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Oliveiros Marques

Sociólogo pela Universidade de Brasília, onde também cursou disciplinas do mestrado em Sociologia Política. Atuou por 18 anos como assessor junto ao Congresso Nacional. Publicitário e associado ao Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (CAMP), realizou dezenas de campanhas no Brasil para prefeituras, governos estaduais, Senado e casas legislativas

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A jornada da roubalheira no INSS: tudo começou com Bolsonaro

O que hoje se revela como uma verdadeira “máfia do INSS” ganhou força justamente a partir de mudanças promovidas durante o governo de Jair Bolsonaro

Jair Bolsonaro, escurecido na foto - 30/07/2021 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Assisti à entrevista do deputado Paulo Pimenta (PT/RS) que detalhou pormenorizadamente a cronologia do escândalo do INSS. A partir do que foi provado na CPMI, não resta outra conclusão: não se tratou apenas de mais um caso de corrupção, mas sim de decisões políticas concretas e um ambiente institucional que foi construído para permitir que a fraude se tornasse sistêmica.

Segundo o deputado, o que hoje se revela como uma verdadeira “máfia do INSS” ganhou força justamente a partir de mudanças promovidas durante o governo de Jair Bolsonaro. Não foi um acaso. Foi resultado direto de escolhas. Foi método.

Entre 2019 e 2022, medidas aparentemente técnicas alteraram profundamente os mecanismos de controle sobre descontos realizados diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas. A principal delas foi o fim da exigência de revalidação periódica das autorizações para descontos associativos. Na prática, abriu-se uma brecha perigosa: uma vez autorizado - muitas vezes de forma fraudulenta -, o desconto poderia seguir indefinidamente, sem qualquer conferência.

Esse detalhe burocrático, que poderia passar despercebido ao grande público, funcionou como combustível para o esquema. Entidades passaram a operar com liberdade quase total, e milhões de brasileiros, sobretudo idosos, se tornaram alvos fáceis. Muitos sequer sabiam que estavam sendo lesados mês após mês.

Mas não foi só isso. O período do governo Bolsonaro também foi marcado por um enfraquecimento dos mecanismos de fiscalização e por uma expansão pouco criteriosa de convênios com entidades privadas. Em vez de reforçar controles, o sistema foi sendo flexibilizado. Em vez de proteger o beneficiário, criou-se um ambiente onde o risco recaía justamente sobre quem deveria ser mais protegido.

A fala de Paulo Pimenta ajuda a dar nome ao que aconteceu: não foi apenas falha de gestão, foi a criação de condições objetivas para que a fraude prosperasse. Quando se retiram travas institucionais, alguém ocupa esse espaço - e, nesse caso, foram organizações que operaram à margem da legalidade.

É importante deixar claro: esquemas de corrupção não surgem do nada. Eles precisam de oportunidade, de brechas legais e, muitas vezes, de omissão e cumplicidade. O que se viu naquele período foi a combinação desses elementos.

Hoje, com investigações avançando e o tema ganhando visibilidade, há uma disputa narrativa em curso. Os verdadeiros responsáveis, os bolsonaristas, tentam tratar o escândalo como algo difuso, sem origem definida. Mas os fatos indicam o contrário: houve um momento em que as porteiras foram abertas.

Dizer que “tudo começou com o Bolsonaro” é, portanto, mais do que uma provocação. É uma forma de situar claramente o início de um ciclo em que decisões políticas fragilizaram o sistema e permitiram que bilhões fossem desviados de quem mais precisava. A jornada da roubalheira no INSS não começou agora. Ela começou quando desmontaram as proteções - e transformaram a exceção em regra.

E isso não pode ser apagado da memória. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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