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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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A guerra de Netanyahu como método: do sul de Gaza ao sul do Líbano

"Autoridades israelenses passaram a afirmar abertamente que estão aplicando no sul do Líbano o mesmo modelo utilizado em Gaza"

Benjamin Netanyahu em Jerusalém 5/1/2026 REUTERS/Ronen Zvulun (Foto: Ronen Zvulun)

A guerra no sul do Líbano entrou em uma nova fase — e não é apenas pela intensidade dos combates ou pelo número crescente de deslocados. O que se observa agora é algo mais grave: a consolidação de um padrão operacional que já havia sido testado em Gaza e que passa a ser explicitamente replicado sob o governo de Benjamin Netanyahu.

Não se trata apenas de uma escalada militar. Trata-se da institucionalização de uma forma específica de conduzir a guerra.

Relatos recentes, baseados em imagens de satélite, vídeos verificados e testemunhos de civis, mostram a destruição sistemática de cidades inteiras próximas à fronteira entre Israel e o Líbano. 

Vilarejos como Bint Jbeil, Houla e Aitaroun foram reduzidos a escombros. Infraestruturas essenciais — casas, escolas, hospitais, redes de energia e abastecimento de água — foram atingidas de forma extensa e, em muitos casos, irreversível. Imagens dessa destruição são objeto de matéria divulgada em 3 de maio pelo New York Times, de autoria de Samuel Gramados, Abdi Latif Dahir e Santana Varghese, intitulada: “Israel afirmou que está aplicando o modelo de Gaza no Líbano. Veja como ficou a devastação” (tradução livre).

O mais inquietante, no entanto, não está apenas na escala da devastação, mas na sua lógica.

Autoridades israelenses passaram a afirmar abertamente que estão aplicando no sul do Líbano o mesmo modelo utilizado em Gaza. Essa declaração, por si só, desloca o debate da esfera do “erro” ou do “excesso” para o terreno da estratégia deliberada.

O que está em curso não é uma sucessão de operações militares isoladas. É a aplicação de uma doutrina.

Essa doutrina se baseia em três pilares: destruição territorial em larga escala, deslocamento massivo da população e criação de zonas tampão inabitáveis. Ao transformar regiões inteiras em espaços inviáveis para a vida civil, o objetivo deixa de ser apenas neutralizar um adversário armado e passa a incluir a reconfiguração do território.

A justificativa apresentada é conhecida: combater o Hezbollah, que operaria a partir de áreas civis. Esse argumento, no entanto, entra em colapso diante da evidência empírica. Quando bairros inteiros são demolidos e sistemas básicos de sobrevivência são destruídos, já não se trata de atingir alvos militares específicos. Trata-se de atingir as condições de existência de uma população.

Esse ponto é central.

O direito internacional humanitário não proíbe apenas ataques indiscriminados. Ele proíbe a destruição de infraestrutura civil sem justificativa militar clara e proporcional. Quando esse desmantelamento se torna sistemático, como indicam os dados disponíveis, a linha entre operação militar e punição coletiva deixa de ser tênue — ela é ultrapassada.

Não por acaso, organizações como a Human Rights Watch têm sido diretas ao classificar esse tipo de prática como potencial crime de guerra.

Mas o padrão não se limita ao teatro de operações terrestres.

Ele se estende ao controle das condições de sobrevivência — inclusive por meio do bloqueio de ajuda humanitária. A recente interceptação, em águas internacionais, de uma flotilha civil que se dirigia à Faixa de Gaza expõe essa lógica com clareza.

Entre os detidos estava o ativista brasileiro Thiago Ávila, integrante da chamada Global Sumud Flotilla. Segundo relatos divulgados pela própria organização e por sua defesa, Ávila foi submetido a agressões físicas, mantido em isolamento e denunciou tratamento degradante durante sua detenção em território israelense. Há ainda informações de que teria iniciado greve de fome em protesto. Essas denúncias, se confirmadas, colocam o caso em um patamar ainda mais preocupante no que diz respeito ao respeito a direitos fundamentais de civis.

As autoridades israelenses não confirmaram as acusações específicas, limitando-se a afirmar que a interceptação ocorreu no contexto de atividades consideradas ilegais.

Ainda assim, o episódio é revelador.

Ele indica que a lógica da guerra ultrapassa o campo de batalha e se projeta sobre qualquer tentativa de romper o cerco humanitário. O controle não é apenas territorial — é também sobre fluxos de ajuda, circulação de pessoas e, em última instância, sobre a própria possibilidade de sobrevivência.

Esses episódios, quando analisados em conjunto, revelam coerência.

Não são eventos isolados. São expressões de uma mesma racionalidade.

E há um elemento ainda mais perturbador, que emerge das evidências empíricas.

Imagens comparativas indicam que áreas de maioria xiita — base social do Hezbollah — sofreram níveis de destruição significativamente maiores do que localidades vizinhas com outras composições religiosas. Se esse padrão se confirma, a guerra incorpora uma dimensão de seletividade que se aproxima perigosamente de uma lógica de punição coletiva com traços sectários.

Isso altera qualitativamente o conflito.

Não se trata mais apenas de um enfrentamento entre um Estado e uma organização armada. Trata-se de uma guerra que passa a operar sobre o tecido social e demográfico, reorganizando o território por meio da destruição.

A consequência mais imediata é o deslocamento em massa. Mais de um milhão de pessoas já foram forçadas a deixar suas casas no Líbano desde a retomada dos combates. Mas o dado mais relevante não é o número — é a ausência de horizonte de retorno.

A criação de “zonas tampão” ocupadas militarmente e a devastação das cidades tornam o deslocamento, na prática, permanente.

E é aqui que a comparação com Gaza se torna incontornável.

O que antes poderia ser interpretado como um caso extremo agora aparece como um modelo replicável. Um modelo que transforma a destruição em instrumento de controle territorial e político — e que se consolida sob a liderança de Netanyahu como uma estratégia de longo prazo.

Isso deveria provocar uma reação internacional imediata.

Mas não provoca.

O sistema internacional assiste, reage com declarações formais e segue incapaz de impor limites efetivos. O direito internacional é invocado, mas não aplicado. As denúncias se acumulam, mas não produzem consequências proporcionais.

Esse descompasso não é acidental. Ele reflete a assimetria de poder que estrutura a ordem internacional contemporânea. Normas existem — mas sua aplicação depende de quem as viola.

O resultado é a normalização progressiva de práticas que, até pouco tempo atrás, seriam amplamente reconhecidas como inaceitáveis.

E esse talvez seja o ponto mais grave de todos.

A guerra que se desenrola hoje não está apenas redefinindo o equilíbrio de forças no Oriente Médio. Ela está redefinindo os limites do que o mundo passa a tolerar como prática de guerra.

Quando a demolição de cidades inteiras deixa de ser exceção e passa a ser método, não estamos apenas diante de uma tragédia humanitária.

Estamos diante de um sistema internacional que escolhe — de forma cada vez menos disfarçada — o que está disposto a ignorar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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