A reorganização da extrema direita em São Paulo
Os próximos meses serão decisivos para entender até onde essa reorganização da extrema direita paulista pretende chegar
São Paulo sempre ocupou um papel estratégico na consolidação da extrema direita brasileira. Não é de hoje que o Estado se tornou um dos principais centros eleitorais do bolsonarismo raiz, projetando figuras que utilizam discursos radicais e transformam em método político o confronto permanente, a desinformação e a polarização.
O que chama atenção neste momento é o nível de organização que vem sendo construído dentro da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Estou em meu segundo mandato como deputado estadual e convivo diariamente com esse ambiente. Posso afirmar que, nos últimos anos, nunca vi uma articulação tão intensa quanto a que vem acontecendo desde o final de 2025.
Trata-se de um movimento coordenado, com o envolvimento de diferentes personagens e conexão direta com o núcleo mais ideológico do bolsonarismo. Os efeitos concretos desse realinhamento ainda serão medidos ao longo dos próximos anos, mas alguns sinais já são visíveis e merecem atenção.
Talvez o ponto mais significativo dessa reorganização esteja na montagem do tabuleiro da extrema direita para as eleições de 2026. Há alguns dias vimos o anúncio da pré-candidatura do presidente da Alesp, André do Prado, ao Senado Federal, tendo como primeiro suplente em sua chapa Eduardo Bolsonaro, que está foragido nos Estados Unidos.
A composição representa muito mais do que uma simples aliança eleitoral. Talvez, ela simbolize a tentativa de unir o controle institucional da maior Assembleia Legislativa do país ao núcleo mais ideológico do bolsonarismo, reforçando o vínculo entre o PL paulista e a família Bolsonaro, ao mesmo tempo em que amplia a influência do grupo dentro das estruturas de poder em São Paulo.
Diante da inviabilidade de nomes importantes do bolsonarismo, percebe-se a construção de um projeto para transformar André do Prado em um dos principais nomes da direita paulista para o governo do Estado nos próximos anos, posicionando-o como peça estratégica da extrema direita para manter o controle político de São Paulo.
Outro elemento que ajuda a dimensionar essa articulação é a frequência com que deputados estaduais da Alesp têm viajado aos Estados Unidos para encontros com Eduardo Bolsonaro. Não se trata de episódios isolados ou meramente protocolares. Essas visitas revelam a conexão política entre a extrema direita paulista e o núcleo bolsonarista instalado no exterior.
Em novembro de 2025, os deputados Gil Diniz e Paulo Mansur, ambos do PL, integraram uma comitiva para se reunir com Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A viagem ocorreu em meio às discussões sobre pressões econômicas e articulações políticas para prejudicar o Brasil e pressionar uma anistia aos golpistas presos pelos atos de 8 de janeiro.
Em muitos casos, as viagens acontecem com respaldo institucional e são apresentadas como agendas oficiais, ainda que envolvam reuniões claramente voltadas à construção de estratégias políticas e eleitorais.
Essas movimentações acontecem paralelamente ao avanço de discursos autoritários, como a defesa recorrente de pautas antidemocráticas, a relativização dos ataques de 8 de janeiro e a tentativa permanente de desacreditar instituições republicanas.
Até mesmo Tarcísio de Freitas tem se aproveitado desta onda, em um flerte com o bolsonarismo radical que começou com a tentativa de viabilizar seu nome à disputa pela Presidência da República. Mesmo depois de ter as portas fechadas, o governador tem se apresentado como um soldado fiel das pautas da extrema direita, investindo seu capital político em articulações nos bastidores.
Nós, que representamos o campo progressista, não podemos subestimar esse processo ou tratar esses movimentos como episódios isolados. Não são. Há uma estratégia em curso, construída com planejamento, presença digital, articulação institucional e apoio político organizado. E tudo isso está acontecendo bem debaixo dos nossos narizes.
A extrema direita cresce justamente onde o Estado falha, onde a insegurança aumenta, onde faltam serviços públicos de qualidade e onde o sentimento de abandono toma conta da população. Por isso, além da denúncia dos abusos e das articulações autoritárias, o campo democrático precisa voltar a disputar esperança, projeto de futuro e capacidade de mobilização social.
Isso exige organização, unidade política, comunicação popular e presença cotidiana junto ao povo, especialmente nas periferias, nas cidades do interior e entre os setores mais atingidos pela desigualdade social, que na prática são os que sentem na própria carne o veneno da política entreguista da extrema direita.
A Alesp sempre foi um espaço plural, marcado pela convivência entre diferentes correntes políticas e ideológicas. Mas o cenário atual exige atenção redobrada da sociedade civil, dos movimentos populares, das universidades, dos sindicatos e de todos aqueles que valorizam a democracia e o diálogo político.
Os próximos meses serão decisivos para entender até onde essa reorganização da extrema direita paulista pretende chegar. E ignorar os sinais agora pode significar compreender tarde demais o tamanho da estrutura que está sendo construída por eles para os próximos anos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




