A estupidez vem do Alvorada

É nítido o desprezo de Bolsonaro por orientações científicas. Suas falas são de sensos (verdades), sempre com uma carga de trivialidade alienante

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Há quem diga que quando tudo passar, o mundo não será o mesmo. Os dias de dificuldades passarão. Como passarão também os dias de solidão. Os mais otimistas esperam um mundo mais propenso à solidariedade, olhar que aguarda também, depois do período de isolamento, o surgimento de boas surpresas na literatura, na música...

Paremos um instante. Fazer um comentário a respeito do mundo pós-Covid-19, será em tom de dúvida. Não quero dizer que mudanças não serão possíveis. Longe disso. É claro que ocorrerão mudanças. Quero avisar que talvez a correção de erros demore. 

Afinal, o Estado de bem-estar social, na Europa, nasceu no pós-Segunda Guerra, mas depois de exaustivas lutas políticas para estimular o desenvolvimento nas áreas da saúde, educação e previdência social, melhoria do padrão de vida que ocorreu entre 1945-1975.

Numa visão global, a “gripe espanhola”, em fins de 1918, matou cerca de 50 milhões de pessoas. Dos que caíram mortos, alguns famosos, como Sophie, filha do Dr. Freud, tal como o sociólogo alemão Max Weber. O quadro horrendo de óbitos, a rigor, deveria ter desencadeado uma educação humanitária. Não foi o que aconteceu. Andamos em círculos e veio a Segunda Guerra com seus 45 milhões de mortos.

Passo ao Brasil. Aqui, de entrada, já cabe dizer que falar numa volta à “normalidade”, é falar numa uma volta à livre exploração do meio ambiente e das pessoas. É que se a “normalidade” é marcada por individualismos e atropelos às reservas nacionais, indígenas, igualdade de gênero, de raça, voltar a esse “normal” já é um retrocesso.

E as dificuldades são imensas. Pense nos que, por pedantismo, desprezaram o confinamento, como foi o caso dos que participaram das “carreatas”. O que se viu foram empresários reunidos em grupos de encontro pelas avenidas das mais diversas cidades brasileiras. De seus carros eles regiam a malta contra as medidas de isolamento social. A cena é uma paulada nos intrépidos profissionais da saúde que arriscam suas vidas cotidianamente no combate ao coronavírus.

Perguntar por que os empresários não saíam de seus carros, é tocar na “ferida narcísica”. A causa pode ser reveladora. Olhemos de mais perto a sintomatologia. Para eles, se os funcionários ficarem com o vírus dentro de um ônibus lotado, é algo indiferente. O fato de que o vírus pode levar a milhares de mortes pelo país não lhes diz nada. O principal exemplo disso foi a fala do empresário Junior Durski, da rede Madero, que “o Brasil não pode parar por conta de 5.000 pessoas ou 7.000 pessoas que vão morrer” (aqui).

O que “não pode parar” são os lucros, ou a ideia de que não se pode levar à falência a economia deles, os patrimonializados. Esse é o ponto. Para eles a preocupação com o bem-estar e a saúde dos trabalhadores das camadas mais pobres da sociedade é algo desimportante.

A quarentena é um meio de salvar vidas e preservar a infraestrutura de um sistema público de saúde instável. É por isso que acompanhamos com muita preocupação o caso de São Paulo, que começou o trabalho de isolamento social próximo dos 70%, mas depois diminuiu para 47% (aqui), queda que aconteceu no exato momento em que a capital concentrava 75% dos óbitos, com o país rumo ao ápice da disseminação do vírus. 

Para se ter ideia da hecatombe, imaginemos o seguinte cenário: se o vírus provoca sintomas leves em 80% a 90% das pessoas, e 4% dos contaminados terminam precisando de cuidados intensos, ocorre que esses 4% numa cidade de 10 milhões de habitantes, transformam-se em 400 mil pessoas que teriam que imediatamente entrar na UTI, sendo que não há leitos disponíveis. 

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro despreza as orientações da OMS, agência especializada em saúde, com sede em Genebra, na Suíça, que consegue reunir os principais pesquisadores do mundo. O mandatário insiste em retomar a atividade econômica no soco! Aproveita da subnotificação de casos, já que não temos testes e redes de rastreamento suficientes, e, com base no próprio achismo, diz que “está começando a ir embora essa questão do vírus” (ver aqui). Note-se, que o presidente agindo assim, demonstra ser prisioneiro das suas “achações” ou opiniões no formato “creio que...”. O epistemólogo austríaco Karl Popper chamaria isso de “O mito do contexto”. Ou seja: há pessoas que vivem no cativeiro de seus próprios “contextos” ou credos.Acontece que hoje o mandatário pratica um presidencialismo de convicções. Ciência? Ora, não! Trata-se de um anti-intelectual criticado mundo afora por jornais, a exemplo do “New York Times” (aqui). Aliás, a revista inglesa “The Economist”, uma das mais influentes do mundo, mencionou o presidente Bolsonaro. A “Economist” lembrou que ele exibe sinais de insanidade (ver aqui).

É nítido o desprezo de Bolsonaro por orientações científicas. Suas falas são de sensos (verdades), sempre com uma carga de trivialidade alienante. É especialista de coisa nenhuma e vive fincado no atoleiro da provocação barata para capturar a atenção da sua claque, que para adulá-lo, sai para as ruas instalar a balbúrdia. Estuda-los é fazer uma expedição ao obscurantismo.

É mesmo lamentável ver autoridades condutoras do Estado atuando de forma irresponsável, levando o país à decadência do debate público, com estultices e gritarias políticas, assuntos que dão o maior “ibope” nas redes sociais (palco de fake news) e em programas de TV que veneram notícias que saem de uma faca pingando sangue.O futuro é desconhecido, sim, e vivemos um momento difícil da história. O mundo estará mais pobre, possivelmente. Apesar disso, encaremos os dias de dificuldades, por mais que pareçam grandes e complicados, fazendo a nossa parte, o melhor que pudermos, a começar pelo combate às fake news e ao palavrório inconsequente de empresariados e políticos irresponsáveis que vivem em trabalho social de contínua desorientação. 

As falas desprovidas de conteúdo, que saem do Alvorada, são de “desintegração social”. Desinformam multidões, sob cumplicidade da equipe ministerial, que faz render os degraus dessa escadaria sem fim para as zonas de trevas, cena que se desenrola diante dos braços cruzados do procurador-geral da República, que parece ter os olhos de estátua: cegos.

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