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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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Os cães, a Terra plana, as terras raras e o entreguismo da família Bolsonaro

“É difícil explicar a importância estratégica das terras raras para quem acha que a Terra não é redonda”, escreve Moisés Mendes

Os cães, a Terra plana, as terras raras e o entreguismo da família Bolsonaro (Foto: Reprodução)

O vídeo feito por drone na semana passada, com imagens da casa de Bolsonaro, pode ter produzido efeito contrário ao esperado pelos que o planejaram. Mas não para os que consideram Bolsonaro amigo dos cães, mesmo que a imagem mostre que os animais o evitam.

Um terço dos brasileiros ainda idolatra Bolsonaro. Imaginemos que esse um terço enxergue o presidiário, no retorno à casa na sexta-feira, interagindo com os cães, mesmo que ele não consiga tocá-los. 

Esse um terço vê o que deseja ver. Assim como um terço dos brasileiros não acredita que o homem tenha ido à Lua, como mostra pesquisa do Datafolha nessa segunda-feira.

Os que têm certeza de que Bolsonaro é amigo dos cães são dos mesmos grupos e das suas variações que desconfiam das vacinas, que acreditam que a Terra não é redonda e que as urnas eletrônicas são violáveis.

Não há muito o que fazer com esses contingentes dos que creem no que não veem e não acreditam no que já viram e continuam vendo. Também não há como forçar um enquadramento de todos esses grupos em compartimentos políticos e/ou ideológicos. 

Mesmo que essas certezas se alastrem na extrema direita, entre líderes, quadros intermediários e base social, não há como cobrar a submissão do povo a evidências e provas científicas sob a imposição iluminista dos que tudo sabem. A extrema direita se esforça para politizar toda forma de ignorância.

O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance diz ter obsessão por OVNIs e desconfia que luzes inexplicáveis vistas no céu são demônios vagando no espaço. Quem vai exigir que pessoas comuns, sem a  sabedoria e o poder de J.D. Vance, tenham certeza de que o homem foi à Lua?

É nesse ambiente negacionista e de desprezo pela realidade que se debate o estrago que Flávio Bolsonaro pode ter provocado entre quem ainda vê sentido na defesa do que chamam de soberania nacional.

Flávio afirmou o seguinte, ao discursar na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), no Texas: “O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos”.

É uma fala entreguista. Mas quem, entre quem vê demônios no céu (e ao mesmo tempo tenta conversar com marcianos que possam ajudar no golpe), que desconfia das vacinas, que teme as urnas – quem entre essa gente sabe o que Flávio prometeu aos americanos?

Quem vai saber direito o que isso significa, se até o inverno passado só 1% dos brasileiros sabia com certeza o que são terras raras? Quem vai tentar explicar?

Terras férteis do noroeste gaúcho produzem com pioneirismo a soja que os chineses compram há décadas. Os chineses ficam com 70% das exportações brasileiras de soja. Sem a China, não haveria lavoura intensiva e empresarial de exportação de grãos no Brasil. 

Mas os agricultores exportadores acreditam que a China é inimiga deles, e que os americanos que fazem guerra – e criam barreiras para a importação do adubo que eles usam nas terras – são seus amigos. Porque um dia os chineses podem tomar suas terras onde plantam soja.

As terras de minerais raros não têm nenhum sentido para essa gente, nem para todos os que não acreditam ou não sabem direito se o homem foi à Lua e que somam 42% dos brasileiros.

Não há como cobrar discernimento de quem vê quatro cães interagindo com Bolsonaro, numa cena em que os cães fogem do dono da casa, que estava naquele momento voltando da cadeia. 

Os números assustam até os cães. A Terra é plana para 8% dos brasileiros, 25% têm medo de se vacinar e vacinar os filhos contra doenças que existem desde a Idade Média e 43% desconfiam das urnas eletrônicas.

E estamos debatendo se Neymar deve ou não ser convocado para a Copa. E se Flávio pode ser um extremista moderado, como imaginavam que Tarcísio de Freitas viria a ser. O brasileiro que não acredita em Terra redonda e em viagem à Lua pode acreditar em escorpião sem rabo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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