Washington Araújo avatar

Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

417 artigos

HOME > blog

A mesquita, o silêncio e o desafio de Leão XIV

Na Grande Mesquita de Argel, o Papa Leão XIV reabre o debate sobre diálogo inter-religioso, enfrentando críticas internas e propondo pontes

Papa Leão XIV na Argélia (Foto: REUTERS/Guglielmo Mangiapane)

A cena não foi desenhada para aplausos fáceis. Em 13 de abril de 2026, o Papa Leão XIV atravessou a soleira da Grande Mesquita de Argel sem sapatos e sem discurso. Permaneceu em silêncio por quase dez minutos ao lado do imã. Não há como subestimar a potência política de um gesto assim num tempo em que palavras demais encobrem a ausência de sentido.

Nascido em Chicago, primeiro papa dos Estados Unidos e primeiro agostiniano a ocupar o trono de São Pedro, Leão XIV chegou a Argel como parte de uma viagem de 11 dias por quatro países africanos. Escolheu a terceira maior mesquita do mundo para inaugurar, de forma inequívoca, o tom de seu pontificado. Não se tratou de cortesia protocolar. Foi uma tomada de posição.

No voo de volta, ao comentar o episódio, o pontífice afirmou que cristãos e muçulmanos podem coexistir de maneira concreta, citando Argélia e Líbano como exemplos imperfeitos, porém reais. Pediu aos católicos menos medo do Islã e mais disposição para compreendê-lo. Não é a primeira vez. Desde o início do pontificado, Leão XIV vem insistindo que o século XXI não comporta religiões entrincheiradas.

Em pronunciamento recente na Organização das Nações Unidas, foi além. Criticou o “capitalismo que exclui” e também formas de “coletivismo que esmagam a dignidade humana”, recusando rótulos simplistas sobre comunismo. Ao abordar a escalada no Oriente Médio, citou Israel e Irã, defendendo cessar-fogo imediato e uma arquitetura de segurança que inclua líderes religiosos como mediadores ativos. Não é retórica vazia. É uma tentativa de devolver à fé um papel civilizatório.

Nem todos acolhem esse caminho. Setores conservadores da Igreja acusam o papa de diluir diferenças doutrinárias profundas. Temem que a ênfase no diálogo funcione como verniz sobre conflitos históricos. A crítica merece ser ouvida, mas revela também o impasse de uma instituição que precisa falar ao mundo sem perder a si mesma.

O que me chama a atenção, contudo, não é a divergência previsível. É o contraste brutal entre o silêncio de Argel e o barulho incessante que domina a vida contemporânea. Vivemos imersos em uma sucessão de ruídos — informacionais, ideológicos, emocionais — que nos empurram para reações rápidas e superficiais. Nesse ambiente, o silêncio torna-se quase subversivo.

Há algo de profundamente humano — e também profundamente espiritual — em parar, retirar os sapatos e reconhecer o sagrado no espaço do outro. 

Esse gesto, mais do que qualquer discurso, questiona a lógica de confronto permanente que tem marcado a política internacional e as relações entre crenças.

Talvez o ponto central esteja aqui: não se trata de apagar diferenças, mas de recusar que elas sejam usadas como combustível para a separação. Em um mundo que insiste em erguer muros, Leão XIV aposta em pontes. Em uma era de certezas agressivas, ele sugere reflexão e escuta.

Insisto: o planeta não precisa de mais vozes competindo por atenção. Precisa de mais silêncio carregado de sentido. Precisa de menos medo do outro e mais curiosidade. De menos caricaturas e mais encontro.

Ao final, o gesto em Argel não permite leitura morna. Ele incomoda — e precisa incomodar. A humanidade segue sendo uma só, embora fragmentada por fronteiras, interesses e crenças que, muitas vezes, mais separam do que iluminam. E Deus, qualquer que seja o nome que cada tradição lhe dê, não pode continuar tratado como propriedade exclusiva, como se o sagrado tivesse dono, fronteira ou passaporte.

Quando o Papa Leão XIV entra descalço na Grande Mesquita de Argel e permanece ali, em silêncio, ele não encerra conflitos nem dissolve séculos de tensão. Mas faz algo que poucos líderes ousam: aponta, sem rodeios, para o esgotamento desse mundo barulhento, ansioso e incapaz de escutar. O excesso de voz tem produzido escassez de sentido.

Não existe hoje tarefa mais urgente do que promover a unificação do gênero humano. E aqui não há espaço para ambiguidade: Deus é um. As religiões são uma — porque todas, em sua essência, voltam-se ao mesmo Deus, ainda que o nomeiem de formas distintas. E a humanidade é uma. Simples assim. O resto — as divisões, os muros, os preconceitos — é construção nossa. E, sendo construção, pode e deve ser desfeita.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados