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Racha na direita: Kassab e Flávio disputam apoios de partidos

Republicanos e federação União-PP adiam decisão, negociam vantagens e mantêm diálogo com o presidente Lula

Racha na direita: Kassab e Flávio disputam apoios de partidos (Foto: PAULO GUERETA/GOVSP)

247 – A disputa interna na direita brasileira para a eleição presidencial de 2026 ganhou novos contornos com a ofensiva simultânea do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do PSD, comandado por Gilberto Kassab, em busca do apoio do Republicanos e da federação formada por União Brasil e PP. Embora cortejados por ambos os lados, esses partidos optaram por adiar qualquer definição, usando o tempo como instrumento de negociação política e preservando canais de diálogo com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As informações são do jornal O Globo, que aponta que Republicanos e União-PP são vistos como ativos estratégicos por reunirem três fatores decisivos em uma eleição nacional: tempo de propaganda na TV, peso no Congresso Nacional e capacidade de estruturar palanques estaduais competitivos. Justamente por isso, os dois blocos preferem manter liberdade de movimento, evitando um alinhamento precoce em um cenário ainda marcado pela polarização.

O PL passou a encampar de forma mais direta o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro após uma indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas o caminho deixou de ser exclusivo desde que o PSD filiou, há cerca de duas semanas, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. A entrada de Caiado no partido ampliou o leque de alternativas da oposição e acirrou a disputa por alianças, reduzindo a margem de manobra do campo bolsonarista.

PSD amplia o tabuleiro e pressiona por definições

Além de Caiado, o PSD apresenta como potenciais presidenciáveis os governadores do Paraná, Ratinho Jr., e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Esse conjunto de nomes fortalece a sigla nas negociações e aumenta sua capacidade de atrair partidos de centro e de direita que buscam um projeto competitivo, mas menos identificado com o núcleo mais duro do bolsonarismo.

O fortalecimento dessas alternativas levou a uma intensificação das articulações. Integrantes do PL relatam que emissários de Flávio Bolsonaro e de Valdemar Costa Neto intensificaram, nas últimas semanas, conversas com dirigentes do Republicanos e da federação União-PP. O argumento central é que a direita chegaria mais competitiva se reduzisse a dispersão desde já, fortalecendo um nome presidencial e dando previsibilidade às alianças estaduais.

As conversas incluem acenos sobre espaço na chapa, como a indicação de um vice, e participação relevante em palanques regionais. Do lado do PSD, a estratégia também passa por negociações estado a estado, sobretudo onde União, PP e Republicanos possuem quadros fortes e eleitorado consolidado.

Minas, Paraná e Rio entram no centro das negociações

Em Minas Gerais, o PSD trabalha com a pré-candidatura do vice-governador Mateus Simões e sinaliza à federação União-PP e ao Republicanos a possibilidade de espaço tanto na chapa majoritária quanto nas disputas ao Senado. Ao mesmo tempo, o União flerta com a filiação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), visto como possível candidato à sucessão do governador Romeu Zema, enquanto o Republicanos tem o senador Cleitinho Azevedo como nome competitivo, ainda sem decisão formal.

No Paraná, o PSD deve lançar o secretário de Cidades, Guto Silva, e aposta na projeção nacional do governador Ratinho Jr. para aproximar União, PP e Republicanos da chapa estadual. Já no Rio de Janeiro, onde o Republicanos integra a gestão do governador Cláudio Castro (PL), a estratégia do PSD é explorar a desorganização da base governista para oferecer espaços na aliança liderada pelo prefeito Eduardo Paes.

Republicanos, eleitorado evangélico e o debate sobre a vice

O Republicanos aparece como um dos alvos mais cobiçados da disputa por sua ligação histórica com a Igreja Universal e pela forte penetração no eleitorado evangélico. Dirigentes da legenda afirmam que o tema ainda está em avaliação e que qualquer decisão sobre coligação presidencial dependerá do arranjo nos estados.

No campo de Flávio Bolsonaro, uma das possibilidades discutidas é a indicação de uma mulher para a vice-presidência. Um grupo de aliados defende a senadora Damares Alves (Republicanos-DF). A própria parlamentar comentou o debate interno: “Eu levantei essa bandeira de que Flávio precisa ter uma vice mulher, e a minha indicação é a (senadora) Tereza Cristina (PP-MS). Ainda não sei se meu partido estará com Flávio, mas seguirei a orientação de Bolsonaro”.

Apesar de ser cortejado pela direita, o Republicanos mantém presença no governo federal. A sigla comanda o Ministério de Portos e Aeroportos, ocupado por Silvio Costa Filho, e abriga quadros que defendem a manutenção da interlocução com o Planalto. Dirigentes admitem que o partido dificilmente caminhará de forma homogênea para qualquer um dos polos neste momento, avaliando inclusive a liberação dos diretórios regionais para composições distintas, especialmente no Nordeste.

União-PP adota cautela e posterga decisão

Na federação União-PP, a avaliação predominante é de que o cenário segue polarizado, mas ainda aberto. Dirigentes reconhecem que Flávio Bolsonaro passou a ser tratado como um nome viável, embora ressaltem que o apoio dependerá do desenho final da campanha e das negociações regionais.

Internamente, há a leitura de que o senador teria mais facilidade para consolidar alianças se concentrar seu discurso em temas de maior convergência no eleitorado conservador, como segurança pública e combate à corrupção, evitando pautas que gerem resistência fora do núcleo mais fiel ao bolsonarismo. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, resumiu a posição cautelosa da sigla: “Minha relação com o Flávio é a melhor possível, mas essa decisão só tomaremos mais para frente”.

A prudência do PP também é influenciada pela relação com o governo federal, já que o partido ocupa o Ministério do Esporte. Do lado do União Brasil, o vínculo com o Planalto também é relevante, com indicações nos ministérios do Desenvolvimento Regional, Turismo e Comunicações. O entorno do presidente Lula avalia que cerca de 20 deputados da bancada de 59 da legenda podem apoiá-lo, o que reforça a estratégia de esperar antes de qualquer alinhamento definitivo.

Nesse cenário, a disputa entre Kassab e Flávio Bolsonaro por apoios expõe um racha ainda em formação na direita e revela que, mais do que nomes, o centro da eleição de 2026 passa pela capacidade de costurar alianças em um sistema político fragmentado e altamente negociado.

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