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Bia Willcox

Bia Willcox é advogada, jornalista e pesquisadora nas áreas de Empreendedorismo, Inovação e Marketing. Atua como mentora de negócios e escreve sobre os impactos da hiperconectividade, da inteligência artificial e das tecnologias emergentes nas relações humanas e no futuro da sociedade.

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Quando o cinema vai perdendo seus muros

O resultado é paradoxal: as mesmas tecnologias que permitem a um criador solitário produzir um curta em casa também ampliam a escala visual das superproduções

Imagem criada por IA (Foto: Divulgação)

Fazer cinema sempre foi caro.

Caro em dinheiro, claro — mas também caro em acesso. Acesso às redes certas, aos produtores certos, aos editais certos, às pessoas capazes de abrir portas em um setor onde talento nem sempre basta.

Antes mesmo de contar uma história, era preciso atravessar uma sequência de exigências que pouco tinham a ver com imaginação e muito com infraestrutura.

Câmeras profissionais. Equipes numerosas. Equipamentos de luz e som. Ilhas de edição. Produtores dispostos a apostar em um projeto ainda invisível. Distribuidoras capazes de levá-lo ao público. Festivais que legitimassem aquela obra diante do circuito cultural. Críticos que ajudassem a explicá-la ao mundo.

Entre a ideia e a tela existia um sistema inteiro.

E esse sistema raramente era simples.

Em muitos países, como o Brasil, por exemplo, o caminho frequentemente passava (e passa) por outra etapa igualmente complexa: navegar pelas leis de incentivo, estruturar projetos de captação, convencer patrocinadores privados de que aquele filme — que ainda não existia — merecia investimento. Um trabalho que exige habilidade jurídica, relações institucionais e uma boa dose de persistência.

Antes da primeira cena ser filmada, boa parte da energia já havia sido consumida tentando viabilizar o próprio direito de filmar.

E só então — depois de todo esse percurso — o público.

Entre a ideia e a tela sempre existiu um longo funil industrial.

E ele nunca foi neutro.

A sétima arte, com toda a sua grandeza, também era uma economia de avaliações e permissões.

Não faltavam histórias — faltavam caminhos para que elas chegassem à tela.

O cinema, durante muito tempo, funcionou quase como um castelo cultural: imponente, fascinante — e cercado por muros altos.

E isso moldou muita coisa.

Moldou quem conseguia dirigir, quais histórias eram consideradas financiáveis e quais perspectivas ficavam de fora.

A inteligência artificial não reformou esse sistema.

Ela começou a derrubar os muros.

Hoje, ferramentas de geração de vídeo, síntese de voz, edição assistida por IA e criação automatizada de trilhas sonoras colocam na mão de qualquer pessoa com um computador e uma ideia o que antes exigia equipes de dezenas de profissionais e orçamentos milionários.

Não é figura de linguagem. É apenas a descrição técnica do que está acontecendo hoje.

O antigo funil industrial se abriu.

Isso tem consequências que vão muito além do “agora qualquer um pode fazer um filme”. Porque a questão nunca foi apenas fazer — foi quem podia fazer, sobre o quê, para quem e de onde.

O cinema foi, durante mais de um século, uma língua com um sotaque específico — sotaque de Hollywood, de grandes festivais europeus, de centros urbanos com acesso a financiamento.

A história do cinema é lindíssima e também brutalmente excludente.

A IA embaralha esse jogo com uma velocidade que ainda estamos tentando absorver.

Há quem esperneie, proteste e diga que o que não é feito do jeito de antes não tem valor. Eu costumo dizer que são os neoludistas da arte. Tudo bem. Faz parte do jogo.

O fato é que um artista em Belém do Pará com uma história para contar não precisa mais aguardar que um produtor do eixo Rio–São Paulo decida se aquela narrativa tem potencial de mercado ou não. Uma cineasta na Tanzânia não precisa cruzar o Atlântico para acessar ferramentas que antes só existiam em pós-produções de Los Angeles. Uma jovem de 19 anos, sem verba, sem contatos e sem currículo, pode hoje construir uma narrativa visual que compete tecnicamente com produções de alto orçamento.

Isso não é utopia.

É o presente, ainda em fase de assimilação e melhoria.

Alguns sinais dessa mudança já começaram a aparecer. O filme de animação independente Flow chamou atenção internacional ao demonstrar que pipelines digitais mais leves podem produzir resultados estéticos sofisticados sem a infraestrutura gigantesca de estúdios como Pixar ou DreamWorks Animation. É mais que uma nova estética: é um novo modo de produzir.

Ao mesmo tempo, nos bastidores da indústria, a IA já participa de etapas importantes da produção: rejuvenescimento digital de atores, criação procedural de cenários, ferramentas de pré-visualização automatizadas.

As greves de roteiristas e atores em 2023 mostraram que o impacto da tecnologia não é apenas técnico e não se limita somente à democratização da produção independente.

Nas grandes produções, novas ferramentas digitais vêm ampliando as possibilidades do cinema em escala inédita.

Hoje, tecnologias como virtual production com painéis LED, captura volumétrica, renderização em tempo real com motores gráficos, simulações físicas avançadas e IA aplicada à composição visual permitem construir mundos inteiros dentro de estúdios ou computadores com um grau de realismo que, há poucos anos, exigiria deslocamentos, cenários físicos monumentais ou meses de pós-produção.

Produções recentes têm utilizado motores gráficos como Unreal Engine para pré-visualização e filmagem em tempo real, sistemas de digital doubles para cenas complexas de ação, além de algoritmos de crowd simulation capazes de gerar multidões digitalmente. Ferramentas de machine learning aplicadas aos efeitos visuais também aceleram processos que antes exigiam equipes inteiras trabalhando durante meses.

O resultado é paradoxal: as mesmas tecnologias que permitem a um criador solitário produzir um curta em casa também ampliam a escala visual das superproduções.

É um impacto estrutural.

Tecnologias mudam ferramentas, mas também redistribuem poder.

Durante décadas, quem controlava câmeras, estúdios e distribuição controlava o cinema.

Agora, cada vez mais, quem controla ideias, estética e comunidade começa a disputar esse espaço.

Mas há uma ironia nesse novo cenário: ao mesmo tempo em que produzir filmes ficou muito mais fácil, ser visto ficou muito mais difícil. O lago está cheio de peixes e a disputa por visibilidade nunca foi tão ferrenha.

Quando milhões podem produzir cinema, a escassez deixa de ser técnica e passa a ser outra coisa: de atenção.

O verdadeiro gargalo agora não é mais a câmera, e sim a relevância.

E existe aqui um detalhe menos celebrado: a democratização das ferramentas não garante automaticamente diversidade de ideias. Plataformas continuam concentrando distribuição e algoritmos continuam premiando fórmulas previsíveis.

Alguns muros caíram, sim, mas novos filtros surgiram.

Nos próximos anos veremos algo ainda mais radical: micro-estúdios criativos formados por uma ou duas pessoas. Diretores que escrevem, produzem, editam e finalizam obras inteiras com apoio de IA. Pequenos coletivos que funcionam como verdadeiros laboratórios narrativos distribuídos.

O cinema não fugirá da lógica que vivemos quando o YouTube provocou na televisão uma explosão de vozes inesperadas — algumas medíocres, outras extraordinárias.

Mas esse paradoxo é profundamente enriquecedor: traz diversidade, alternativas e novas ideias.

Se qualquer pessoa pode gerar imagens impressionantes em minutos, o valor já não está mais na capacidade de produzir imagens. Está na capacidade de imaginar algo que ainda não tenha sido gerado mil vezes.

A inteligência artificial democratiza a produção.

Mas torna a originalidade ainda mais rara.

Talvez estejamos voltando ao ponto mais simples de todos.

Antes dos estúdios.

Antes de Hollywood.

Antes das câmeras digitais — e muito antes dos algoritmos.

Alguém simplesmente decidiu contar uma história para outra pessoa.

E assim nasceu o cinema.

A inteligência artificial jamais vai mudar isso.

Ela apenas devolve essa possibilidade a muito mais gente.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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