A esquerda vai reaparecer. Parte 1: o curto prazo
A esquerda precisa se reinventar para defender a democracia liberal em crise diante do avanço da extrema-direita e do capitalismo neoliberal
Aclaração
Esquerda, no singular, é a expressão simplificada da diversidade das esquerdas. Entendo por esquerda toda a resistência coletiva organizada contra a injustiça, a desigualdade e a discriminação sociais causadas pelas principais formas de dominação da era moderna: capitalismo, colonialismo e patriarcado. A resistência só é de esquerda quando é simultaneamente anticapitalista, antirracista e antissexista. Isto não impede que, dependendo dos contextos e conjunturas, um dado eixo da resistência seja mais urgente do que os outros, ou até que haja outros eixos de resistência igualmente urgentes. Na Índia, a esquerda será, além disso, anticastista. Em todas as regiões do mundo, será também antifundamentalista, antissenectista (discriminação contra os idosos) e anticapacitista (discriminação contra pessoas com deficiência).
A “esquerda” é apenas um dos nomes possíveis da resistência. É o nome mais comum no mundo político e cultural eurocêntrico, basicamente na Europa, nas “Europas fora do lugar” (Américas, Austrália e Nova Zelândia) e noutras regiões do mundo onde a cultura política eurocêntrica teve mais implantação. Noutros contextos políticos e noutras culturas, a resistência contra a desigualdade e a discriminação pode ter outros nomes. Isto significa que, quando faço o apelo “esquerdas do mundo, uni-vos!”, estou a fazer um apelo que implica a necessidade de tradução intercultural entre as várias práticas e as várias culturas de resistência contra a desigualdade e a discriminação modernas, qualquer que seja a sua designação.
Como diferentes classes sociais, povos ou grupos sociais sofrem injustiças diferentes e vivem essa experiência de modo diferente, a resistência contra a injustiça assume formas e intensidades diferentes. Por isso, mesmo dentro da mesma cultura, são diversas as práticas de resistência e, consequentemente, diversas as esquerdas.
O dilema das esquerdas modernas é que, sendo plurais, não podem nunca ser antagônicas entre si porque, se o forem, suicidam-se, e o seu suicídio significa sempre mais desigualdade social e mais discriminação social. Quando as ditaduras ou ditamoles (regimes políticos em que traços de democracia convivem com traços de ditadura) reprimem as políticas e os militantes de esquerda, são quase sempre golpes de misericórdia contra esquerdas que se foram suicidando através de lutas internas fratricidas. Antes da chegada de Hitler ao poder, os socialistas consideravam os comunistas como seus principais inimigos e, reciprocamente, os comunistas consideravam os socialistas como seus principais inimigos. Uma vez no poder, Hitler não viu nenhuma diferença entre eles, proibiu ambos e mandou assassinar muitos dos militantes de ambos os partidos.
Esquerda e os monstros
Em texto recente, argumentei que há uma tendência global para a direita tradicional ser absorvida pela extrema-direita e perguntei-me sobre o que isso significa para a esquerda. Sugeri que, tal como acontece na direita, há também que distinguir entre esquerda tradicional (dita moderada, liberal, social-democrática) e extrema-esquerda (dita revolucionária, comunista, anarquista). Recordo que entendo por extrema-esquerda toda a resistência contra a tríade capitalismo/colonialismo/patriarcado que não aceita a democracia liberal como instrumento de resistência, por entender que este tipo de democracia é o que legitima e sustenta a continuidade da tríade.
À luz do pensamento moderno linear dominante, o raciocínio óbvio é este: se a direita tradicional está a desaparecer, o mesmo está a suceder com a esquerda tradicional. Por isso, a opção política fundamental nos próximos tempos é entre extrema-esquerda e extrema-direita. E, se assim for, a situação é trágica para as esquerdas atuais porque, enquanto a extrema-direita está cada vez mais presente e agressiva, a extrema-esquerda ou não existe ou está vigente nas margens mais remotas dos processos políticos e mobiliza muito poucos seguidores.
Não é assim tão simples.
No período de interregno gramsciano em que nos encontramos, a velha democracia liberal está a morrer, mas ainda não morreu completamente, e o que se lhe seguirá ainda não emergiu completamente. Estamos, portanto, num momento em que abundam fenómenos mórbidos, se não mesmo monstros. Gabriel García Márquez escreveu um dia sobre a Colômbia que “esta encruzilhada de destinos construiu uma pátria densa e indecifrável onde o inverosímil é a única medida da realidade”. Penso que esta caracterização da Colômbia se aplica hoje a todo o mundo.
Vejamos alguns monstros contemporâneos.
- A “maior democracia do mundo” (os EUA) promove sistematicamente golpes de Estado brandos e duros contra países com governos eleitos democraticamente e apoia activamente políticos de extrema-direita e as suas tácticas antidemocráticas (mentira, fake news, manipulação digital da opinião pública nas redes sociais, violência física e linchamento mediático contra políticos de esquerda e intelectuais críticos).
- Duas corridas correm paralelas para destruir os valores democráticos que dizem defender.
A corrida aos armamentos para preparar uma nova guerra global em nome da defesa da paz global que os cidadãos não veem ameaçada por nenhum país hostil, seja ele a Rússia ou a China.
A corrida à manipulação da opinião pública e ao silenciamento das vozes dissidentes em nome da liberdade de expressão.
- Quem defende a guerra nunca imagina morrer nela. A guerra é sempre a morte dos outros. Os “nossos soldados” é algo que temos, não é algo que somos.
- Os políticos de extrema-direita abraçam-se à bandeira nacional e convencem milhões de cidadãos de que são os verdadeiros defensores da pátria, ao mesmo tempo que abertamente solicitam a intervenção de países estrangeiros nos negócios internos do seu país soberano.
- O uso político da religião, sobretudo evangélica neopentecostal, legitima a concentração da riqueza e, com isso, o aumento da pobreza, ao mesmo tempo que conforta os pobres com a ideia de que a sua riqueza consiste na salvação depois da morte. Defende-se a pobreza, mas não os pobres, e a resignação destes é obtida pela riqueza que lhes está reservada depois da morte.
- A extrema-direita usa o espaço que a agonizante democracia liberal lhe dá para normalizar o fascismo. Por um lado, relativiza os crimes fascistas do passado e, por outro, inculca a ideia de que é possível um fascismo de rosto humano.
- Ao longo de décadas, foi-se construindo um forte movimento ecológico a nível global. A iminência do colapso ecológico tornou esse movimento irreversível e fez crescer a sua força. De repente, irrompeu a “iminente ameaça à paz mundial” e “a necessidade prioritária de os países se prepararem para a guerra”. A guerra no Médio Oriente, o sequestro do Presidente Nicolas Maduro e o assassinato da liderança suprema do Irão trouxeram à superfície a mãe de todas as lutas capitalistas: a luta pelo acesso livre (a baixo preço, expropriado ou roubado) aos recursos naturais. O petróleo e os seus derivados ficaram momentaneamente presos no estreito de Ormuz e, em poucas semanas, a economia mundial ameaçou colapsar. A economia fóssil revelou ser, afinal, a fundação do capitalismo. O movimento ecológico desvaneceu-se e recolheu ao museu de antiguidades da resistência.
- O Estado genocida de Israel reduz países a escombros e povos a valas comuns, comete todo o tipo de crimes de guerra e de crimes contra a humanidade, declara o Secretário-Geral da ONU persona non grata — e NADA ACONTECE.
- Os países periféricos e semiperiféricos do sistema mundial moderno têm duas Constituições Políticas, uma nacional e uma global. Por esta razão, são constitucionalmente uma monstruosidade: têm três órgãos de soberania (poder legislativo, poder executivo e poder judicial) e três órgãos de dessoberania (capital financeiro global, medias corporativos globais e ingerência directa de potências estrangeiras).
A lista dos monstros está longe de ser completa. Mas fico-me por aqui. No início do século XX, Rosa Luxemburgo formulou a opção “Socialismo ou barbárie!”. No início do século XXI, podemos concluir que, se a disjuntiva é verdadeira, a barbárie ganhou.
A esquerda num tempo de monstros
Neste tempo de interregno, a democracia liberal está agonizante e a sua agonia não decorre da mediocridade dos políticos, da corrupção sistémica, da oligarquização dos partidos ou dos novos macartismos indutores de censura e de autocensura. Sem dúvida que estes factos contribuem para a agonia da democracia liberal e são os principais sintomas da agonia. Mas a principal causa da agonia da democracia liberal é o fim da mínima redistribuição da riqueza que ela permitiu em muitos países e, consequentemente, o fim das classes médias que a sustentaram.
Foi em nome da possibilidade de alguma redistribuição da riqueza produzida e de uma parte, maior ou menor, das classes trabalhadoras ascender à classe média que a esquerda revolucionária abandonou o projeto original e decidiu disputar o campo da democracia liberal com o objetivo de expandir a redistribuição da riqueza e, assim, ampliar as classes médias. Entendo por classe média o conjunto dos trabalhadores que atingiu um nível mínimo de estabilidade que lhe permite planear a sua vida e a da sua família (comprar casa por empréstimo hipotecário, dispensar os filhos de contribuírem cedo para o sustento da família, dando-lhes a possibilidade de educação, idealmente educação superior, planear férias, em suma, viver em paz com dignidade).
As classes médias construíram-se com a conquista dos direitos dos trabalhadores, com as políticas sociais, com a educação pública, a saúde pública e o sistema público de pensões, a tributação progressiva, a nacionalização de sectores estratégicos etc. A contradição destas concessões a que o capitalismo foi obrigado pelas lutas sociais acabou por boicotar a possibilidade de um qualquer socialismo democrático.
Se tivermos presente que o projeto socialista original é a superação do capitalismo, as classes médias são inerentemente antissocialistas. Têm a esperança de que a democracia liberal lhes garanta as suas médias expectativas e temem ter tudo a perder se a democracia liberal capitalista for substituída por qualquer outra alternativa política. O pânico das classes médias é cair abruptamente na pobreza. Para os trabalhadores que não ascenderam à classe média, esse pânico foi desde sempre o seu modo de vida.
Acontece que o capitalismo neoliberal é totalmente hostil às classes médias. Numa formulação simples, mas não simplista, o neoliberalismo é uma gigantesca engrenagem de transferência da riqueza dos trabalhadores, das classes populares e das classes médias para as classes altas, isto é, para os sectores mais intensamente extractivistas da burguesia (o capital financeiro e o capital digital). À medida que o neoliberalismo se foi impondo, a democracia liberal foi-se transformando no seu oposto — a democracia neoliberal —, sem alterar a sua designação.
A prazo, esta democracia reduzirá ao mínimo as classes médias e, consequentemente, o poder político delas. Por sua vez, os trabalhadores que nunca ascenderam à classe média perderão de vez a esperança de que essa ascensão venha alguma vez a suceder por via da democracia liberal. Na exploração da possível revolta social que esta perspectiva causará reside a principal fonte do crescimento da extrema-direita. O objetivo não é tanto combater a revolta como impedir que ela ocorra sem que as suas reivindicações sejam satisfeitas. O capital digital (inteligência artificial, redes sociais, o capitalismo de vigilância) está inteiramente orientado para esse objetivo.
Consciente de que hoje será difícil chegar ao poder por via de golpe de Estado, a extrema-direita vê-se forçada a usar a democracia para chegar ao poder. Uma vez no poder, não tem a mínima intenção de o exercer democraticamente.
A extrema-direita é a forma política do capitalismo neoliberal. O objetivo central é impedir qualquer possível regresso à social-democracia. Por isso, quem financia os partidos de extrema-direita é o capital mais extractivista de riqueza alheia. Não surpreende que as campanhas eleitorais dos partidos de extrema-direita sejam, em geral, as mais bem financiadas.
Como se explica então que a extrema-direita cresça com o voto das classes médias mais precarizadas e dos trabalhadores sem esperança?
Uma das razões reside no êxito com que a extrema-direita conseguiu desviar a revolta contra os de cima (os que a financiam) para a revolta contra os de baixo (os que votam nela). O dispositivo consistiu na substituição com êxito da política de bem-estar pela política de mal-estar. A política de bem-estar consistia na promessa de melhores políticas sociais, as que estiveram na base do que, com algum exagero, se chamou Estado de bem-estar (welfare state). Foram estas políticas que criaram as expectativas ascendentes para uma boa parte da população (uma parte maior ou menor consoante a posição do país no sistema mundial): “as coisas estão bem, mas poderiam estar melhor”. Em suma, mais esperança e menos medo.
Ao contrário, a política de mal-estar consiste em prometer segurança física contra as ameaças que vêm de baixo, dos imigrantes, dos ciganos, dos terroristas e de todos os humanos hifenizados por razões raciais ou étnicas. Daí a “necessidade” do fortalecimento das polícias e dos sistemas de vigilância, da alteração das leis de nacionalidade e até da crise crónica dos serviços de obstetrícia, uma situação à partida inexplicável, pelo menos na Europa, onde uma população envelhecida se queixa da falta de jovens: é que, a título de exemplo, em 2025, em Portugal, 28% das parturientes tinham nacionalidade estrangeira; na esmagadora maioria, eram imigrantes. A verdadeira causa da crise dos serviços de obstetrícia reside aqui.
Com este dispositivo, a revolta das vítimas é desviada dos verdadeiros agressores para outras vítimas: vítima contra vítima, tanto mais viável quanto é certo que, em termos de percepção social, há sempre alguém abaixo de nós, por baixo que se esteja. Assim, ilibam-se os de cima de qualquer responsabilidade e gerem-se as expectativas descendentes: “as coisas estão mal, mas ainda podiam estar pior”. Muito medo e pouca esperança.
Depois de períodos em que o bem-estar das maiorias melhorou em termos materiais, por menores que hajam sido essas melhorias, a gestão das expectativas descendentes torna-se mais convincente se a arquitectura institucional anterior for desacreditada e se oferecer uma alternativa radical: o antissistema. Em termos de propaganda, trata-se da luta total contra a corrupção, o desperdício e a insegurança. Em termos reais, trata-se da consolidação do sistema que produz a corrupção, o desperdício e a insegurança.
Assim se produzem duas monstruosidades democráticas: as maiorias votam a favor das políticas que mais as prejudicarão; os grandes financiadores da política antissistema são os mais íntimos desse sistema e os que mais beneficiam com a eliminação das forças realmente antissistémicas que os poderiam realmente ameaçar.
Tudo isto é possível pelas três razões que tenho mencionado e por uma megarrrazão. As três razões são: o financiamento ilimitado e opaco dos partidos, do que resultou a fusão do universo dos valores ético-políticos com o universo dos valores económicos; a digitalização da propaganda nas redes sociais, que se converteram numa arma de destruição massiva da opinião pública fiavelmente informada; a supressão das dissidências que forem para além das liberdades autorizadas.
A megarrrazão é a crescente predominância do capitalismo digital e a ideologia de que, com ele, é possível o verdadeiro fim da história. O capitalismo não desapareceu para dar lugar ao tecnofeudalismo, como propõe Yanis Varoufakis, mas mudou profundamente com a inteligência artificial. Podemos, com alguma cautela, marcar o início do neoliberalismo-em-acção em dois momentos e contextos: em ditadura, no Chile, em 1973, após o golpe de Estado contra o Presidente Salvador Allende; em democracia, com a brutal repressão do movimento sindical no início da década de 1980 no Reino Unido, com Margaret Thatcher. Atualmente, assistimos ao paroxismo da sua evolução: a maior repressão é deixar de ser necessário reprimir.
Se a revolta sempre foi alimentada pelas classes trabalhadoras, deixará de haver revolta se a inteligência artificial permitir ao capitalismo dispensar uma percentagem significativa de trabalhadores humanos.
Karl Polanyi ensinou-nos que o capitalismo, sendo uma grande engrenagem de produção de mercadorias, assentava em três falsas mercadorias, isto é, recursos que não foram originalmente produzidos como mercadorias para serem vendidos no mercado: o trabalho, a terra e o dinheiro. Estará o capitalismo a ponto de dispensar uma dessas falsas mercadorias? Calcula-se que, nos EUA, até 2030, 10,4 milhões de empregos (6,1% do total) serão permanentemente eliminados pela IA e a automação.
Não trato neste texto deste complexo tema. Apenas me pergunto quais as consequências desta transformação para a democracia, já que os robots não votam (pelo menos, para já). Para chamar à colação a minha concepção das epistemologias do Sul, será que a linha abissal da era moderna que divide a humanidade em dois subgrupos, os plenamente humanos e os sub-humanos, vai deslocar-se e aumentar o grupo dos sub-humanos a níveis sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial e do fim do colonialismo histórico? Ou, pelo contrário, a sua deslocação conduzirá à redução ou até eliminação do grupo dos sub-humanos? No primeiro caso, a tríade capitalismo/colonialismo/patriarcado continuará vigente. No segundo caso, estaremos perante uma transição paradigmática incompatível com a existência dessa tríade. Há muito tempo que pauto as minhas poucas previsões pela aposta de Pascal. É nessa condição que aposto na segunda hipótese, um futuro pós-capitalista, pós-colonialista e pós-patriarcal. Com essa aposta em mente, imagino as tarefas da esquerda a curto e a médio prazo. Neste texto abordo o curto prazo e, no seguinte, o médio prazo. A longo prazo, como dizia John Keynes, estamos todos mortos.
O curto prazo: a democracia liberal como ruína-semente
A curto prazo, a esquerda tradicional é o garante da sobrevivência da democracia liberal. Para isso, tem de se destradicionalizar. Tem de o fazer já ou logo após as próximas eleições, quer as ganhe, quer as perca. Claro que os passos e os ritmos serão diferentes num caso e noutro, mas as transformações irão na mesma direcção.
A democracia liberal está agonizante, mas ainda não morreu, e a sua sobrevivência a curto prazo é fundamental para que, a médio prazo, emerja algo melhor e não pior que ela. É nesse sentido que eu concebo a democracia liberal como uma ruína-semente.
Os passos para destradicionalizar
Poder e oposição.
O primeiro passo é partir do pressuposto de que, mesmo que ganhe as eleições, a esquerda é sempre oposição. O poder do governo é hoje apenas um dos componentes do poder político e talvez nem sequer o mais importante. Quando a direita ganha as eleições, tem o poder governativo, o poder mediático, o poder financeiro e o poder cultural. Quando a esquerda ganha, tem apenas o primeiro poder. Em relação a todos os outros, é oposição e deve agir como tal. Esta é a grande assimetria da democracia liberal que garante a continuidade da tríade de dominação moderna.
Partidos, movimentos sociais e presenças coletivas no espaço público.
A forma partido, tal como existe hoje, só favorece a direita. Os partidos são hoje estruturas que tendem a ser dominadas por elites centralistas, autoritárias, oligárquicas, em suma, antidemocráticas. Organizam a distância, e não a proximidade, entre os seus militantes/simpatizantes e os dirigentes. Este modelo serve bem a direita porque é o que alimenta a fusão entre o universo dos valores ético-políticos e o universo dos valores económicos: os dirigentes partidários passam dos negócios para o governo e do governo para os negócios sem qualquer sobressalto. No tempo da social-democracia, era parcialmente diferente, na exacta medida em que os dois universos mantinham alguma separação.
Para a esquerda, esta forma-partido é um desastre porque a ausência de democracia interna boicota ou desacredita qualquer luta por mais democracia na sociedade. Portanto, o primeiro passo da destradicionalização é aceitar que a forma partido, tal como existe hoje, esgotou a sua utilidade histórica e é um obstáculo tanto à sobrevivência da democracia como à sobrevivência da esquerda. Isto é válido para todos os partidos de esquerda, quer pertençam ao arco da governação ou ao arco da oposição.
A profunda reforma interna assenta na ideia de que a esquerda tem de praticar internamente a única forma de democracia suficientemente capaz de sobreviver por algum tempo: a articulação entre democracia representativa e democracia participativa. A esquerda continuará a ter dirigentes e programas, mas ambos decorrerão de exercícios de democracia participativa protagonizados pelos militantes e simpatizantes do partido.
O partido de esquerda do futuro é, por definição, um partido-movimento porque a democracia interna que o anima combina lógicas/procedimentos representativos e lógicas/procedimentos participativos. Torna o partido mais permeável à articulação com movimentos e organizações sociais não partidárias, uma articulação assente na autonomia e no respeito mútuos. Permite ao partido entender e respeitar as formas novas de protesto social que não são nem partidárias nem convocadas por movimentos ou organizações sociais. Trata-se de presenças coletivas no espaço público, muitas delas genuinamente espontâneas e mobilizadas por um evento que causa particular repulsa ou revolta. Já escrevi muito sobre o partido-movimento e remeto os leitores para um desses textos.
A social-democracia como antissistema
A curto prazo, a esquerda tem de lutar como se a social-democracia continuasse a ser possível. A luta é defensiva porque visa repor direitos sociais e instrumentos de redistribuição de riqueza anteriormente conquistados e agora perdidos. Consciente de que o capitalismo neoliberal mobilizará todas as forças internas e externas para impedir o êxito dessa luta, a esquerda, quer esteja no governo, quer esteja na oposição, deve manter-se inequivocamente do lado das classes sociais que mais sofreram com a erosão dos direitos e o aumento da desigualdade social, e correr os riscos que daí decorrem. Nomeadamente a provocação programada de convulsão social que, segundo a extrema-direita, só pode ser controlada pela repressão e pela deportação de imigrantes indesejáveis.
Nas atuais condições históricas, não é possível um “capitalismo de rosto humano”, tal como a social-democracia, nos seus tempos áureos, fez crer a amplas maiorias nos países centrais do sistema mundial, sobretudo na Europa, e às mais ou menos pequenas classes médias nos países periféricos e semiperiféricos. A social-democracia, que já foi considerada como máxima consciência possível do sistema democrático moderno, é hoje considerada pela direita/extrema-direita como inviável, perigosa, subversiva, em suma, antissistémica.
A curto prazo, o antissistema que a esquerda destradicionalizada tem para contrapor ao antissistema protofascista da extrema-direita é a social-democracia.
- O institucional e o extra-institucional
A gestão neoliberal das preferências significa pôr as instituições ao serviço de um conformismo de resignação legitimado pela ausência de alternativas. O inconformismo e a resistência serão fortemente reprimidos, mas, como referi atrás, a repressão é vista como dispositivo apenas provisório. Com a inteligência artificial ao seu serviço, o objetivo final é neutralizar a resistência antes de ela acontecer.
A liberdade neoliberal é a liberdade sem condições para ser livre. Em última instância, trata-se da liberdade de ser miserável. Mas a liberdade de ser miserável é a miséria da liberdade. Os grupos sociais extremamente empobrecidos e sem qualquer direito a protecção social digna desse nome têm apenas duas liberdades: a liberdade autorizada de pedir esmola e confiar na filantropia social e a liberdade não autorizada de roubar.
A necessidade de o conjunto das esquerdas navegar entre o sistema e o antissistema implica não esgotar o activismo político na gestão das preferências tal como são configuradas pelo neoliberalismo. É necessário manter uma tensão entre a gestão das preferências autorizadas e a confrontação entre preferências autorizadas e preferências não autorizadas.
O conjunto das esquerdas tem de agir com um pé nas instituições e outro pé fora delas, nas ruas, nas praças, de maneira pacífica, mas eventualmente ilegal. Tem de experimentar criar novas instituições, mesmo que apenas a nível local. A inovação institucional a nível local é hoje mais provável, mais audaz e mais eficaz.
A probabilidade de o inconformismo activo — o protesto social — ser ilegalizado e fortemente reprimido será cada vez maior. A inteligência natural dos activistas de esquerda tem de saber sobrepor-se à inteligência artificial da Palantir e Co., que visará neutralizá-los, silenciá-los e, em casos extremos, eliminá-los.
- Cidadania trabalho-mercadoria e trabalho-atividade humana
Historicamente, o trabalho organizado em sindicatos foi o caminho para construir cidadania com direitos para as amplas camadas da população apenas proprietárias da sua força de trabalho. O sonho do Vale do Silício e o pesadelo das classes populares (trabalhadores e classes médias) do mundo inteiro é a inteligência artificial eliminar tanto quanto possível o trabalho humano e, consequentemente, o trabalho com direitos que as lutas sociais dos últimos cento e cinquenta anos tornaram possível. Os robots e os algoritmos não reclamam direitos nem precisam de férias (a menos que a IA os programe para isso).
Não se sabe até onde nos levará a vertigem da IA, se ao fim do trabalho com direitos, se ao fim da humanidade tal como a conhecemos, se à paz eterna ou ao apocalipse. Apenas uma coisa é certa: a IA pretende eliminar a prazo o próprio conceito de cidadania que subjaz à ideia da democracia como soberania popular.
Destradicionalizar a esquerda significa assumir que a cidadania com direitos tem de prevalecer sobre a possibilidade de, no futuro, o trabalho assalariado ainda necessário ser um trabalho análogo ao trabalho escravo. Ou seja, este tipo de trabalho como regra e não como excepção, como acontece hoje. A curto prazo, a esquerda tem de travar a vertigem avassaladora da inteligência artificial, regulando-a, nacional e globalmente, e promovendo zonas libertadas do extractivismo digital, formas de convivência presencial e de trabalho não remunerado como exercícios de cidadania.
- O grau zero da reforma política
De tudo o que analiso neste texto conclui-se que é urgente uma profunda reforma política dos regimes democráticos. O horizonte dessa reforma é uma sociedade pós-capitalista, pós-colonialista e pós-patriarcal.
A democracia que nos aproximará mais desse horizonte será certamente muito diferente da democracia de baixa intensidade que hoje prevalece e que, mesmo assim, está em perigo por não saber defender-se dos fascistas ao permitir que eles sejam eleitos democraticamente.
Trata-se de uma tarefa a realizar no médio prazo. Mas há uma dimensão dessa reforma que, pela sua urgência, tem de ser realizada a curto prazo. Trata-se do financiamento dos partidos. Se o financiamento dos partidos continuar a ser permitido sem limites e sem transparência, a esquerda não terá sequer médio prazo para poder pensar a sociedade do futuro e lutar por ela.
Conclusão
A curto prazo, destradicionalizar a esquerda (o conjunto das esquerdas) significa torná-la apta para, no governo ou na oposição, garantir que a democracia prevaleça e não apenas sobreviva. No fundo, trata-se de democratizar a própria democracia para permitir que exista um médio prazo democrático. A médio prazo, a sociedade democrática será pós-capitalista, pós-colonialista e pós-patriarcal. Este médio prazo tem de ser pensado e preparado a curto prazo. É o tema do próximo texto.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




