A esquerda que copia a direita da lata para dar conselhos de prudência a Lula
“A ala dos alarmistas não sai da Sapucaí e mantém alertas sobre o que presidente deve ou não fazer”, escreve Moisés Mendes
Tenta ser divertida, mas é muito chata uma das alas do debate sobre a homenagem da Acadêmicos de Niterói a Lula. Dizem o que Lula deveria ter feito, não como opinião, mas como um alerta que não foi ouvido.
Tem gente nas redes sociais dizendo que Lula, o mais intuitivo de todos os políticos desde Getúlio Vargas, deveria ouvir o seu Mércio, o mais famoso morador da Aberta dos Morros, em Porto Alegre, e suas advertências infalíveis.
Gente que sabe tudo e saberia mais do que Lula, que não prestou atenção nos seus avisos. Dizem que dona Eulália, da fruteira Nossa Senhora de Lourdes de Cacequi, mandou um sinal amarelo pelo whats para o Planalto.
Que o seu Bento, capataz de fazenda em Sorocaba, avisou um amigo que conhece alguém em Brasília. Vozes conhecidas das esquerdas influenciam seu Bento.
Não vá, Lula, que é fria. Cuidado, Lula, que as arapucas estão onde a gente menos espera. Você experimentou e venceu todas as crueldades da direita, mas não se deu conta de que a homenagem era uma armadilha.
Você, Lula, que eles encarceraram por 580 dias para sair da prisão caindo aos pedaços, você saiu inteiro e conseguiu se reeleger pela terceira vez. Mas agora você foi amador, Lula. É o que dizem os alarmistas profissionais.
Você, que sabia que sairia da prisão mais forte do que entrou, não sabe tudo, Lula. É o que a direita diz e parte da esquerda, inclusive com mandato, repete no mesmo ritmo.
É uma ladainha. A mesma conversinha que contagia parte das esquerdas com os ataques dos jornalões, do centrão e do bolsonarismo ao STF. As esquerdas viraram papagaios da direita.
A direita pauta a esquerda em quase tudo e até nessa história da arapuca da Sapucaí. É cansativo, mas dirão durante muito tempo que Lula caiu numa tocaia.
A escola de Niterói apenas o atraiu para um roteiro bem urdido, sabendo que o TSE logo estará sob o controle de Nunes Marques e André Mendonça.
Lula não se deu conta disso. Nem o pessoal do seu entorno. Ninguém em Brasília percebeu que, ao invés da bravura e da imaginação dos negros de Niterói, o que havia era uma trama.
Lula enfrenta o jogo sujo de Trump. Avisa ao mundo que irá encarar as big techs. Dá dribles no fascismo nacional e mundial. Mas é ingênuo quando o assunto é Carnaval.
É o que eles repetem. Que Lula caiu na conversa do sambinha de Niterói. Que a homenagem subiu à cabeça dele e de Janja. Que Lula precisa ser mais esperto e não se aliar aos que colocam a tradicional família brasileira dentro de latas de conserva.
Essa é a parte aparentemente divertida da guerra do fascismo contra a Acadêmicos de Niterói, contra os negros e a arte do povo e contra as alegorias que denunciaram a extrema direita enlatada.
Caíram no conto das pautas das Malus Gaspares e nas conversas dos Mervais para dar conselhos a Lula. Alertaram Lula como se fizessem parte da batucada dos jornalões. Recomendaram que Lula se recolhesse a um retiro no Pico dos Marins, na Serra da Mantiqueira.
Curem o porre moralista e parem com isso. Sejam menos influenciáveis pelas homilias da Globo News. Evitem comentários deselegantes sobre um homem com pós-doutorado em como lidar com as pedras, os podres e as latas no seu caminho.
Lula foi empurrado pelo sentimento de que merecia a homenagem, como faz desde o dia em que peitou os ditadores. Lula é sentimento. Olhou para Janja e disse: nóis vai. E foram.
E venceram, porque a racionalidade mais básica e rasa não pode vencer o poder da intuição e dos movimentos genuínos da arte e da política que ainda resiste ao lavajatismo e à tentativa de ressurreição do bolsonarismo.
Lula e Janja foram tão bravos quanto a Acadêmicos de Niterói. Ah, sim, dizem que Lula foi personalista. Assim é na política, meus amigos não foliões. A política não existe sem personalidades e celebridades.
Nem o futebol, nem a Igreja e muito menos uma escola de samba. Lula foi homenageado porque merece até continuar correndo riscos que só ele corre como líder vencedor.
A direita não gostou? Por que a esquerda precisa se incomodar com esse incômodo deles? Se Lula fosse ouvir tudo o que dizem no Natal, na Páscoa e no Carnaval, seria um Tarcísio vacilante qualquer, não seria o Lula.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



