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Reynaldo José Aragon Gonçalves

Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global. Editor do site codigoaberto.net

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A Guerra das Rotas e a pirataria dos fluxos

Como o controle da circulação virou a principal arma de poder no mundo multipolar

Navio petroleiro Bella-1/Marinera no Estreito de Cingapura - 18/03/2025 (Foto: Hakon Rimmereid via REUTERS)

Mísseis na Europa, petroleiros interceptados no Caribe e acordos comerciais sob pressão revelam o mesmo movimento histórico: a disputa pelo controle das rotas substituiu as guerras tradicionais. Entender essa transformação é decisivo para quem quer compreender o presente e antecipar o futuro.

Os fluxos como novo campo de batalha

Durante séculos, o poder foi medido pela posse da terra, pelo alcance das fronteiras e pela capacidade de ocupação territorial. No século XXI, essa métrica tornou-se insuficiente. O centro real da disputa deslocou-se para um plano menos visível, porém decisivo: os fluxos. Quem controla os fluxos de mercadorias, energia, capitais, dados e pessoas não precisa conquistar territórios. Basta condicionar o movimento, impor custos, modular riscos e decidir quem acessa o sistema e em que termos.

A guerra contemporânea já não começa com tanques atravessando fronteiras, mas com interrupções seletivas, exigências regulatórias, sanções financeiras, inspeções administrativas e interdições técnicas. O campo de batalha deixou de ser o espaço físico imediato e passou a ser o sistema que conecta produção, transporte, financiamento e consumo. O conflito incide sobre o ritmo, a previsibilidade e a continuidade. Um fluxo que desacelera, um trajeto que se torna incerto ou um custo que se eleva artificialmente produzem efeitos estratégicos comparáveis aos de uma derrota militar clássica.

Esse deslocamento não é fruto de inovação discursiva, mas de uma transformação objetiva da economia mundial. As cadeias globais tornaram-se longas, integradas, financeirizadas e extremamente sensíveis a choques. Nesse contexto, os fluxos deixaram de ser apenas meios de circulação econômica e passaram a constituir o próprio núcleo do poder. Interromper fluxos significa interromper produção, comprometer abastecimento, gerar inflação, desorganizar Estados e produzir instabilidade política sem disparar um único tiro.

É por isso que o controle dos fluxos se revelou mais eficaz do que a ocupação direta. A ocupação exige presença permanente, elevado custo político e desgaste prolongado. O controle dos fluxos, ao contrário, opera de forma difusa, contínua e, muitas vezes, invisível. Ele se apresenta como técnica, como regra, como aplicação neutra de procedimentos. Não precisa ser anunciado como guerra, nem mobilizar sociedades inteiras. Exige apenas capacidade operacional e poder para definir quais normas se impõem como universais.

Nesse regime, a soberania não é violada abruptamente; ela é erodida progressivamente. Cada nova exigência de compliance, cada restrição logística, cada barreira financeira desloca um fragmento de poder. Isoladamente, essas medidas parecem administrativas. Em conjunto, constroem um sistema de dependência estrutural. O Estado que perde o controle sobre seus fluxos perde, gradualmente, a capacidade de decidir sobre sua política econômica, energética e externa.

Os fluxos, portanto, deixaram de ser um elemento neutro da ordem internacional. Tornaram-se o principal terreno da disputa estratégica. É por meio deles que se define quem acessa mercados, quem pode diversificar parceiros, quem sustenta autonomia energética e quem permanece preso a corredores controlados por terceiros. A guerra dos fluxos não elimina os conflitos armados tradicionais; ela os antecede, os condiciona e, em muitos casos, os substitui.

Compreender essa transformação é indispensável para entender o mundo atual. Sem essa chave, os acontecimentos recentes parecem fragmentados e desconexos. Com ela, revelam-se como expressões distintas de um mesmo movimento histórico. A disputa pelos fluxos é o fio que organiza os conflitos do presente e antecipa as batalhas do futuro.

Do comércio à coerção: quando os fluxos viram armas

Durante boa parte do pós-Guerra Fria, consolidou-se a ilusão de que o comércio internacional funcionaria como espaço neutro de interdependência, capaz de reduzir conflitos e diluir rivalidades estratégicas. Essa leitura nunca foi inocente, mas hoje se mostra abertamente insustentável. O que está em curso não é a politização ocasional do comércio, e sim sua conversão estrutural em instrumento de coerção. Os fluxos deixaram de ser apenas meios de troca e passaram a operar como armas de poder.

Essa transformação não ocorreu de forma abrupta. Ela avançou por camadas, testando limites jurídicos, financeiros e operacionais. Primeiro vieram as sanções econômicas amplas. Depois, as sanções direcionadas. Em seguida, a extraterritorialização de normas domésticas, aplicada a terceiros que não participam do conflito original. Por fim, a etapa mais sensível: a interferência direta sobre os fluxos físicos, financeiros e logísticos, sob o argumento de segurança, legalidade ou combate a ilícitos. O comércio, nesse ponto, deixa de ser comércio. Torna-se coerção organizada.

A arma não é apenas o bloqueio formal, cada vez mais raro e politicamente custoso. A arma é a incerteza. É a elevação artificial do risco. É o encarecimento seletivo do seguro, do crédito, do transporte e do tempo. Um fluxo que continua existindo, mas sob ameaça constante, é mais eficaz do que um fluxo totalmente interrompido. Ele mantém a dependência enquanto impõe submissão. Essa lógica produz obediência sem necessidade de ocupação, bombardeio ou ruptura diplomática aberta.

O elemento central dessa mutação é a capacidade de transformar regras em força material. Normas técnicas, cláusulas contratuais, exigências regulatórias e certificações passam a funcionar como dispositivos de exclusão. Quem controla os centros emissores dessas regras controla, na prática, os fluxos globais. A coerção não se apresenta como violência, mas como procedimento. Não se declara como ataque, mas como aplicação de padrões. Essa é a forma contemporânea da dominação: elegante na superfície, brutal nos efeitos.

É nesse ponto que a noção de pirataria ganha novo significado. Não se trata da pirataria clássica, associada à ação de atores marginais à ordem internacional. Trata-se de uma pirataria sistêmica, exercida a partir do próprio núcleo do poder global. Quando fluxos são interceptados, redirecionados ou inviabilizados sem mandato multilateral legítimo, sob pretextos unilateralmente definidos, o que ocorre é a apropriação forçada de um espaço que deveria ser comum. A pirataria dos fluxos não desafia a ordem; ela se apresenta como a própria ordem.

Essa prática cria um precedente perigoso: o de que a força pode substituir o direito desde que se revista de linguagem técnica. Ao normalizar a coerção sobre fluxos, abre-se caminho para um mundo em que a previsibilidade econômica depende menos de contratos e mais da posição geopolítica de cada país. Estados que aceitam essa lógica internalizam limites invisíveis à sua soberania. Estados que a desafiam passam a operar sob risco permanente. Em ambos os casos, o equilíbrio se desloca em favor de quem detém capacidade de interdição.

A conversão dos fluxos em armas redefine o próprio conceito de guerra. O conflito deixa de ser episódico e passa a ser contínuo. Ele não se concentra em batalhas decisivas, mas em pressões acumulativas. O objetivo não é destruir o adversário, mas torná-lo funcionalmente dependente. Essa forma de guerra é mais silenciosa, mais difusa e, por isso mesmo, mais difícil de enfrentar. Ela se infiltra no cotidiano das economias, nas decisões empresariais e nas escolhas de política pública.

É a partir dessa chave que os acontecimentos recentes precisam ser lidos. Interceptações marítimas, disputas comerciais, ataques a infraestruturas críticas e pressões diplomáticas não são eventos isolados. São manifestações distintas de uma mesma estratégia: a instrumentalização dos fluxos como mecanismo central de poder. Entender essa transição é fundamental para compreender por que determinadas regiões se tornam laboratórios e por que outras despontam como próximas fronteiras da coerção.

O Caribe como laboratório da interdição

Nenhuma estratégia de poder se inaugura no centro do sistema. Ela nasce na periferia, testa limites, mede reações e só então se generaliza. É exatamente isso que está acontecendo no Caribe. O que ali se apresenta como ações pontuais de segurança marítima é, na prática, a instalação de um regime experimental de interdição de fluxos, conduzido sem declaração formal de guerra e sem autorização multilateral inequívoca. O Caribe não é um caso isolado. É um laboratório.

A escolha não é casual. Trata-se de uma região geograficamente sensível, composta por gargalos naturais, rotas históricas de energia e comércio, proximidade logística com o núcleo do poder hemisférico e baixa capacidade de reação coordenada por parte dos Estados diretamente afetados. É o ambiente ideal para testar uma nova doutrina de coerção: suficientemente relevante para produzir efeitos reais, suficientemente periférico para minimizar custos políticos globais.

Nos últimos meses, esse laboratório deixou de operar no campo da hipótese. Interceptações de petroleiros, reclassificações arbitrárias de embarcações, acusações de “frota sombra”, questionamentos seletivos de bandeira e pressões sobre seguradoras e bancos passaram a compor uma rotina. Nenhuma dessas ações, isoladamente, constitui um bloqueio clássico. Em conjunto, porém, produzem algo mais sofisticado: um sistema de autorização informal, no qual o direito de circular depende da aceitação prévia de regras impostas unilateralmente.

O elemento mais revelador desse processo não é a interdição em si, mas sua normalização discursiva. As ações são apresentadas como técnicas, administrativas, preventivas. Fala-se em combate a ilícitos, proteção ambiental, segurança regional. O vocabulário é cuidadosamente escolhido para afastar a noção de coerção. Contudo, os efeitos materiais são inequívocos. Navios deixam de navegar, contratos são suspensos, fluxos energéticos se tornam erráticos e o custo de operar fora do perímetro tolerado se eleva drasticamente.

Esse modelo é mais eficaz do que um bloqueio formal porque preserva a aparência de legalidade enquanto impõe disciplina. Ele não interrompe totalmente os fluxos; ele os torna condicionais. E a condicionalidade é o verdadeiro instrumento de poder. Quem precisa pedir permissão informal, ajustar rotas, renegociar seguros e aceitar riscos impostos perde autonomia sem que a soberania seja oficialmente revogada. É a captura gradual do espaço marítimo como instrumento político.

O Caribe, nesse sentido, cumpre dupla função. Internamente, serve para pressionar Estados específicos e redes comerciais associadas a eles. Externamente, funciona como sinal. A mensagem não é dirigida apenas aos alvos imediatos, mas a todos os atores que observam o sistema: este é o custo de operar fora da ordem imposta. O laboratório não visa apenas controlar; visa educar pelo exemplo.

Há ainda um aspecto estrutural mais profundo. Ao testar a interdição no Caribe, o poder que a executa avalia sua capacidade de sustentar operações prolongadas de controle de fluxos sem provocar rupturas diplomáticas significativas. Avalia a resiliência das cadeias logísticas alternativas. Avalia a disposição de outros polos de poder em assumir riscos para contornar a coerção. Cada navio interceptado é também um experimento político.

O que se constrói, pouco a pouco, é um precedente. Se a interdição seletiva se torna aceitável no Caribe, ela deixa de ser exceção e passa a ser método. E métodos, quando funcionam, não permanecem confinados. Eles se expandem. O laboratório caribenho antecipa um mundo em que a circulação marítima deixa de ser regida por princípios universais e passa a operar sob regimes regionais de força disfarçados de norma.

É por isso que o Caribe precisa ser lido não como teatro secundário, mas como ensaio geral. Ali se testa a pirataria dos fluxos em sua forma mais acabada: sem bandeira preta, sem canhões à vista, mas com poder suficiente para redesenhar rotas, condicionar soberanias e reorganizar o comércio global. O que ali se consolida não permanecerá ali.

A mensagem implícita do poder: quem controla os fluxos controla o hemisfério

Quando a interdição seletiva se torna rotina, ela deixa de ser apenas técnica operacional e passa a funcionar como linguagem política. O que está em jogo no Caribe não é apenas a capacidade de parar navios, mas a capacidade de comunicar uma ordem. Cada abordagem, cada reclassificação de embarcação, cada pressão indireta sobre seguros e financiamentos envia um recado inequívoco: os fluxos hemisféricos não são livres; eles são tolerados.

Essa é a forma contemporânea de afirmar soberania sem ocupação. Não se trata de reivindicar territórios, mas de reivindicar o direito de decidir quem pode circular, em que condições e sob quais custos. O hemisfério deixa de ser um espaço geográfico compartilhado e passa a operar como um perímetro funcional, onde a liberdade de movimento é substituída por um regime informal de autorização. A força não se exerce na fronteira; ela se exerce no trajeto.

A eficácia desse método reside na sua ambiguidade. Não há decreto solene nem ruptura explícita com a ordem internacional. As ações são fragmentadas, justificadas caso a caso, envoltas em linguagem técnica. No entanto, o efeito agregado é estrutural. A previsibilidade, elemento central de qualquer sistema econômico soberano, é corroída. O risco passa a ser distribuído politicamente. Operar fora do perímetro tolerado não é proibido, mas se torna progressivamente inviável.

Essa lógica produz um deslocamento profundo no equilíbrio de poder regional. Estados deixam de ser avaliados apenas por sua força militar ou peso econômico e passam a ser medidos pela sua posição dentro ou fora dos fluxos controlados. A integração deixa de ser escolha estratégica e passa a ser condição de sobrevivência econômica. O alinhamento não precisa ser declarado; ele é induzido pela dependência logística.

O discurso de segurança funciona como cobertura. Ao enquadrar a interdição como combate a ilícitos, proteção ambiental ou defesa regional, a coerção se naturaliza. Questioná-la passa a soar como defesa da desordem. Esse enquadramento não é acidental. Ele transforma um ato de força em procedimento administrativo e desloca o debate do campo político para o técnico, onde as assimetrias de poder se escondem com mais facilidade.

Há, nesse processo, uma inversão silenciosa do princípio que regeu o espaço marítimo moderno. O mar, historicamente tratado como espaço de circulação relativamente comum, passa a ser fragmentado em zonas de controle funcional. Não são zonas declaradas, mas zonas praticadas. Quem observa com atenção percebe que a soberania não está sendo ampliada territorialmente, mas verticalizada: ela desce sobre os fluxos, atravessa contratos, seguros, portos e bancos.

Essa verticalização do poder explica por que o laboratório caribenho tem alcance hemisférico. O objetivo não é apenas disciplinar um conjunto específico de rotas, mas estabelecer um padrão. Um padrão que possa ser replicado, expandido e, sobretudo, internalizado como normal. Quando isso ocorre, a coerção deixa de ser percebida como exceção e passa a ser aceita como parte do funcionamento do sistema.

O hemisfério, nesse contexto, não é controlado por ocupação nem por tratados formais, mas por uma arquitetura de dependência. Quem controla os fluxos controla as margens de escolha. Controla o tempo, o custo e o risco. Controla, em última instância, a capacidade de um Estado planejar seu futuro sem pedir licença.

Essa é a mensagem implícita do poder que se afirma hoje. Ela não precisa ser pronunciada em discursos. Ela se materializa no cotidiano das cadeias logísticas, nas decisões empresariais, nas planilhas de risco e nas negociações silenciosas entre portos, seguradoras e autoridades. É uma soberania que não se proclama; se exerce.

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* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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