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Francisco Calmon

Combatente da ditadura desde a adolescência, prisioneiro nos cárceres da ditadura do Doi-Codi ao HCE. Advogado, administrador e analista de TI. Organizador da RBMVJ e do Canal Pororoca.  Autor e organizador de vários livros, entre eles “60 anos do golpe: gerações em luta”.

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A quem, de fato, responde o Banco Central?

Ao ampliar a autonomia do Banco Central, institucionaliza-se um modelo onde decisões cruciais, como a taxa de juros, escapam da mediação democrática

Banco Central do Brasil (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

O movimento em torno de Gabriel Galípolo não é apenas técnico, é político. Ele revela a consolidação de uma espécie de “quarto poder” da República: um Banco Central cada vez mais autônomo, blindado do controle democrático e operando como um poder paralelo.

Essa direção não surge do nada. Há uma clara similaridade de pensamento entre Galípolo e Roberto Campos Neto. Ambos já se posicionaram contra o pleno emprego sob o argumento de que ele pressionaria a inflação, ou seja, que trabalhadores com mais poder de decisão seriam um problema. No fundo, trata-se de uma escolha política: conter salários e preservar a lógica do mercado como prioridade.

A PEC 65/2023 também não é um detalhe isolado, ela aprofunda a independência do Banco Central ao dificultar ainda mais a influência de governos eleitos sobre suas decisões, especialmente na definição da taxa de juros. E aqui entra um ponto central: a taxa Selic, a taxa básica de juros da economia, o principal instrumento do Banco Central. 

A taxa Selic funciona como referência para todas as outras taxas do país: quando a Selic sobe, o crédito fica mais caro, o consumo tende a cair e o investimento diminui; quando cai, o crédito se torna mais acessível, incentivando a atividade econômica. Ou seja, não se trata de um tema técnico distante, é uma decisão que impacta diretamente o emprego, o crescimento e o custo de vida. 

Ao tornar o Banco Central mais autônomo sem ampliar os mecanismos de controle democrático, a PEC 65 desloca esse poder para uma esfera cada vez menos acessível à sociedade.

Ela é fruto dessa mesma visão, construída ao longo das gestões de Campos Neto e seu antecessor, e agora aprofundada. Ao ampliar a autonomia do Banco Central, institucionaliza-se um modelo onde decisões cruciais, como a taxa de juros, escapam da mediação democrática. 

Mesmo com a recente redução da taxa Selic, o país segue entre aqueles com os maiores juros reais do mundo. Isso significa, na prática, que o dinheiro aqui é caro, muito caro. E quando o dinheiro é caro, investir se torna mais difícil, produzir se torna mais arriscado e o crescimento perde fôlego. 

Ao mesmo tempo, juros elevados beneficiam diretamente quem vive de renda financeira. Não se trata apenas de controlar a inflação, trata-se também de como a riqueza é distribuída na economia. Mais concentração,  menos distribuição.

É nesse ponto que a ideia de ampliar a autonomia do Banco Central precisa ser enfrentada com clareza.

Autonomia em relação a quem ou a quê? 

Se for autonomia em relação a pressões políticas de curto prazo, há um argumento possível. Mas, no modelo que vem sendo desenhado, o que se observa é uma autonomia que afasta o Banco Central da soberania popular, e força os laços com o mercado.

E é nesse ponto que a engrenagem política se revela. Essas nomeações, no Banco Central, no Ministério da Fazenda e em espaços estratégicos da política econômica, têm em Fernando Haddad uma referência central. O que está em jogo não é apenas uma escolha técnica, mas a formação de um projeto de poder que combina discurso progressista com conciliação estrutural com o mercado.

A preocupação não é trivial. Haddad se consolida como um quadro político de projeção nacional, com horizonte de governo estadual e até de presidência. Mas que projeto é esse que se desenha? Se a conciliação com o mercado é inevitável, que ela ocorra à luz da democracia e não por meio do fortalecimento de instituições blindadas, que retiram da sociedade o direito de decidir os rumos da própria economia através de seus representantes. 

Essa dinâmica, no entanto, não é nova. Desde seus primeiros mandatos, Lula optou por indicar para o Banco Central nomes profundamente vinculados ao sistema financeiro. 

Em 2003, a escolha de Henrique Meirelles, então presidente mundial do BankBoston, já sinalizava uma estratégia de conciliação (ou subordinação?) com o mercado. Sua longa permanência no cargo consolidou um modelo de autonomia de fato da autoridade monetária. Na sequência, Alexandre Tombini, embora de perfil mais técnico, deu continuidade à mesma lógica. 

Já no atual governo, a ascensão de Gabriel Galípolo com trajetória no mercado financeiro, e passagem pelo setor privado, reafirma esse padrão. 

Ou seja, mais do que decisões isoladas, trata-se de uma orientação persistente: a condução da política monetária sob forte influência de quadros alinhados ao sistema financeiro, o que tensiona os limites entre autonomia técnica e compromisso democrático.

No fim, a pergunta permanece: a quem, de fato, responde o Banco Central?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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