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Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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A queda de Bolsonaro, o fascismo e o ET de Varginha

“Os brasileiros continuam acreditando em ETs imaginários e em fascistas reais porque eles são tratados como coisas normais”, escreve Moisés Mendes

Protesto em São Paulo (Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil)

Um médico explicou a Bolsonaro o que aconteceu no episódio da queda da cama na cela da Polícia Federal. Todos os jornais publicaram a explicação. O resumo é o que segue.

O médico cardiologista Brasil Caiado afirmou que tentou reconstituir o episódio com o ex-presidente nesta quarta e que, pelos ferimentos, constatou que ele caiu ao tentar andar.

Esse texto, assim como está acima, saiu na Folha. O homem que tentou dar um golpe e foi julgado e condenado como chefe de uma organização criminosa faz a reconstituição da própria queda na cela com a ajuda de um médico.

Ambos concluem, a partir das hipóteses levantadas, que Bolsonaro não caiu da cama, mas que deve ter levado um tombo ao tentar andar, depois de sair da cama. 

O homem que até poucos dias atrás era apresentado como possível candidato à Presidência, se fosse anistiado, por declarações dos filhos, de Valdemar Costa Neto, de Tarcísio de Freitas e de Malafaia, entre outros, não sabia se caiu da cama ou se caiu ao sair da cama.

O médico Caiado está certo de que Bolsonaro não pode ficar sozinho na prisão, porque pode cair de novo. Nos Estados Unidos, os jornais deixaram de ouvir as platitudes de especialistas em convenções e leis internacionais para entender Trump.

Estão ouvindo neurologistas, que apontam alguma coisa errada na cabeça do neofascista. Porque ninguém mais quer saber se é legal ou não que o presidente de um país sequestre o presidente de outra nação. Ninguém aguenta mais debater, como parte da normalidade, se o fascismo é normal.

Tão normal que os institutos de pesquisa continuam ouvindo os brasileiros sobre Bolsonaro. Se deve estar preso, se está preso por seus erros (e não por seus crimes) ou por perseguição de Alexandre de Moraes.

A população é incentivada a racionar a partir de premissas só usadas para falar de fascistas. Nunca antes o fascismo teve tanta cobertura das corporações de mídia, sendo colocado sempre ao lado de abordagens de alguma fala de democratas, como se fossem equivalentes. 

Se um democrata, mesmo de direita, diz alguma coisa, um fascista tem que aparecer como contraponto. Porque os jornalões e as corporações em geral precisam contemplar as cobranças do bolsonarismo, cedendo por covardia e por audiência.

O que um dia foi chamado de liberalismo, no seu conceito mais amplo de ideias e valores, e não só de concepção econômica, é hoje hospedeiro de ideias e de figuras da extrema direita. Bolsonaro, Trump, Milei e outros subjugaram a velha direita.

E se reapresenta então mais uma vez a interrogação inevitável: quando vamos nos livrar deles? É justo, é razoável, é ético que meio mundo torça pela morte de Bolsonaro e de Trump? 

Eis a resposta mais óbvia: é. Pelo instinto natural de sobrevivência e pelo instituto legal da legítima defesa. Ao mesmo tempo, nos perguntamos: se eles não existissem, estaríamos nessa situação?

E aí não há como assegurar nada. Nem se eles morrerem logo, se estaremos livres de comandos semelhantes, capazes de continuar, por herança, orientando as atitudes de suas bases, nem todas assumidamente extremistas.

Metade do Brasil dá suporte eleitoral à extrema direita, mesmo que 40% dos brasileiros se declarem moderados nas pesquisas, assim como um terço acredita no ET de Varginha. Porque as mídias das corporações ajudam a legitimar essas pautas. 

Brasileiros acreditam que Bolsonaro e Michelle foram escolhidos por Deus, que Trump sequestrou Maduro para salvar a Venezuela e que Tarcísio de Freitas é um tucano perdido que finge ser bolsonarista.

Trump disse em entrevista esta semana ao The New York Times: “Minha própria moral. Minha própria mente. É a única coisa que pode me parar”. 

Bolsonaro também se considerava imparável e hoje não sabe se caiu da cama ou se caiu por ter saído da cama.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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