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Augusto Taglioni

Jornalista argentino, editor de Internacionais do portal La Política On Line (www.lapoliticaonline.com) e colunista do site de política internacional El Canciller (elcanciller.com)

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A queda de Maduro

Trump abriu a janela para uma transição dentro do chavismo

Nicolás Maduro (Foto: Reprodução/Truth Social/@realDonaldTrump)

Finalmente aconteceu. Depois de 28 semanas de blefes e advertências que não davam em nada, Donald Trump deu sinal verde a uma operação terrestre na Venezuela para capturar Nicolás Maduro e retirá-lo do poder.

O fato é inédito, conspira contra a região como zona de paz e estabelece um precedente perigoso para a vida democrática da América Latina. Nicolás Maduro não foi um líder democrático — esteve longe disso nesses 12 anos no poder — e foi ampliando os limites até romper completamente a democracia com a fraude eleitoral de 28 de julho de 2024.

Ele perseguiu e deteve opositores sem processo judicial prévio, manipulou as instituições do Estado ao seu bel-prazer e transformou a vida dos venezuelanos em uma tragédia, a ponto de expulsar 6 milhões de pessoas de sua terra.

Ainda assim, comemorar bombardeios e endossar que um presidente estrangeiro se autodesigne responsável pelo controle de outro país como se fosse uma casa de fim de semana é problemático. É o que pensam, a partir do progressismo, Lula e Claudia Sheinbaum — ou, desde a ultradireita europeia, Marine Le Pen. Essa discussão está em andamento e, como sempre acontece, vira um labirinto narrativo bizantino do qual é difícil sair.

A doutrina Trump

Por isso, torna-se mais interessante concentrar-se no que podem ser os próximos passos. E, nessa análise, há vários pontos-chave. Um deles diz respeito ao brutal intervencionismo norte-americano como marca registrada da nova etapa de Trump no poder. Isso inclui o sequestro do presidente de um adversário ou o resgate financeiro de um aliado em crise, como ocorreu com Javier Milei. Frontalidade imperial, americanismo unilateral.

A segunda conclusão é o desprezo absoluto de Washington por María Corina Machado e Edmundo González Urrutia para liderar a transição — algo que tira o eixo dos trumpistas locais. Parece que, no universo MAGA, eles não são considerados capazes de assumir por não controlarem totalmente os militares, o território e os recursos. Por isso, abre-se uma janela com Delcy Rodríguez e um possível recambio interno. O chavismo ganha tempo, como Putin na guerra da Ucrânia. Um acordo disfarçado de retórica.

Dirigentes importantes, com diálogo com Nicolás Maduro e a primeira linha chavista, afirmam que essa movimentação de peças vai nessa direção, para além das retóricas inflamadas e das proclamações. “É a única maneira”, sentencia um deles.

Torna-se mais interessante concentrar-se no que podem ser os próximos passos e, nessa análise, há vários pontos-chave. Um deles diz respeito ao brutal intervencionismo norte-americano como marca registrada da nova etapa de Trump no poder. Isso inclui o sequestro do presidente de um adversário ou o resgate financeiro de um aliado em crise, como ocorreu com Javier Milei. Frontalidade imperial, americanismo unilateral.

No caminho, a ponte pode se romper e os Estados Unidos podem voltar a atacar a Venezuela, mas, numa leitura rápida dos fatos desse sábado intenso, o que se pode inferir é que Trump não quer outro Juan Guaidó e entende que precisa de alguém com poder, mas alinhado a seus interesses.

É uma interrogação total se a foto da vice-presidente com Diosdado, Padrino López, Jorge Rodríguez, juízes e militares faz parte do início de uma nova etapa — talvez ainda autoritária, mas com linha direta com Washington — ou se é uma encenação que pode se desfazer por disputas internas pela sucessão, semelhantes às que antecederam a morte de Hugo Chávez.

A queda de Maduro

Seja como for, a mulher sobre quem recaem hoje as expectativas é Delcy, que precisa somar dias no cargo para não ter de convocar eleições imediatamente — algo que os Estados Unidos não exigiram de forma direta. “Corina está fora”, arrisca dizer um ex-candidato de direita que não tem boa relação com a líder opositora. “Não se surpreendam se Delcy e Diosdado convocarem dirigentes da oposição que estão enfrentados com Corina”, prevê outro.

A operação contra Maduro também coloca em jogo a disputa interna dos republicanos. Se a intervenção resolver a crise e a Venezuela se ordenar — ainda que por meio de um processo interno do chavismo — Marco Rubio pode ganhar uma medalha que o coloque na corrida presidencial de 2028.

A operação contra Maduro também coloca em jogo a disputa interna dos republicanos. Se a intervenção resolver a crise e a Venezuela se ordenar — ainda que por meio de um processo interno do chavismo — Marco Rubio pode ganhar uma medalha que o coloque na corrida presidencial de 2028.

Se, ao contrário, o fracasso levar o país sul-americano a um cenário de instabilidade, com guerra prolongada como a que ocorreu na Líbia, quem vai esfregar as mãos será JD Vance, o vice de Trump, que também trabalha para suceder seu chefe. No meio disso, Trump quer melhorar sua imagem e neutralizar sinais de rebeldia no Partido Republicano. Tudo tem a ver com tudo.

A sombra do Vietnã que ameaça Trump na Venezuela

A região observa com expectativa. Aliados de Trump, como Milei, Santiago Peña e Daniel Noboa, exageram a felicidade, mas, no restante — à direita e à esquerda — prevalece a preocupação. Talvez, se tivessem ouvido Lula depois da barbaridade que fizeram nas eleições, a história seria outra.

A queda de Maduro não parece resolver grande coisa. Ela reorganiza as peças de um tabuleiro que tem ancoragem global e dependerá de como se desenhará o esquema final, em que potências como China ou Rússia façam valer seu poderio, para sabermos quão alarmante é o destino para o qual estamos caminhando.

A Venezuela precisa recuperar a democracia. Maduro caiu, mas o regime segue intacto, com o controle dos recursos e, sobretudo, das armas.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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