A inovação tecnológica e a Era IA+ no 15º plano quinquenal chinês (2026-2030)
Plano quinquenal chinês prioriza inteligência artificial, inovação tecnológica e autossuficiência para sustentar crescimento econômico até 2030
A China usa o planejamento de curto, médio e longo prazos de uma forma que merece registro. Não se trata de um plano formal e burocrático, como a maior parte dos nossos planos, via de regra, muito sofisticados e pouco compreensíveis, sobre onde querem chegar e como pretendem alcançar os resultados.
Os planos quinquenais chineses percorrem um processo histórico que se iniciaram na década de 50. Nesse percurso os estudiosos do tema identificam que os planos chineses com periodicidade quizenal tiveram fases ou etapas de desenvolvimento. O 15º PQC pertence à quarta fase.
É importante destacar que os planos quinquenais chineses estão cada vez mais simples, fáceis de serem interpretados, claros e indicando com nitidez as prioridades e qual (is) será (ão) o(s) “motor(es)” para torná-los viáveis e reais no prazo definido.
Assim, resolvi fazer uma leitura en-passant sobre esse último plano quinquenal chinês (15º PQC: 2026-2023), lançado neste mês de março e que tem como meta econômica, um crescimento do PIB entre 4,5% e 5%, já para este ano de 2026. Para não me estender e por considerar que já há outras boas análises sobre o 15º PQC [1], direcionei o foco das observações (também por conta de meus interesses de pesquisa) para as inovações que têm relação com a tecnologia e com a cadeia da economia digital incluindo a Inteligência Artificial (IA).
As diretrizes gerais deste 15º PQC estão na autossuficiência tecnológica, inovação industrial, transição energética, aumento do consumo interno e bem-estar social. Assim, os chineses pretendem superar o que ainda resta de dependência tecnológica, focando em especial na tecnologia avançada de “microprocessadores e da Inteligência Artificial”, áreas em que já vem conquistando bons resultados. Assim, agora, o eixo passou a ser a promoção de “novas forças produtivas” a partir da IA, computação quântica, 6G e veículos elétricos (VE).
A diferença da China e EUA na direção da inovação e da IA
O PQC (2026-2030) propõe o que chama de “arquitetura das novas forças produtivas” e um crescimento com alta qualidade. Destaco os itens: “China digital, tecnologia quântica e Era IA+” com investimentos em: interface cérebro-máquina e chips neurais dedicados (telepatia); IA corporificada; uso em alta escala de robôs humanoides semiautônomos, algoritmos de decodificação de sinais, banco de dados linguísticos etc.[2]
O PQC (2026-2023) já parte da premissa da Inteligência Artificial (IA) considerada como fator de produção (junto com terra, trabalho e capital) com uso de chips (microprocessadores) de alta performance mais as infraestruturas de governança de dados que incluem Bolsas de pacotes de dados, uso de telecomunicações com infraestrutura digital de redes, capacidade de computação, datacenters (nuvem) e constelação de satélites em órbita baixa.
Como base para a “mudança de paradigma e infraestrutura para a Era IA+” o PQC lista três direções: Rede Nacional de Dados “confiáveis”; Integração do Poder Computacional com clusters gigantes de inteligência computacional integrado à rede de energia verde; Inovação algorítmica com arquiteturas de grandes modelos universais e setoriais, atuando em paralelo, mas focando cenários de alto valor.
Os planos e modelos chineses para a cadeia (força) produtiva da Economia Digital, incluindo a IA, diferem bastante dos EUA. No caso americano as orientações se orientam e se sustentam nas decisões das grandes corporações de tecnologia (Big Techs) e no mercado de capitais (ou capital de risco) que refletem o controle e a hegemonia financeira via mercado.
PQC como inovação de gestão, financiamento estatal e participação privada com orientação para a economia real, bem-estar da sociedade e IA como utilidade pública
Enquanto isso, o plano chinês, se calça no planejamento e no financiamento estatal (articulados nos três níveis) que também tem participação expressiva de companhias privadas, mas seguindo o plano governamental (PQC). Além disso, o mais importante é que o plano chinês se orienta para a materialidade da economia real das forças produtivas da indústria, consumo e os serviços de toda a natureza, incluindo o bem-estar da sociedade com ensino de qualidade, saúde e diagnóstico e cuidado de idosos.
O avanço para a AGI ou IA de propósito geral (Era IA+) e da infraestrutura de dados chineses, não se circunscreve à imbricação e aos interesses do rentismo do Big Money de Wall Street que, atualmente, são os primeiros e maiores usufrutuários dos avanços da digitalização e da plataformização que, sob a racionalidade neoliberal foca, quase exclusivamente, nos ganhos de produtividade e na prescindibilidade humana com substituição da força de trabalho.
Além dessa distinção, para viabilizar os objetivos da China, o PQC fala em “inovação do Estado” com formação de vanguarda de seus recursos humanos, da pesquisa básica de alto risco e da formação de talentos com financiamento de longo prazo, articulação de forças estratégicas entre universidades e infraestruturas, a constituição de consórcio de inovação com empresas líderes de tecnologia e com a integração com as PMEs entre outras ações.
O 15º PQC fala ainda em ampliação da “exploração de profundidade” tanto na terra, quanto no mar e ar (estação espacial lunar, extração e mineração em águas profundas e perfuração oceânica) o que expõe um processo preocupante de expansão do extrativismo.
Na prática, esse ponto do plano traz contradições com os projetos de eletrificação que surgem com a chamada transição energética e verde que apresentava como horizonte a substituição paulatina da matriz energética e também para dar conta do aumento do consumo de energia que produz os efeitos nocivos e já conhecidos sobre o clima no planeta. O plano mostra como o discurso de superação das fontes fósseis pelos renováveis parecem ainda muito distantes, em cheque e em choque em todo o planeta.
Há ainda várias outras observações instigantes no 15º PQC (2026-2030), tanto nos aspectos da inovação, economia digital e IA quanto nas outras questões envolvendo a “nova matriz industrial” (otimização da base industrial tradicional); a “expansão da escala da indústria emergente” (polos de baterias de nova geração, aviação comercial, biomanufatura e veículos inteligentes), quanto a “incubação do amanhã com a indústria do futuro” (avanço nas pesquisas sobre fusão nuclear, interface cérebro-máquina e IA corporificada).
Porém, o objetivo deste texto foi o de contribuir trazendo uma síntese sobre a direção que os chineses planejam e já executam no período até o ano 2030. Assim, vale destacar como os chineses enxergam a infraestrutura digital (microprocessadores, capacidade computacional, redes e data centers) como base para a IA, AGI (ou Era IA+) para as novas forças produtivas. Na contraparte, o plano parte o 15º PQC parece se ancorar na ideia da IA vista também como “infraestrutura de utilidade pública” de um todo que seria o “Sistema Operacional Nacional”.
Referências:
[1] Um bom histórico sobre os planos quinquenais chineses e também boa análise geral sobre o 15º PQC foi feita por José Renato Peneluppi para revista Focus da Fundação Perseu Abramo, em 24 mar. 2026. Disponível em: https://fpabramo.org.br/o-novo-plano-quinquenal-da-china-por-jose-renato-peneluppi-junior/
[2] A China já é o maior produtor mundial de robôs industriais, ultrapassando países como Alemanha e Japão.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



