Bia Willcox avatar

Bia Willcox

Bia Willcox é advogada, jornalista e pesquisadora nas áreas de Empreendedorismo, Inovação e Marketing. Atua como mentora de negócios e escreve sobre os impactos da hiperconectividade, da inteligência artificial e das tecnologias emergentes nas relações humanas e no futuro da sociedade.

78 artigos

HOME > blog

A nova corrida do ouro ou Token Maxxing

"Tenho a sensação de que estamos vivendo nova corrida tecnológica e, dessa vez, em velocidades impossíveis de nós, seres humanos, acompanharmos com sanidade"

A nova corrida do ouro ou Token Maxxing (Foto: Imagem gerada por IA)

Recentemente, vi um vídeo do empreendedor Bernardo Precht no Instagram descrevendo o que ele chamou de "surto coletivo" no Vale do Silício. A observação dele ao tentar achar uma mesa em um dos inúmeros cafés de Palo Alto e se deparar com todos lotados de pessoas imersas na criação de soluções com Inteligência Artificial (IA) confirmou o que já vinha percebendo há algum tempo.

Tenho a sensação de que estamos vivendo uma nova corrida tecnológica e, dessa vez, em velocidades impossíveis de nós, seres humanos, acompanharmos com sanidade. É necessário um debate sério sobre a intensidade e as consequências desse frenesi com a IA. É a sensação do brinquedo novo, do videogame novo, do violão novo que tínhamos nos primeiros tempos depois de ganhá-los, mas não está passando e isso vem me assustando.

Vivemos (e eu me incluo nisso) um embevecimento com o que podemos fazer com IA. Este fenômeno, que já chamam de "bolha da IA", levanta questões importantes sobre a produtividade, a saúde mental e o futuro do trabalho em tempos de Claude, Manus, Gemini, Chat GPT e tantos outros.

Trata-se de uma nova corrida do ouro, tal qual a de Ouro Preto no século XVII, onde a descoberta de pepitas acessíveis transformou a lógica de enriquecimento.

Vivemos algo parecido com os tokens das IAs. As Large Language Models (LLMs) e outras ferramentas de IA democratizaram a criação de aplicações e soluções complexas, antes restritas a especialistas ou grandes investimentos. Essa facilidade de acesso gerou a percepção de que qualquer um pode, com prompts e tokens, desenvolver o próximo "unicórnio".

E assim nasce a expressão "token maxxing", que descreve a prática de maximizar o uso dos tokens de IA disponíveis, seja para desenvolver novas soluções ou para demonstrar produtividade no ambiente corporativo.

As IAs chegaram prometendo uma produtividade exponencial, onde tarefas que antes levariam semanas podem ser concluídas em horas. No entanto, essa busca incessante por otimização e inovação tem um lado sombrio e você que me lê deve saber qual é. No fundo, no fundo, todos nós sabemos.

A intensa pressão para se manter relevante e produtivo em um cenário de rápida evolução tecnológica tem gerado uma série de impactos negativos na saúde mental dos profissionais. Gi Blanco, em seu artigo "Eu já sofro com a ansiedade de IA. E você?", descreve a "ansiedade de IA" como uma sensação constante de que é preciso fazer mais, muitas vezes roubando o sono e a tranquilidade. Ela categoriza essa ansiedade em diferentes síndromes:

  • AI-Induced FOMO (Fear Of Missing Out): O medo de que, ao descansar, um novo modelo de IA surja e torne o projeto atual obsoleto. A ansiedade de "ficar para trás" em um campo que se atualiza semanalmente.
  • Productivity Dysmorphia: A incapacidade de considerar a própria produção como "suficiente". Com a IA permitindo a conclusão de tarefas em uma fração do tempo anterior, a régua da produtividade se eleva constantemente, gerando uma sensação de dívida permanente.
  • The Infinite Horizon Syndrome: A remoção da fricção técnica pela IA abre um leque infinito de possibilidades de construção, mas o tempo se torna o novo gargalo. Empreendedores e profissionais se veem paralisados ou exaustos tentando realizar todas as ideias.
  • AI-Acceleration Anxiety: O estresse causado pela velocidade vertiginosa do desenvolvimento da IA, comparado a uma esteira que acelera constantemente, exigindo um ritmo ligeiramente acima da capacidade humana.
  • Prompt Burnout: A exaustão mental resultante do ciclo contínuo de iteração, depuração e lançamento em alta velocidade, onde a carga cognitiva de gerenciar múltiplos agentes e outputs leva ao esgotamento.

Esses sintomas são corroborados por pesquisas que indicam que a IA, ao invés de reduzir o trabalho, o intensifica. Um estudo global revelou que 77% dos profissionais relatam que a IA aumentou sua carga de trabalho e prejudicou a produtividade. A pressão por produtividade e a incerteza em relação ao futuro do emprego são fatores que contribuem para o aumento dos casos de ansiedade e burnout, com o Brasil registrando um recorde de afastamentos por saúde mental em 2025.

Quero falar sobre a bolha.

O rápido crescimento e a valorização estratosférica de empresas de IA têm levantado preocupações sobre a formação de uma "bolha" especulativa, frequentemente comparada à bolha das pontocom no início dos anos 2000. Investimentos em IA devem atingir trilhões de dólares, mas o retorno financeiro ainda é incerto para muitas dessas empresas. Analistas e investidores no Vale do Silício debatem a supervalorização das companhias de IA, com alguns temendo que a bolha esteja prestes a estourar.

Eu humildemente aposto, aqui e agora, que não haverá um estouro abrupto da IA e sim um esvaziar ou murchar da bolha.

Cá entre nós, a inteligência artificial vem demonstrando uma inegável e impressionante capacidade de realizar tarefas com rapidez e precisão, mas dados recentes indicam que o investimento em IA por algumas empresas não resultou no aumento esperado da produtividade, na economia de custos ou em inovação significativa. Pelo contrário, a IA tem, em muitos casos, intensificado a carga de trabalho e a exigência sobre os profissionais.

Um estudo global do Upwork Research Institute revelou que, enquanto 96% dos executivos esperavam um aumento de produtividade com a IA, 77% dos funcionários relataram um aumento na carga de trabalho e desafios para atingir as metas. Quase metade (47%) dos colaboradores que utilizam IA admite não saber como alcançar as metas de produtividade esperadas, e 40% sentem que as demandas são irrazoáveis. Essa desconexão já leva um terço dos funcionários a considerar deixar seus empregos nos próximos seis meses devido à sobrecarga e ao burnout.

A IA é incrível e me lembra o eterno bordão de quem viveu os incríveis e politicamente incorretos Cassetas quando diziam sobre as Organizações Tabajara: "seus problemas acabaram".

Sim, muitos acabaram ou diminuíram bastante com o seu uso quase mágico. Porém, há uma verdade real que assombra o ambiente corporativo: o mercado inflou a expectativa de que a IA faria o trabalho sozinha, mas a realidade mostra que ela está gerando um "retrabalho" de supervisão e uma pressão humana insustentável.

Portanto, a bolha pode já estar murchando.

O dado de que 77% dos funcionários sentem mais carga de trabalho é o "prego no caixão" da ideia de que a IA é uma solução mágica de economia imediata. Eles são a prova estatística do "surto coletivo" que o Bernardo Precht observou visualmente nos cafés do Vale do Silício.

Essa realidade reforça a tese de que a ferramenta, por mais avançada que seja, não elimina a exigência de que os humanos supervisionem, corrijam e aperfeiçoem seus resultados. O ser humano permanece uma parte fundamental e insubstituível em todos os processos de construção e inovação. E não poderia ser diferente.

Isso sem falar na dopamina viciante que a adicção em criar infinitamente gera.

É um loop.

Além dos muitos desafios de produtividade e de se manter a saúde mental, emerge agora um comportamento novo que se assemelha à dinâmica dos videogames: a adicção à geração de conteúdo por IA.

O processo de "vibe coding" ou de criação de imagens e vídeos através de prompts opera sob o princípio neurológico da recompensa variável. Cada clique no botão "gerar" é comparável a puxar a alavanca de um caça-níqueis, dependendo de quem clica.

O cérebro entra em um estado de antecipação por um resultado que não pode prever totalmente, liberando doses de dopamina a cada nova iteração.

E isso por si só merece o nosso olhar atento.

A transição para "agentes" de IA no Vale do Silício promete eficiência e redução de custos, mas também amplia inseguranças sobre o deslocamento de trabalhadores. Ainda assim, a automação não elimina a centralidade humana: reforça a necessidade de orientar, validar e contextualizar os resultados da IA. Nesse sentido, uma possível "deflação" da bolha indicaria menos o fracasso da tecnologia e mais um ajuste de expectativas sobre seu uso em colaboração com o julgamento e a criatividade humanos.

Para fechar, a febre da Inteligência Artificial no Vale do Silício é um fenômeno complexo, com promessas de inovação e produtividade sem precedentes, mas também com desafios significativos para a saúde mental e o mercado de trabalho. A "corrida do ouro" da IA, impulsionada pelo "Token Maxxing", expõe profissionais a um ambiente de alta pressão, gerando ansiedade e burnout. Ao mesmo tempo, a discussão sobre a "bolha da IA" reflete a incerteza sobre a sustentabilidade desse ritmo frenético que se instalou não só no Vale.

É fundamental que, enquanto a tecnologia avança, haja uma reflexão profunda sobre o quanto ela impacta no ser humano. A IA tem o potencial de transformar positivamente a sociedade, mas tal transformação tem que caminhar de mãos dadas com o cuidado e o bem-estar dos indivíduos, além de uma abordagem ética e de sobrevivência do trabalho humano.

Se não formos parados de algum modo, coletivamente, estaremos arriscando não só o trabalho, mas também as relações interpessoais e a nossa saúde física e mental.

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Artigos Relacionados