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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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A noite dos generais

Preparativos finais para o desfile de 7 de Setembro, na Esplanada dos Minist鲩os. (Foto: © Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Acordei aquele dia com um som diferente em meus ouvidos: um toque de clarim. Sinal de que era preciso me apressar. 

Como sempre faço, ao preparar o desjejum, liguei o radinho para saber das notícias. A emissora que costumo sintonizar estava fora do ar. O mesmo prefixo curiosamente transmitia a Caserna News: notícias sobre o cotidiano dos quartéis, promoções de oficiais, hinos marciais executados por bandas militares. Achei curioso e fiquei ouvindo enquanto mastigava as torradas chamuscadas.

Dispus as louças na pia, me vesti, escovei os dentes, e parti. No elevador cumprimentei o major e sua esposa coronela, do apartamento 64. O Uber verde-oliva, camuflado, com o soldado ao volante, já me aguardava na calçada. 

O milico perguntou se eu gostaria de ler algo durante o trajeto. Ofereceu-me a Folha Bélica. Mais fatos sobre tropas e aquartelamentos
O trânsito na zona oeste estava lento como um jabuti manco. O reco, consultando o Waze, me revelou que havia um desfile das Forças Armadas na Queiroz Filho. Estava tudo entupido por causa da infantaria, tanques e lança-mísseis.
Quando ele disse “tanques” houve um estouro no ar que feriu meus tímpanos. Eram os caças Gripen, passando, na velocidade do som, sobre nossas cabeças.
Com um certo atraso entrei no shopping General Médici. Antes de ir para a firma decidi comprar o presente de aniversário da esposa. Não devemos deixar para depois os compromissos conjugais.

Dei uma boa olhada nas lojas de armamentos, munições e trajes militares. Acabei escolhendo um coturno em promoção.

Como o escritório não ficava longe dali, optei por ir a pé. 

O dia estava bonito e nada como uma pequena caminhada para ativar a circulação. 

Passei em frente ao Cine Ustra e anotei mentalmente os longas em exibição: Senta a Pua e Nada de novo no front- 4. Podia ser um belo programa para se fazer com as crianças no fim de semana.
Continuei a marcha acelerada e logo se apresentou a fome matinal. Achei por bem comer algo antes de pegar as tarefas do dia. Atravessei a rua e entrei na Padaria Delegado Fleury. Sentei-me no balcão e logo fui atendido por um recruta.
- O que vai? – perguntou ele fazendo continência.
- Um bife de tira no pão.

- Pra já!

Fiz meu lanchinho e sai. 

Foi um daqueles dias na empresa em que se passa enrolando. Quando bateu cinco horas, pousei o lápis na mesa e corri para casa. Por sorte consegui um assento no caminhão do quartel de Quitaúna que passa em frente ao meu prédio. 

À noite, cantei parabéns para a cara-metade, em meio a cachorros-quentes e refrigerantes. Depois, ela abriu o presente e, para meu alívio, adorou o coturno. Assistimos a série Band of Brothers abraçadinhos na cama. Em pouco tempo, eu dormia a sono solto.

Cedinho, descobri que meu dia anterior, em meio a barricadas e trincheiras, tinha sido um sonho. Inclusive, o clarim que ouvi era o do filho do vizinho ensaiando para tocar na banda da escola cívico-militar.

É como dizia o Stanislaw: comer salsicha à noite só serve para provocar indigestão e pesadelos.

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