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Roberto Amaral

Cientista político e ex-ministro da Ciência e Tecnologia entre 2003 e 2004

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A política externa do império: projeção e produto de sua história

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala

O presidente dos EUA, Donald Trump - 13/01/2026 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

Nada do que estamos assistindo é estranho à história da formação da sociedade estadunidense, marcada pela violência da colonização, que é a semente de suas relações com o mundo, dos tempos ingleses e espanhóis dos primeiros aventureiros até aqui: animus de beligerância à beira da barbárie sem descanso, que, aos olhos da humanidade de hoje, apenas se aprofunda, pragmaticamente desapartada de limites éticos ou de cuidados semânticos, aposentado o vencido cinismo liberal do discurso “politicamente correto”.

O big stick permanece a postos; variável é tão-só a fala.

O far west não é um só momento da saga dos pioneiros. É uma ideologia de expansão e domínio. É o direito (ou a força que se transforma em direito) que se legitima pela efetividade. Ou, para usar termos mais amenos, que se efetiva pela sua naturalização. Frantz Fanon já nos falou sobre a alienação do colonizado, reproduzindo como seus os interesses do colonizador. Há pouco nos foi dado conhecer as incursões mais ou menos bem-sucedidas de políticos brasileiros de extrema-direita obrando junto à Casa Branca contra interesses nacionais. Igualmente são públicas as tratativas de plantadores de soja e exportadores de carne negociando, em nosso nome, em Washington, o tarifaço de Trump.

O direito das gentes é a força que se faz valer e respeitar, como antes se faziam respeitar as legiões romanas, como hoje os marines (com o arsenal atômico de Washington em seus espadares) ditam a “nova ordem mundial”. Tragédia ou farsa, a “Conquista do Oeste” é a conquista do mundo, uma saga que começou quando os primeiros hominídeos desceram das árvores.

O far west não é um momento passado, vencido ou superado. É uma política vigente.

A violência, insisto – porque está no eixo explicador da história presente – é o traço formador da alma dos EUA: a ocupação do vasto território; a conquista do Oeste; a deliberada destruição das civilizações nativas; a escravidão luciferina; o racismo levado ao paroxismo; o macarthismo no século XX; e, em pleno século XXI, a violência contra imigrantes em país construído por imigrantes, e a sobrevivência da inominável Ku Klux Klan. As muitas guerras, nenhuma em defesa de seu território (jamais ameaçado); todas elas guerras de agressão, quase todas guerras de conquista territorial, de que é exemplar a guerra contra o México (1848) e a usurpação de nada menos do que 55% de seu território original.

Não há, pois, por que cuidar do trumpismo — ainda que sua violência espante até os súditos mais fiéis  — como um fenômeno próprio. Jamais um surto pananoide.

Como dizia Ernest Renan, “a nação é uma alma, um princípio espiritual”. A “alma estadunidense” é filha e mãe de sua história.
E nada mais estadunidense do que a índole do imperialismo — desnaturado ainda pela explosão do capitalismo monopolista, desnaturado por necessidade de expansão sem freios. O capitalismo é um Leviatã que não pode parar de crescer, de expandir-se; romper limites é o determinismo de sua pantagruélica fome cosmológica.

Lênin, escrevendo em 1916 ("Imperialismo: fase superior do capitalismo"), ditava que “o imperialismo é o capitalismo em sua fase superior, caracterizado pela dominação dos monopólios e do capital financeiro, pela exportação de capitais, pela partilha do mundo entre os grandes trustes internacionais e pela conclusão da partilha territorial do globo entre as grandes potências capitalistas”. Não foi lido pelos estrategistas brasileiros. Épena, pois ainda é preciso dizer-se que imperialismo não é apenas política externa, mas uma estrutura histórica do capitalismo, resultante da fusão entre capital bancário e industrial e da necessidade sistêmica de expansão, a que, antes, se referiu Marx: o capitalismo depende de sua expansão, e esta expansão depende da conquista permanente de mercados, da conquista de territórios e de riquezas, de matérias-primas e insumos e, sempre  de mercado consumidor.

Para tudo isso, vale-se ainda da conquista ideológica do domínio da narrativa que construirá o real.

O imperialismo norte-americano, este de que cuidamos, começa a tomar o corpo contemporâneo no encontro da explosão de seu alto desenvolvimento capitalista com a decadência da Europa, despreparada para o fim da exploração colonial (a irremovível decadência cíclica dos impérios).

A autodepredação da I Guerra Mundial semeia o terreno para a emergência de fenômenos siameses: a crise econômica continental; a recuperação econômico-militar da Alemanha; o nazifascismo; o Eixo; a guerra; e, com a guerra, a segunda morte da Europa. Os vitoriosos, antípodas, são os EUA e a URSS, que, aos trancos e barrancos, arregaçam as mangas para construir o “novo” mundo em disputa, ora fatiado, ora ceifado ao meio expondo os espaços nos quais as potências nucleares vão exercer, sem peias, seu domínio.

Eram os tempos da polaridade militar-ideológica entre capitalismo e socialismo. Cada um cuida do seu quinhão, de sua área de influência. Sabe-se como tudo terminou.

Os EUA, os grandes vitoriosos — campeões em todas as frentes: militar, econômica e político-ideológica —, são o novo regente, guia e tutor do Ocidente. Cuidam de arrumar a casa... para si (arrumar a casa é reorganizar o mundo segundo seus interesses como líderes planetários).

Na Conferência de Bretton Woods (1944, portanto antes da rendição da Alemanha e das bombas atômicas sobre o Japão, em 1945), reuniram delegados de 44 países aliados para definir o novo sistema monetário e financeiro. Estabeleceu-se uma nova ordem monetária internacional, tornando o dólar a moeda central da economia global, moeda de referência internacional, que os EUA poderiam emitir, e podem até hoje, e emitem livremente, seguindo apenas como parâmetro interesses políticos, econômicos ou estratégico-militares.

Para seu suporte e intervencionismos sem conta, são criadas instituições de atuação global como o BIRD, o FMI e o Banco Mundial e, em 1947, o GATT (semente da hoje escanteada OMC). Passados 82 anos da histórica cúpula capitalista num bucólico vilarejo nas montanhas de New Hampshire, esta é ainda a base estrutural-financeira da hegemonia do imperialismo, a base material do que se chamou de “século americano”, que igualmente se aplica às primeiras décadas deste indócil século XXI.

Permanecem globais e onipotentes as instituições inventadas para controlar e estabilizar o sistema financeiro, que, controlando os grandes capitais, os grandes investimentos e os grandes fluxos, transformam-se também em instrumentos de reprodução da dependência.
Mesmo perdendo força (coisa que os senhores da guerra não ignoram), o dólar segue como principal moeda de reserva, e os EUA conservam o poder de financiar seus déficits em sua própria moeda. Caso único.

Seguiram-se os muitos anos de disputa entre o império americano e a URSS de então, emergente e vitoriosa, inclusive militarmente. No contrapelo surge a “Cortina de Ferro”; são os ventos da Guerra Fria, timbrados também pelos frustrados esforços soviéticos tanto de concorrência quanto de “convivência pacífica”, afinal sepultados com o fracasso da Perestroika.

A polaridade Ocidente-Oriente, EUA-URSS, capitalismo-socialismo dissolve-se como neve no verão com a simbologia da queda do Muro de Berlim (1989), mensageiro da falência militar, política, econômica e ideológica do projeto soviético, esgotamento político que traria consigo a frustração da experiência socialista, que à humanidade não foi dado conhecer.

A polaridade é substituída pela hegemonia do capitalismo monopolista, esta de hoje, determinante do caráter do imperialismo dos EUA, sua locomotiva, seu aríete, seu beneficiário.

Entra em cena um terceiro personagem.

A China é ator que construiu quase monopólios em terras raras: segundo dados disponíveis, detém 25 mil patentes sobre esses elementos; garantiu acesso preferencial a minerais na África e na América Latina; articulou financiamento, infraestrutura e suprimento via a Nova Rota da Seda. Mas não só. Avançou extraordinariamente em educação, ciência, tecnologia e inovação, e hoje é a segunda potência econômica do globo, vis-à-vis a economia dos EUA, da qual se aproxima. Por força desse desenvolvimento, tornou-se a “fábrica do mundo”.

Este é seu poder, mas pode ser, igualmente, seu calcanhar de Aquiles: seus produtos precisam ser vendidos (transformados em receita, divisas), o que depende de mercados. Estudos desenvolvidos nos EUA indicam a concorrência econômica e tecnológica com a China, apontando a superação dos EUA em algo como vinte anos.

Esta prospecção não está, como não poderia estar, ausente dos gabinetes civis e militares de estudos estratégicos em todo o mundo. O poderio militar dos EUA continua de pé, e é nele que os avanços da política se assentam.

Mas o poderio econômico dos EUA — nada obstante a evidência de serem ainda hoje a maior potência do mundo — dá sinais, senão de esgotamento, de cansaço, sugerindo a impossibilidade de manter a liderança mundial frente ao avanço chinês, que, até aqui, parece não conhecer tropeços. O palpável é que a China prossiga no desenvolvimento, proteção e sustentação de sua malha comercial mundial, que inclui a Rota da Seda e seus investimentos de toda ordem, mas inclui igualmente o mercado norte-americano. Como inclui o mercado europeu e o latino-americano. Não estamos fora disso.

A tradição milenar do Império do Meio ensinou-lhe a consciência da grandeza territorial e o isolamento (o auto bastar-se), que também o apartou da necessidade de expansionismo. Isto está presente na geopolítica de hoje, mesmo considerando a política de hostilidade dos EUA. Seu cinturão de segurança não é o mundo, mas seu entorno, nomeadamente Taiwan e o Mar do Japão.

A recuperação da antiga Formosa, província desgarrada por Chiang Kai-Shek, em sua  fuga ao perder o confronto com as tropas de Mao Zedong,  pode ser transformada, porém, em necessidade de guerra e, ao lado de tudo isso e por tudo isso, em necessidade de consolidação estratégica, industrial e de segurança, em face de seu alto desenvolvimento tecnológico, nomeadamente em chips.

Afora esse nível de contingência, a China não se deslocará da China.

A Rússia, sem dúvida o segundo arsenal atômico do mundo, não tem por que pensar nas dores do mundo: cuida de sua soberania, e sua prioridade óbvia é a guerra contra a Ucrânia e o enfrentamento às ameaças da OTAN, que visa à sua sufocação. São óbvias suas prioridades, e é óbvia a necessidade de manter o canal de interlocução com os EUA, onde, por sem dúvida, se negociam interesses. A China, porém, com seu comércio mundializado, e assim muito quedada na dependência do desdobrar da política americana — aquela que se discute entre o Departamento de Estado e o Pentágono -- ,  pode ser levada a rever sua estratégia militar, hoje defensiva.


À ausência de contendores de seu peso, os EUA permanecerão no centro da arena como digladiador, a um tempo único e imbatível.

A história caminha suas pegadas. Sustentado pela mais poderosa máquina militar jamais conhecida pela humanidade, e tanto onipresente no mundo de hoje quanto as legiões romanas no pequeno mundo daquele então, permanentemente em busca da conquista de mais espaços de presença, como de sempre na Europa, com a ocidentalização e a otanização das antigas repúblicas soviéticas; no Oriente, como na Síria, como na Líbia, como no Irã, como na Palestina; como na Groenlândia; como na América Latina, o grande “quintal” a ser preservado. Nele, talvez constituindo sua porção mais estratégica, entre o Caribe, a Amazônia e os Pampas, entre o Pacífico e um Atlântico vastíssimo, a rota livre do Ocidente. E sobre as riquezas naturais do subcontinente, que não se esgotam no petróleo confiscado da Venezuela.

O mundo, visto de hoje, é a “América” dos EUA. Mas a história não é um fato dado,completo, morno, acabado;  nos seus alicerces, quase sempre muito profundos, o processo social é senhor de baraço e cutelo, sempre protegido de nossas especulações, porque os cientistas políticos carecem de instrumentos objetivos de captação do fato antes que  ele salte à realidade.

A crônica conta o diálogo entre dois sábios: Magalhães Pinto e José Maria Alkmin contemplavam os céus das alterosas e filosofavam sobre a política mineira:  os fatos, como as nuvens, mudavam de rumo e de forma à mercê dos ventos.
 

***
 

A encruzilhada e o inimigo principal Enquanto o império desabrido e o terror sionista dirigem sua guerra híbrida ao Irã, governado a mão de ferro pelo islamismo xiita (em si, como uma teocracia, irrecusável anacronismo), vozes progressistas de variados matizes ecoam esforço comovente em busca de um lugar que a história, sobretudo em seus momentos mais dramáticos, se nega a fornecer: o da neutralidade. O lema “fora todos”, mais uma vez, exprime preocupações legítimas, que não devem ser abandonadas mas, à falta de concretude (não há terceira via no horizonte), resulta tão-só numa proclamação de virtude, e uma envergonhada tomada de posição.  Pode resolver justos problemas de angústia existencial, sempre personalíssimos, mas não enfrentará o cerne da questão: a leitura dialética do fato histórico.

Amor à guerra — Artigo do conselho editorial do The Washington Post, de propriedade do magnata Jeff Bezos, publicado em 14/01, celebra o orçamento militar pretendido por Donald Trump, de US$ 1.5 trilhão (aproximadamente 5% do PIB dos EUA). Ao final, o texto menciona os custos envolvidos no recente ataque ao Irã (com mísseis Tomahawk ao preço unitário de U$ 2.2 milhões), e pede que o leitor imagine o custo de um conflito, possivelmente tanto necessário quanto prolongado, com a China. O establishment vê à frente.

Adeus a Rex Nazaré — Meu saudoso amigo Rex Nazaré foi um físico brasileiro de destaque; sua trajetória se confunde com os esforços — muitas vezes tensos e contraditórios — de construção de um projeto nuclear nacional. Com sólida formação acadêmica e atuação relevante na pesquisa em física nuclear, teve papel importante na CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear), participou da formulação e da execução de políticas científicas e tecnológicas voltadas à autonomia do país nesse setor estratégico, para o qual a classe dominante alienada torce o nariz. Para além da institucionalidade, esteve ligado à chamada tentativa de um “projeto nuclear alternativo”, desenvolvido à margem — e por vezes em confronto — com o modelo adotado pelo governo militar, especialmente aquele associado aos acordos internacionais e à dependência tecnológica externa. Essa participação, longe de episódica, expressava uma convicção: a de que o domínio do ciclo nuclear deveria servir a um projeto soberano de desenvolvimento científico e industrial. Professor e pesquisador, Rex Nazaré formou gerações e deixou uma marca duradoura no debate sobre ciência, Estado e soberania no Brasil, ocupando papel singular — crítico e, ao mesmo tempo, comprometido — na história do projeto nuclear brasileiro. Ainda hoje, um projeto por ser.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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