Emir Sader avatar

Emir Sader

Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

1025 artigos

HOME > blog

A extrema direita do século XXI

O novo ciclo da extrema direita latino-americana desafia a esquerda a renovar sua estratégia política, analisa o sociólogo Emir Sader

Abelardo de la Espriella (Foto: Reuters)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

A América Latina, depois de ter sido vítima privilegiada do neoliberalismo na última década do século passado, como reação, passou a fazer deste século um século latino-americano. Por ser a única região do mundo com governos e líderes anti-neoliberais.

De repente, foram se acumulando presidentes de ultra direita no continente. Primeiro, Javier Mieli, na Argentina,Guillermo Noboa no Equador, Katz no Chile, Keiko Fukuyama, recém eleita no Perú, assim como Abelardo de la Espriella também recém eleito, surpreendentemente na Colômbia.

Que características tem essa nova corrente, por que ela surge e que perspectivas futuras tem para o continente?

Há casos bem diferentes. Javier Milei, eleito e vencedor da eleição de meio mandato, vai chegando ao final do seu mandato com um apoio muito pequeno e a provável derrota para o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, no final do próximo ano.

Da mesma forma que, apesar de estar ainda no começo do seu governo, o presidente do Chile, José Antonio Kast, já apresenta um desempenho ruim, com a consequente perda de apoio popular, apontando para a reiteração da sucessão reiterada entre direita e esquerda, característica política do País.

Mas os novos eleitos representam, inquestionavelmente, uma renovação e reforço da extrema direita na América Latina. Que surgem com grande ímpeto, derrotando a esquerda, inclusive em um País como a Colômbia, em que havia tido um governo de sucesso e de apoio popular, como o de Petro. No caso do Perú, é a vitória de uma candidata que representa a continuidade do governo do seu pai, depois de quatro derrotas.

Em todos os casos, os governantes enfrentam uma grande dificuldade: o fato de que o neoliberalismo fracassou, de que não há nenhum governo no continente – ou mesmo fora dele -, que adotem programas neoliberais e tenham sucesso.

Essa nova corrente busca mudar a agenda, deslocando-o da esfera econômica para a da questão da violência e da segurança pública. Mas as dificuldades que inevitavelmente terão que enfrentar estão dadas já no fracasso dos governos de Javier Milei e Kast, por não ter solução para a política econômica mais além dos programas neoliberais.

O sucesso dessa nova corrente estará dada na sua capacidade de manter como preocupação central das pessoas os temas de segurança e de violência. Depende de uma política de comunicação efetiva por parte deles.

De qualquer forma, se trata de um novo e grande desafio para a esquerda latino americana. Que tem demonstrado – com os casos do Brasil e do México como os mais evidentes -, capacidade para combater o fato de que seguimos sendo o continente mais desigual do mundo, mediante efetiva políticas sociais, com a recuperação da capacidade de ação do Estado, com resultados reais, seja no crescimento contínuo das economias desses países, seja no controle do desemprego e da inflação.

Como enfrentar essa nova corrente? Quais os temas centrais a serem enfrentados? Que tipo de solução alternativa, democrática, podemos propor?

 

 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados