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Mário Maurici

Jornalista, ex-vereador e ex-prefeito de Franco da Rocha, ex-vice-presidente da EBC e ex-presidente da Ceagesp. Atualmente, deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa de São Paulo.

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A reorganização da extrema direita em São Paulo

Os próximos meses serão decisivos para entender até onde essa reorganização da extrema direita paulista pretende chegar

Assembleia Legislativa de São Paulo (Foto: Alesp/Divulgação)
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São Paulo sempre ocupou um papel estratégico na consolidação da extrema direita brasileira. Não é de hoje que o Estado se tornou um dos principais centros eleitorais do bolsonarismo raiz, projetando figuras que utilizam discursos radicais e transformam em método político o confronto permanente, a desinformação e a polarização. 

O que chama atenção neste momento é o nível de organização que vem sendo construído dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Estou em meu segundo mandato como deputado estadual e convivo diariamente com esse ambiente. Posso afirmar que, nos últimos anos, nunca vi uma articulação tão intensa quanto a que vem acontecendo desde o final de 2025. 

Trata-se de um movimento coordenado, com o envolvimento de diferentes personagens e conexão direta com o núcleo mais ideológico do bolsonarismo. Os efeitos concretos desse realinhamento ainda serão medidos ao longo dos próximos anos, mas alguns sinais já são visíveis e merecem atenção.

Talvez o ponto mais significativo dessa reorganização esteja na montagem do tabuleiro da extrema direita para as eleições de 2026. Há alguns dias vimos o anúncio da pré-candidatura do presidente da Alesp, André do Prado, ao Senado Federal, tendo como primeiro suplente em sua chapa Eduardo Bolsonaro, que está foragido nos Estados Unidos.  

A composição representa muito mais do que uma simples aliança eleitoral. Talvez, ela simbolize a tentativa de unir o controle institucional da maior Assembleia Legislativa do país ao núcleo mais ideológico do bolsonarismo, reforçando o vínculo entre o PL paulista e a família Bolsonaro, ao mesmo tempo em que amplia a influência do grupo dentro das estruturas de poder em São Paulo. 

Diante da inviabilidade de nomes importantes do bolsonarismo, percebe-se a construção de um projeto para transformar André do Prado em um dos principais nomes da direita paulista para o governo do Estado nos próximos anos, posicionando-o como peça estratégica da extrema direita para manter o controle político de São Paulo. 

Outro elemento que ajuda a dimensionar essa articulação é a frequência com que deputados estaduais da Alesp têm viajado aos Estados Unidos para encontros com Eduardo Bolsonaro. Não se trata de episódios isolados ou meramente protocolares. Essas visitas revelam a conexão política entre a extrema direita paulista e o núcleo bolsonarista instalado no exterior. 

Em novembro de 2025, os deputados Gil Diniz e Paulo Mansur, ambos do PL, integraram uma comitiva para se reunir com Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A viagem ocorreu em meio às discussões sobre pressões econômicas e articulações políticas para prejudicar o Brasil e pressionar uma anistia aos golpistas presos pelos atos de 8 de janeiro. 

Em muitos casos, as viagens acontecem com respaldo institucional e são apresentadas como agendas oficiais, ainda que envolvam reuniões claramente voltadas à construção de estratégias políticas e eleitorais. 

Essas movimentações acontecem paralelamente ao avanço de discursos autoritários, como a defesa recorrente de pautas antidemocráticas, a relativização dos ataques de 8 de janeiro e a tentativa permanente de desacreditar instituições republicanas.

Até mesmo Tarcísio de Freitas tem se aproveitado desta onda, em um flerte com o bolsonarismo radical que começou com a tentativa de viabilizar seu nome à disputa pela Presidência da República. Mesmo depois de ter as portas fechadas, o governador tem se apresentado como um soldado fiel das pautas da extrema direita, investindo seu capital político em articulações nos bastidores. 

Nós, que representamos o campo progressista, não podemos subestimar esse processo ou tratar esses movimentos como episódios isolados. Não são. Há uma estratégia em curso, construída com planejamento, presença digital, articulação institucional e apoio político organizado. E tudo isso está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes. 

A extrema direita cresce justamente onde o Estado falha, onde a insegurança aumenta, onde faltam serviços públicos de qualidade e onde o sentimento de abandono toma conta da população. Por isso, além da denúncia dos abusos e das articulações autoritárias, o campo democrático precisa voltar a disputar esperança, projeto de futuro e capacidade de mobilização social. 

Isso exige organização, unidade política, comunicação popular e presença cotidiana junto ao povo, especialmente nas periferias, nas cidades do interior e entre os setores mais atingidos pela desigualdade social, que na prática são os que sentem na própria carne o veneno da política entreguista da extrema direita.

A Alesp sempre foi um espaço plural, marcado pela convivência entre diferentes correntes políticas e ideológicas. Mas o cenário atual exige atenção redobrada da sociedade civil, dos movimentos populares, das universidades, dos sindicatos e de todos aqueles que valorizam a democracia e o diálogo político. 

Os próximos meses serão decisivos para entender até onde essa reorganização da extrema direita paulista pretende chegar. E ignorar os sinais agora pode significar compreender tarde demais o tamanho da estrutura que está sendo construída por eles para os próximos anos.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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