Lula atribui repercussão negativa de desfile a impulsionamento pago e orienta equipe a não alimentar polêmica
A Secom repassou ao presidente dados indicando o pagamento feito com o objetivo de ampliar a circulação de críticas ao desfile da Acadêmicos de Niterói
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ministros e integrantes do governo federal avaliam que a repercussão negativa sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói foi intensificada por meio de impulsionamento pago de conteúdos digitais. Durante a apresentação, no último domingo (15) na Marquês de Sapucaí, a escola apresentou um enredo em homenagem ao petista. A agremiação foi rebaixada do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro.
De acordo com informações publicadas nesta quinta-feira (19) pela coluna da jornalista Nathalia Fruet, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) repassou ao presidente Lula dados indicando pagamento para ampliar a circulação de críticas ao desfile nas redes sociais.
A ordem do presidente Lula é para que ministros e auxiliares evitem reproduzir a polêmica sobre o desfile. Conforme integrantes do Palácio do Planalto, o episódio foi explorado por adversários políticos e por grupos organizados para atacar o governo, com uso de ferramentas digitais que aumentaram artificialmente o alcance das publicações críticas. A avaliação interna é de que houve uma estratégia coordenada para transformar a apresentação carnavalesca em um tema de desgaste político.
Auxiliares de Lula também demonstraram preocupação com a forma como parlamentares do PT poderiam reagir ao caso. Segundo pessoas próximas ao presidente, seria um equívoco tratar o episódio como um fator capaz de ampliar a distância entre o governo e a comunidade evangélica, sobretudo diante da leitura de que a polêmica teria sido potencializada por campanhas digitais patrocinadas.
A controvérsia surgiu após a Acadêmicos de Niterói apresentar elementos que fizeram críticas a setores identificados como “neoconservadores”. Durante o desfile, representantes do agronegócio, evangélicos e da oposição ao governo Lula foram descritos como “neoconservadores em conserva”, em uma metáfora visual que chamou atenção pela estética provocativa.
A escola levou para a avenida uma representação de famílias dentro de latas de conserva, com imagens que remetiam ao modelo de família tradicional — pai, mãe e dois filhos — associando esse conceito a segmentos do neoconservadorismo, ao agronegócio e a grupos religiosos. A encenação gerou forte reação de oposicionistas e de setores religiosos, que acusaram a apresentação de desrespeitar a fé cristã.
Apesar de o desfile ter sido planejado como uma homenagem política e simbólica ao presidente, o conteúdo apresentado passou a ser utilizado como combustível para disputas ideológicas nas redes sociais, ampliando o alcance do debate para além do universo carnavalesco. No entendimento do governo, o uso de impulsionamento pago teria sido decisivo para aumentar a repercussão negativa.
O desfile
A Acadêmicos de Niterói desfilou com o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, que buscava retratar a trajetória política do presidente e sua origem ligada ao movimento operário. Mesmo com a proposta temática, a escola terminou a apuração com 264,6 pontos e foi a agremiação rebaixada para a Série Ouro.
O rebaixamento ocorreu em um ano em que a Unidos do Viradouro conquistou o título do Carnaval do Rio de Janeiro em 2026. O resultado foi anunciado na quarta-feira (18), após a apuração realizada na Cidade do Samba, no bairro da Gamboa, na região central do Rio. A Viradouro fechou a disputa com 270 pontos.
A Beija-Flor ficou com a vice-liderança, somando 269,9 pontos, empatada com a Vila Isabel. O restante do grupo que completou as primeiras colocações foi formado por Salgueiro (269,7), Imperatriz (269,4) e Mangueira (269,2). Todas essas escolas garantiram presença no Desfile das Campeãs, marcado para o próximo sábado (21), na Marquês de Sapucaí.
A Viradouro levou para a avenida o enredo “Para cima, Ciça!”, dedicado aos 70 anos de Moacyr da Silva Pinto, mestre de bateria conhecido como Ciça, considerado o mais longevo no posto em atividade no Carnaval carioca. Ele participou do desfile tanto na comissão de frente quanto no último carro alegórico, comandando os ritmistas diante do público.
Com uma trajetória extensa, Ciça já esteve à frente de baterias de escolas como Unidos da Tijuca, Grande Rio, União da Ilha e Estácio de Sá, onde iniciou sua carreira em 1988. Reconhecido pelas paradinhas marcantes e pela condução precisa da percussão, ele participou diretamente de títulos importantes, incluindo vitórias da Viradouro em 2020 e 2024 e o campeonato da Estácio de Sá em 1992.
O título conquistado em 2026 representa o quarto campeonato da Viradouro no Carnaval do Rio. A escola já havia vencido anteriormente em 2024, e agora reforça sua posição entre as agremiações de destaque na história recente do Grupo Especial.
Na lista histórica das maiores campeãs do Carnaval carioca, a Portela permanece como líder absoluta com 22 títulos, seguida pela Mangueira, com 20. A Beija-Flor soma 15 conquistas, enquanto Salgueiro, Império Serrano e Imperatriz Leopoldinense acumulam nove títulos cada.
Com a queda da Acadêmicos de Niterói, a vaga deixada no Grupo Especial será preenchida pela campeã da Série Ouro. A escola que assumirá o posto será conhecida nesta quinta-feira (19), quando será divulgado oficialmente o resultado da apuração da divisão de acesso.


