A República dos Inodoros
A política não é com eles. Mas os resultados quase sempre são
Existe, em todas as democracias civilizadas (e especialmente nas menos civilizadas) um grupo de cidadãos cuja especialidade é não ter especialidade alguma. São os inodoros, incolores e insípidos da política. Aqueles que, diante da escolha entre o tiro no pé e a facada nas costas, respondem com um suspiro resignado: “Ah, política não é comigo”. E, com essa declaração de isenção, vão lá e votam no incendiário mais próximo. Não por convicção, mas porque ele parece autêntico.
São os membros do PSN: Partido da Sagrada Neutralidade. Não se alinham com esquerda, centro, nem com direita, porque “nenhum deles presta”. Uma análise corajosa, digna de quem leu todos os comentários do primo no Facebook e concluiu que, no fundo, todo mundo é a mesma coisa. Mas, curiosamente, são sempre esses cidadãos que aparecem de manhã cedo no domingo da eleição, com a convicção de um oráculo, votando no sujeito que quer transformar o Congresso num ringue de UFC.
Eles são os verdadeiros mandantes do processo: os eleitores neutros. Não são influenciados por ideologias, apenas por memes. Não leem propostas de governo, mas sabem de cor aquele vídeo em que o candidato arrota e fala “Deus acima de todos!” (com uma camiseta do Flamengo). Essas senhoras e senhores da indiferença política orgulham-se de sua mente aberta, onde qualquer ideia entra e imediatamente se perde num labirinto de falta de bom senso e teorias da conspiração.
E, se você ousar debater, sugerir que talvez, só talvez, seja bom escolher um candidato com mais experiência que um saco de batatas, eles lançarão seu argumento final: “Todos são batata do mesmo saco.” É o equivalente intelectual de atirar uma bomba de fumaça e fugir da conversa. Porque, veja bem, discutir política exige informação, confronto, e o mínimo de esforço cognitivo. E o pessenista não faz esforço. Ele apenas existe. Feito um cupim. Silencioso, inofensivo, até desmoronarem sua casa. E, pior, a dos outros.
No dia seguinte ao pleito, quando os representantes eleitos começam a propor leis como ensino de telepatia nas escolas ou criar o Ministério da Moral e dos Bons Costumes, sob liderança de um pastor que acredita que a Terra é oca, quem você acha que solta o primeiro “meu Deus, em quem foram votar?!”. Exato. Eles mesmos. Os despolitizados, os isentões, os abstêmios da lógica.
E então, como sempre, voltam para seu habitat natural: o sofá, o WhatsApp da família, e o eterno retorno do mesmo dilema: “na próxima eleição, vou pensar melhor.” Mas não pensarão. Estarão ocupados demais decidindo se compram alcatra ou maminha para o churrasco de domingo.
A política não é com eles. Mas os resultados quase sempre são.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



