do problema, contribui para ocultá-la. Nesse ponto, a disputa já não é apenas política. É histórica. Porque define se o Brasil continuará sendo capaz de formular seus próprios caminhos ou se passará a operar dentro de parâmetros definidos por interesses que não respondem à sua sociedade. A escolha ainda existe. Mas ela já está sendo condicionada. E talvez este seja o sinal mais claro de que o processo já avançou longe demais.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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